André estava fazendo flexões na cela.
Já estava bem mais forte que há um ano atrás quando se viu preso na instalação. Enquanto malhava, a bola continuava parada, a dois metros e pouco dele, perto da parede branca.
Um estalo chamou sua atenção. A porta se abriu e Nathan Hale entrou, com sua bengala com o cabo de prata trabalhado.
— Professor. — André se levantou e estendeu a mão — tempo que não nos vemos!
Nathan retribuiu-lhe o cumprimento. Apesar da idade, o velho tinha um aperto de mão forte.
— Estive alocado em outros projetos. Mas estamos de volta. Parece que o atual supervisor não estava indo bem.
— Pra te dizer a verdade, nem sei quem é, nunca nem veio aqui. Só vejo o Barry, o Alan, o Ramirez e a Sharon da limpeza…
Nathan olhou na cela. Já estava bem mais decorada. Pôsteres nas paredes, uma estante de livros, um videogame de última geração e a tv de tela plana na parede.
— Sua “casa” melhorou bem — Ele disse investigando as folhas amareladas de uma samambaia — Está faltando água.
— Ou luz. Ela tá ficando doente aqui… Igual eu.
Nathan sentou-se na cama.
— Olhei os relatórios, a nossa amiga ali continua normal. Nada diferente.
— Veja bem, doutor, eu nem vejo ela mais se o senhor quer saber. Com o tempo a gente se acostuma. Eu esqueço que ela está aí.
— Vi nos relatórios que pararam com os testes.
— Pois é. Chegaram à conclusão de que não há conclusão. Agora, a cada dois meses eles me levam para aquela entrevista. E minha vida se resume a isso aqui… Esperar. E encher essa lata de lixo.
André apontou um enorme letão no canto do quarto. Ao lado, um saco preto repleto de papéis.
— Cartas?
— Isso. Pessoas do mundo inteiro me escrevem e eu fico lendo. Quando eu tenho saco, né? Normalmente são baboseiras dos seguidores da esfera e do tal profeta da esfera.
— Isso te irrita?
— Bem, é um passatempo, quando eu estou cansado de jogar, eu leio um pouco, mas fica melhor quando são as cartas de amor daquelas malucas, sabe como é? Tem umas que pedem até pra casar comigo.
— Ah, essas mulheres…
— Gosto das que mandam fotos… “desinibidas” — riu, apontando para a parede onde um pequeno quadrinho de cortiça com alfinetes mostrava várias polaroids de mulheres de todos os tipos, com os seios nus e em poses sensuais. Algumas mostravam bem mais do que seios.
Nathan se levantou, deu mais uma olhada na cela e acenou em despedida.
— Bem… Vou indo. Estava apenas fazendo uma visita de cortesia. Vamos reassumir as pesquisas em breve. Aguarde por novidades. — Disse saindo.
— Ah doutor?
Natan se virou em silêncio já na porta da cela.
— Como estão as coisas “lá em cima”?
— Complicadas, filho. Complicadas demais. — Ele disse com voz resignada.
Nathan saiu, fechando a porta atrás de si. Um novo estalo indicou a tranca magnética sendo ativada.
André olhou para a bola impassível no ar e sentiu um calafrio. Aquela visita foi tudo, menos cordialidade. Ele sabia.
O primeiro aniversário da Esfera amanheceu como se o planeta inteiro respirasse pela boca. Não houve vento nas avenidas, apenas a súbita suspensão dos hábitos. O toque de recolher que ja estava sendo reduzido aos poucos já havia sido suprimido, mas apesar disso o comércio nunca se recuperou totalmente. A economia do país cambaleava.
Havia um odor de medo no ar. Os trens ficaram cheios de pessoas que não conversavam, olhos fixos em telas pequenas, em janelas, nas notícias que repetiam os mesmos números e as mesmas imagens como se repetição fosse normal.
Havia, em cada cidade, um espaço destinado ao Dia: praças interditadas, palcos montados, cercas metálicas, fitas pretas… A Esfera não precisava dizer seu nome; a palavra já circulava nas bocas como oração e também como praga.
Jack harland estava bebendo suco de uva de caixinha enquanto serpentinas de papel lhe davam coceira no pescoço.
Mike chegou tocando uma cornetinha na redação.
— Parabéns Jack ! Voce merece querido!!!
— Obrigado, obrigado!
As pessoas ainda aplaudiam de pé e todos pareciam felizes na redação.
O velho Carl, agora chefe interino do canal, apareceu trazendo uma prancheta e nela numa pasta com o contrato.
Os colegas da redação se abriram e ali estava ele.
— Chegou seu momento, Jack! Finamente hein? Parabéns pela promoção! Quer fazer um discurso?
