As manchetes vinham como tiros: “Possível ataque militar contra seguidores da Esfera”.
As palavras transformavam o mundo em mapas de risco; ruas e estações pareciam meras ilustrações de um atlas de caos e morte.
Naquela manhã cinzenta, o centro de Evanstown estava com as barracas improvisadas que cobriam a praça. Em várias esquinas, velas amontoadas queimavam derramando parafina pelo asfalto nos locais onde pessoas encontraram a morte diante do confronto com as autoridades. O toque de recolher não estava sendo respeitado e como os Arautos não tinham medo da morte, isso era aterrorizante. Todos pareciam estranhamente letárgicos e sem opções viáveis para lidar com o caos.
Mais que parafina, as velas eram algo além de luzes que tremulavam com o vento: queimavam esperança.
Junto com as velas e flores, para todo lado que se olhava, estavam cartazes com olhos desenhados e frases curtas — “Não toque”, “Libertem a Esfera”, “Salvem-nos da Morte”, “Nós vimos o vazio”.
Uma ordem para capturar Crowe foi dada e ignorada. Tentativas de invasão à fazenda pioraram tudo. Os grupos se espalharam e agora, em vez de lidar com um problema concentrado, as autoridades tinham conseguido generalizar o problema de maneira dispersa. Eles pareciam estar em todos os lugares ao mesmo tempo e quando os grupos de ativistas, hackers e antissistema se uniram aos arautos, eles atingiram mais e mais pessoas pelo mundo.
Os discursos de Crowe eram transmitidos online e, de alguma forma, os hijackers conseguiam obliterar os sinais de Tv, colocando o chefe da seita dos arautos da Esfera falando em horário nobre quase todo dia. A solução encontrada era interromper o sinal das emissoras, mas nem isso resolvia, porque logo depois eles passaram a fazer hijacks localizados, pirateando o sinal nos horários mais inesperados. Os técnicos de eletrônica tentavam desvendar como os grupos faziam isso e apostavam suas fichas de que talvez estivessem usando “canhões portáteis de micro-ondas” junto às antenas.
Esse tipo de dispositivo não era algo corriqueiro e indicava um problema maior: alguém com dinheiro para gastar estava por trás do financiamento dos Arautos.
Quando a sirene tocou às duas e meia da tarde, todos correram pelas escadas para o subsolo. Jack Harland, que já estava vestido e bem engomado para o Jornal das Três, descia no meio da multidão de colegas, enquanto ouvia o eco dos megafones orientando: “Desçam devagar, desçam devagar.”
Quando todos estavam na garagem, que funcionava como um tipo precário de bunker, eles se sentaram em grupos à espera de mais explosões.
Dolores bateu a sujeira nas costas do terno de Jack:
— Tenta não se sujar, Jack. Se for outro alarme falso, a gente entra no ar em alguns minutos e não tem outra roupa porque o outro terno não veio da lavanderia.
— Não veio?
— Explodiram ela, Jack. Provavelmente, aquele terno já era.
— Que merda. Eu gostava dele.
Mike se aproximou e sentou-se em posição de lótus ao lado dele. Na garagem no subsolo, dava pra ouvir as sirenes de emergência lá fora, mas elas eram abafadas. Mike nada disse. Apenas ficou ali com eles.
Então veio a primeira explosão. Todos se abaixaram com as mãos na cabeça. Pó caiu do teto.
— Caralho, esse foi perto! — Jack Gemeu.
— Agora os desgraçados começaram a fazer atentados. Estão fora do controle, Jack. Eu disse. — Mike praticamente gritava, porque as pessoas estavam desesperadas ao redor, falando alto, todos ao mesmo tempo.
A acústica da garagem deixava um zumbido horroroso do vozerio misturado com as sirenes na rua. Muitos carros dispararam seus alarmes quando a bomba estourou.
Jack começou a tossir com a fumaça.
— Provavelmente estão atacando com tanques.
— É louco como tudo degringolou a esse ponto tão rápido!
— Merda! Merda… — Dolores gemía. Jack olhou nos olhos da maquiadora e viu o pavor. Ele sabia que ela não estava preocupada com ninguém da GBC, e sim com seus filhos em Springton Bay.
— Calma, gordinha. Calma. — Ele agarrou na mão dela. Ela tremia.
— Eles começaram a atacar escolas, Jack. Se alguma coisa…
— Shhhh. Calma. Não vai acontecer nada, ok? Respira!
Lá fora, nas ruas, pessoas mascaradas corriam com bombas incendiárias. Os carros da Guarda Nacional estavam a quebrar as barricadas de lixo e atacavam os manifestantes.