— Apenas agradeço o apoio de vocês. Obrigado amigos. — Disse o apresentador sem graça.
— Sabe que apresentar o jornal das oito é grande responsabilidade hein camarada? E ainda mais ser eleito o mestre de cerimônias! Assine aqui e aqui e aqui atrás. Esse é o da sua promoção… Ah, e aqui estão os valores dos vencimentos.
Jack conferiu o valor. Era mais que o dobro do seu salario. Ele abriu um sorriso e olhou para Carl.
— E teve upgrade no plano de saúde, Jack. Tá aqui na pagina três. — Ele disse, mostrando o contrato.
Jack assinou e todos aplaudiram. Colegas tocavam cornetinhas e Dolores estava chorando.
— Olhem para este homem, meus amigos! Ele entrou aqui como auxiliar de cabo man. Era um menino quando eu o conheci. Agora vejam onde ele chegou! — Disse Carl, levantando o braço de Jack como se fosse um campeão de boxe ao final de uma luta sofrida. — Jack Harland, senhores, o novo âncora do jornal das oito!
Os aplausos e assovios ecoaram pelos corredores da redção do canal de notícias.
Enquanto Jack celebrava seu grande momento, ele sentia um peso de responsabilidade crescendo nos ombros.
As emissoras concorriam por segundos de exclusividade, e o calendário ficou dividido em fusos de transmissão que prometiam captar o mesmo rito em horas diferentes. Com a chegada do dia, slogans pipocaram: “O Dia da Esfera”, “Por um Futuro Sem Contato”, “Lembrar para Não Tocar”.
O efeito era de um campeonato global que misturava devoção, medo, e marketing. Bandeiras negras surgiram ao lado de outdoors com logos corporativos; patrocinadores compravam tempo de tela entre rezas e discursos. As marcas que haviam abraçado a Esfera meses antes agora patrocinavam a própria cerimônia: um banco que prometia “segurança eterna”, uma companhia aérea que exibiu promoções para “voos de peregrinação” e uma fabricante de rações instantâneas que estampava a frase “Alimente a Memória” em anúncios com imagens de velas e bolas pretas.
Nos cinemas estrearia naquele dia “O homem da esfera” uma biografia ficcional dorigida por Wes Andersen, estrelando Brad Cruise como André, um homem perseguido ela bola misteriosa que luta contra ninjas nazistas e zumbis.
O trânsito de capitais e fluxos financeiros globais pareciam operar com as mesmas leis da superstição: havia herança, especulação, doações e sorteios. O mercado havia aprendido a transformar o pavor em produto; havia aprendido tão bem que o consumo e o culto eram indistintos. Em aeroportos, passageiros usavam camisetas com fitas pretas, selfies ensaiadas ao lado de totens anunciando o horário da transmissão mundial. Na televisão, painéis discutiam o que significava “esferizar-se” — se olhar para a cena seria cumplicidade, educação cívica ou voyeurismo.
“Quantos de nós temos o direito de ver?” perguntou uma apresentadora com o rosto iluminado como uma estátua. A pergunta ficou rápida, sem resposta clara: a audiência pelas notícias da esfera e do grande dia tinha mais fome do que moral.
Havia um grande pacto silencioso mundial para tornar “o dia da esfera” algo memorável, que obliterasse os conflitos que a esfera mesmo havia produzido. O acordo de um cessar fogo entre arautos e seguidores do Profeta estava em curso há mais de 30 dias, e isso havia dado a calma necessária para que o capitalismo começasse sua dança perversa. Os acordos de não investigação, não ataque e sem prisão de membros feito pelo governo haviam garantido uma apaziguada nas relações.
Os jornais tinham celebrado o fim da “guerra civil” e da “guerra dos malucos” poucos dias antes.
Mas abaixo do verniz de normalidade que era espalhado com velocidade e urgência, as brasas do conflito ainda fumegavam.
Em Nova York, diante da sede das Nações Unidas, havia um dispositivo monumental de aço e vidro, telões gigantes e uma plataforma que parecia um palco de estádio. A decisão que fora tomada era formal e, ao mesmo tempo, uma rendição: a ONU, pressionada por governos que queriam evitar retaliações e por uma opinião pública que exigia um desenlace que fosse ao mesmo tempo simbólico e eficaz, adotou uma resolução de consenso: Era mais uma decisão “pau-mole”, mas nada inesperado para a ONU.
Chegar a ela não foi simples. As delegações discutiram em corredores, juristas tentaram contornar precedentes, embaixadas trocavam notas com o cuidado de quem manuseia artefatos explosivos. No fim, por cansaço e medo de fragmentação, as nações aceitaram uma saída que garantisse a paz geopolítica por meio de um sacrifício — haviam decidido a execução de André, deliberada e televisionada, com protocolos rígidos.
Na véspera, surgira uma figura pitoresca que prometera respostas: Um psicólogo chamado Vatek Kovalksuck, que havia se apresentado meses antes como um homem capaz de “mapear ligações entre mentes e esferas”.
Ele deu entrevistas com uma compostura quase de técnico de laboratório: “Há padrões”, disse, “ecos entre trauma e atração. Se conseguimos entender o vínculo, talvez possamos desconectar os dois.”
Em conferências lotadas, traçou gráficos e citou estudos; suas palavras tinham a autoridade sintética de quem combina linguagem científica com drama de talk show. Mas a busca por uma conexão entre André e a Esfera não se consolidou em explicação. O que se sabia era fragmento: memórias truncadas de perseguição, uma infância com um avô que colecionava pedras polidas, uma adolescência marcada por sonhos de buracos negros e tarde demais para traçar causalidade. Em sessões transmitidas ao vivo, VaAtek tentou estimular memórias, pôs André sob hipnose — microfones captaram vozes, lágrimas, e o tilintar das máquinas que gravavam ruídos — e nada provou um elo que justificasse o fenômeno físico.
Uma única coisa que surgiu como a grande novidade do caso foi que na regressão de memórias, André se lembrou que chegou bêbado para dormir depois de tomar umas cervejas com seu vizinho. Ao entrar na casa, ele tropeçou no alpendre e caiu de cabeça no chão. Depois, ainda tonto, se jogou na cama e dormiu. A esfera apareceu no dia seguinte, e nunca provaram conclusivamente que a batida de cabeça teria alguma coisa a ver com a esfera.
Mas foi, a partir dessa descoberta, que uma nova e estranha ideia surgiria.
Foi proposta por uma junta especializada que levantou a hipótese de que de alguma maneira a mente de André havia “manifestado e materializado a esfera parasita” após o acidente. Sob essa ótica, a esfera nao era exógena, mas sim endógena. Daí que pensaram que talvez com uma nova pancada na cabeça — sufocientemente forte — isso poderia desmaterializar a esfera.
André, em suas respostas, alternava clareza e silêncio; havia momentos em que recuava para um cômodo íntimo de lembranças e outros em que parecia apenas um rosto atravessado por perguntas que não lhe pertenciam.
A discussãos e deviam matar André ou dar-lhe uma bornunada na cabeça duraram semanas. E o publico acompanhava. Um painel decidiu resolver por voto popular online e a execução ganhou de lavada da paulada na cabeça. E foi isso que levou ao grande “dia da esfera” quando ela completaria um ano de conflitos e tumultos.
Enquanto isso, nas ruas, as facções que haviam se formado desde o surgimento da Esfera se preparavam para o momento final.
O cessar fogo entre eles e o governo havia sido bem sucedido e costurado com habilidade.
Os “malucos” como eram chamados pela mídia, ainda discordavam. Enquanto os fiéis do profeta, cuja retórica se tornara mais agressiva: “A morte é purgação”, pregavam, e seus rituais tinham a violência contida de quem acredita que somente a morte solucionaria o problema . Do outro lado, os Arautos da Esfera viam no misterioso objeto uma manifestaçãpo divina, uma entidade a ser venerada, não sacrificada — proliferavam símbolos e cantos, criando assembléias que lembravam seitas antigas.
Conflitos menores tinham virado batalhas urbanas. Em várias cidades, sirenes soavam explosões aconteciam, ambulâncias cortarvm o ar, e barricadas improvisadas eram erguidas. Corpos sangravam no asfalto. Mas conforme o grande dia da esfera foi se aproximando, vieram as pausas no cotidiano conturbado, o que reforçou uma sensação de união mundial.
A política cultural do Dia da Esfera levou à inauguração dos monólitos. Em capitais e cidades médias, praças centrais receberam grandes esferas pretas — réplicas de concreto revestidas de granito preto que refletiam as multidões em sua superfície curva. Era escultura e memorial ao mesmo tempo: colunas de pedra vulcânica erguidas como se fossem altares de um novo panteão. O poder público patrocinou as obras como gesto simbólico de unidade cívica; empresários ergueram suas versões privadas em shopping centers, hotéis e parques temáticos. Alguns criticaram a estética funerária; outros compararam os monólitos a obras de arte pública dos antigos egípcios.
As esferas negras brilhavam com luzes noturnas e, durante o dia, eram fotografadas por turistas que, com poses discretas, imitavam curiosos que não ousavam mais tocar.