Do outro lado da cidade, tanques atiravam contra os caminhões. Jatos cortavam o ar, e soldados com máscaras antiácido eram instruídos a não aproximar as mãos das caixas pretas. Elas eram caixas de acrílico, com brilho negro que alguns seguidores carregavam. Ativadas, elas explodiriam como bombas caseiras de fragmentação.
Conforme os confrontos começaram, pequenos núcleos foram se inflamando como óleo no vento.
Um grupo de seguidores — jovens, barbudos, mães com crianças enroladas em mantas — bloqueou a entrada de um quartel. Soldados, nervosos, reagiram com cassetetes.
Nas principais cidades, os arautos estavam formando exércitos paralelos, com cada dia mais mercenários se “alistando” para atacar o sistema. As pessoas tinham perdido completamente a fé no governo, que agora era um grande monstro. Estava acuado. Mas era um monstro poderoso.
A resposta militar foi proporcional: cercos, prisões em massa, operações “para proteger a população”. Os centros de detenção da FEMA começaram a lotar com mais e mais civis presos.
Em contrapartida, os núcleos de Arautos dentro dos presídios só aumentavam, e não demorou para que os presídios começassem a ser atacados e ocorressem fugas em massa de numerários.
Reações similares ocorreram em continentes distantes, onde facções locais viraram “seguidores” ou “sequestrados” de uma crença que ninguém mais ousava avaliar. A revista Time lançou sua capa digital com uma simples bola preta sobre fundo branco e o texto “E agora?”
As bolsas e o mercado financeiro global amargavam prejuízos catastróficos. A confusão era generalizada com disputas entre os países. Praticamente todos os membros do Conselho de Segurança da ONU estavam culpando os EUA pelo verdadeiro “câncer social” que os arautos representavam.
Teorias da conspiração sugeriam que, diante do colapso de sua própria economia, os EUA inventaram a crise da esfera parasita e, sem saber como sair do problema em que haviam se metido, exportaram o problema deles ao mundo. De fato, diante do caos, o ouro e o dólar estavam em valorização.
Quando achavam que não podia ficar pior, veio a bomba: o presidente estava morto.
Um grupo de terroristas da esfera — como o governo passou a chamar os Arautos — tinha sequestrado um tanque de guerra e disparado contra a Casa Branca.
Os terroristas foram mortos pelas forças de segurança na sequência, mas o estrago tinha sido feito.
A morte do presidente e de pelo menos três dos seus assessores diretos, além de vários funcionários feridos, jogou o país na mais completa balbúrdia.
Rádio e TV estavam agora sob lei marcial. Havia pouca notícia. Aeroportos e estações de trens foram fechados. Os sistemas eletrônicos, o sistema bancário e até a internet saíram do ar. Os saques aconteciam descontroladamente. Quando começou a faltar água, a coisa piorou de vez.
Enquanto dentro dos Estados Unidos havia o caos como nunca se viu, houve uma inesperada paz no Oriente.
Em algumas regiões, facções inimigas aproveitaram a atenção da Esfera para reassumir territórios — o conflito secular interrompeu-se por semanas: inimigos deixaram de lutar entre si para concentrar forças na nova variável.
Ações de cessar-fogo improváveis surgiram em mapas de guerra e foram assinadas com canetas trêmulas.
O vice-presidente assumiu em uma cerimônia discreta dentro de um bunker na montanha. Sua primeira ordem executiva foi apresentar André e a Esfera ao mundo.
Quando isso aconteceu, gradualmente, os conflitos começaram a amainar. Talvez Silas Crowe tivesse ordenado um recuo estratégico nos ataques.
Os jornais e Tvs foram liberados aos poucos.
A economia curvava-se cada vez mais como uma árvore sob tempestade. Bolsas de valores mundiais passaram a considerar a Esfera como índice — “ESF” —, e ações de empresas que fabricavam cofres blindados subiram. Em lugares distantes, companhias de turismo ofereciam “Retiros Espirituais da Esfera” em ilhas isoladas.
Livros velhos sobre heresias e rituais já haviam explodido em vendas; o teatro já havia encenado peças mambembes sobre a esfera, enquanto CNN e GBC competiam por quem transmitia mais perto do que a Esfera fazia em silêncio.
O mundo virou uma grande máquina de produzir sentido para um objeto que destruía todo sentido.
Dentro de uma cela, televisionado 24 horas por dia para um canal militar que retransmitia para as emissoras civis, André andava de um lado para o outro, seguido pela bola.
O prédio militar cheirava a desinfetante e medo. O soldado que o vigiava não dormia, mantinha-se prostrado no final do corredor. Nas portas da instalação, o cartaz plastificado: “NÃO APROXIMAR — ISOLAMENTO”.
A essa altura, André não era mais quem outrora tinha sido. Os repórteres, quando falavam dele — e faziam isso sem parar — o chamaram de “o Contato”, “o Alvo” e os seguidores da esfera, “a Última Tela”. Ele passava horas encolhido, revendo os dias em que correra na praia, livre, num tempo quando a Esfera ainda não existia, e o mundo inteiro não fazia ideia de sua existência. Um tempo que parecia cada vez mais distante e inacessível.
Agora, as vozes ecoavam na televisão sobre ele ter se tornado o epicentro de um complicado arranjo geopolítico.
No meio daquele abraço hostil, surgiu um homem que se autodenominou “O profeta”.
Não era grandioso: cabelos ralos, olhos fundos e uma voz de rádio antiga. Não se sabe bem de onde ele veio. Alguns especularam posteriormente que O profeta foi uma invenção do serviço secreto para minar a permeabilização social de Silas Crowe, líder dos arautos.
As pessoas se divertiram no início, com a “guerra dos malucos”. Enquanto Crowe cultuava André e a esfera como uma manifestação divina, o profeta seguia outro caminho. Falava de palavras repetidas até virarem um mantra — “Ele tem que morrer”.
Seu culto cresceu rápido; seguidores dissidentes dos Arautos da Esfera gradualmente se viram com fitas negras em volta do braço, sentados, em massas crescentes, para ouvi-lo pregar.
Especialistas em psicologia e sociologia nas Tvs apontaram que a guerra dos malucos era um sinal da frágil estrutura social.
Por trás de pesados óculos e um cavanhaque quase todo branco, o doutor da Universidade de Van Nellis, David Tomas Wanberg, comparou o momento conflituoso da América com os primeiros anos que precederam o surgimento do Cristianismo.
— Naquele tempo, em Israel, as pessoas estavam sob o jugo de Roma, que cobrava pesados impostos. Desesperadas, sem futuro nem horizonte, as pessoas passaram a crer cada vez mais em milagres, messias e esperanças num sentido celeste.
— Então surgiu Jesus, o Messias. — disse Jack Harland, o apresentador.
O cientista tomou um gole na caneca com o logo do programa e refutou.
— Negativo, negativo. Antes de Jesus apareceram vários outros messias. Jesus foi o que ficou famoso!
— É mesmo? Eu não sabia dessa.
— Não sabia por que a História normalmente é contada pelos vencedores. Ou é contada conforme os interesses, para um fim específico.
— E o senhor acredita que estávamos numa nova fase pré-messiânica?
— Penso em uma nova fase messiânica. As pessoas estão desesperadas por respostas, por um caminho que reconstrua sua lógica, que dê sentido a um mundo caótico. Eles seguirão quem lhes oferecer isso.
Conforme os dias se passavam e as tensões globais se acomodavam, o profeta convocava audiência por ruas e por telas. Na praça, erguia palanques e gesticulava em longos discursos. Seus ouvintes gritavam como se cada palavra fosse a confirmação de que o mundo, enfim, voltaria ao lugar se “o homem” fosse arrancado do cenário.
A proposta era simples e abominável: sacrificar André para restaurar a normalidade.
Havia também aqueles que argumentavam diferente — que executar um homem não salvaria ninguém — mas as vozes, no fim, não convergiam.
As instituições desmoronavam porque já não havia base comum para discordar: cada comunidade media suas verdades com relação à Esfera. Cidades inteiras mudaram feriados para celebrar profetas que apareciam em transmissões; empresas redirecionaram orçamentos para fabricarem lembranças da Esfera; as pessoas compravam camisetas com manchas pretas, tatuavam símbolos que lembravam a desmaterialização. Os seguidores do profeta usavam as camisetas famosas dos arautos da esfera com um X pintado de spray vermelho.
O medo cotidiano tornava a vida quase impossível: ruas vazias, bolsões de conflitos entre o governo, militares, forças de segurança municipais e arautos. E aí estourou uma guerra entre Arautos da Esfera e Seguidores do Profeta.
A normalidade não morreu com um estrondo; evaporou em pequenos gestos, em buracos de rotina onde antes havia lógica.
Em uma vida televisionada de um cubículo numa instalação do deserto, André continuava vivo, infeliz e com medo.
Cada dia de alimentação entregue por trás da porta era um dia a mais para que lá fora, o profeta, a opinião pública e os estrategistas militares, conspirassem sobre o ato final.
Ele escutava tudo: os programas, as discussões, as músicas que agora tinham versos para saudar a esfera parasita e também hinos pela sua eliminação.
André dormia assustado; acordava mais assustado ainda.
A sensação era simples e esmagadora: se a humanidade podia transformar a morte em um projeto político, então, a humanidade já não era mais humana.
CONTINUA

2 Comentários
Que peso, hein! O mundo convulsionando em alta velocidade por causa de um elemento adicionado. Cada capítulo desse conto o faz ficar mais espetacular. Aguardando a parte 9.
Bravo! A história está muito boa, Philipe. Até a próxima parte.