Uma gigantesca esfera estava sendo erguida com elementos geodésicos produzidos com doações de todos os lados do mundo. Essa esfera máxima era um tipo de “Vaticano” dos Arautos e estava sendo erguida na fazenda de Silas Crowe. De longe já era possível avistar os anadaimes, os caminhões de concreto pra lá e pra cá e trabalhadores com suas vestimentas brancas com bolas pretas pntadas nas costas carregando mantimentos.
Da interestadual F25 ela podia ser vista surgindo ao longe. Monumental. Opressiva. A sensação era de que a “estrela da morte” de Star Wars estava pousada no campo.
No grande dia, a cidade onde André fora mantido em isolamento militar transformou-se em imenso palco. Largo cercado, verificações, passagens restritas: o perímetro estava cheio de homens com equipamentos de proteção, carros e caminhões carregavam suportes e dispositivos eletrônicos sob capas que lembravam mantas. A cerimônia foi pensada para máxima segurança e máxima audiência. Havia um roteiro que procurava registrar o sentido e a liturgia que meias palavras não poderiam cumprir: discursos iniciais, declarações de ministros, palavras de amigos e até de uma ex-namorada de André.
Vieram os depoimentos emocionados da família do policial Evans… As vítimas de incidentes envolvendo a Esfera foram lentamente lidas, acompanhadas de tambores japoneses tradicionais.
Todos os canais de Tv do mundo cobriam o grande evento.
Lá atrás, num tipo de camarim onde soldados fortemente armados montavam guarda, André estava comendo uvas. Ao lado dele, com os olhos fixos em André enquanto bebia uísque escocês, estava Nathan.
Eles se olhavam sem dizer nada um ao outro.
Foi Nathan que rompeu aquele silêncio que muito dizia com três palavras desnecessárias:
— Sinto muito, rapaz.
André deu de ombros com a boca cheia de uvas. Continuou a comer. Um banquete havia sido montado no camarim e ele comia com a volúpia de quem sabe que não haverá um dia seguinte.
Dava para ouvir os gritos e aplausos abafados da multidão lá fora.
— Devem estar começando os shows. — Ele disse.
Nathan ligou a enorme Tv na parede. Eram os Shows mesmo. O povo cantava junto. André se espantou ao ver a panorâmica mostrando a multidão que se perdia no horizone. Nenhum show de rock na História jamais obteve tamanho público.
André olhava para a performance das grandes cantoras juntas, entoando “Spherize-myself” o grande hit-parade, e música tema do dia da esfera.
Uma moça entrou no camarim trazendo a documentação e entregou ao velho Nathan.
— Venha rapaz. Venha assinar — ele disse, pegando uma bela caneta tinteiro do paletó de linho branco.
André pegou a caneta e leu o título do documento. Eram os documentos finais que oficializariam a sua própria execução. Assinar, ali, tinha a dimensão de um rito.
André começou a ler e sentiu a mão pesada de Nathan no ombro.
— Filho, é melhor não ler. O desfecho você já sabe qual será. Por que não deixar algum espaço para a surpresa nos seus minutos finais?
A pena bailou sobre o papel com a mesma ligeireza com que o mundo rasgava a sua própria moral.
No palco, o mestre de cerimonias, Jack Harland, escolhido por votalção do público, estava impecável em seu smoking branco de corte italiano.
Ele deu prosseguimento ao grande evento.
Em todo o mundo, os discursos começaram cedo, muitos deles com a cadência de comícios bem ensaiados. Presidenciáveis que haviam acumulado capital político às custas do medo discursaram com voz baixa e tom solene.
“Esta é uma decisão que nenhum de nós toma com alegria”, disse um secretário-geral, em uma fala transmitida por dezenas de canais. “Mas é uma decisão que toma-se por responsabilidade, por evitar que outros sofram.”
Um ministro de defesa falou de riscos e protocolos; um representante do Círculo dos psiquiatras abordou as questões dialéticas da esfera, do globo terrestre, de Lacan e de trauma coletivo.
Em contraponto, uma velha ativista — com o rosto sulcado de rugas e uma voz firme — falou em nome de quem acreditava que justiça não se fazia com espetáculo:
“Executar um homem em nome da ordem é condenar nossas melhores e puras inclinações. Se aceitarmos isso, não restará nada para além do medo.”
A fala fez eco em vigílias pequenas, em círculos de amigos, em pubs lotados, em feeds que trocavam comentários em milhares por minuto. Nas casas as tvs ligadas ajuntavam vizinhos que comiam salgadinhos e bebiam refrigerante, todos ligados no aparelho com atenção. Devido a magnitude do evento, havia sido decretado feriado mundial.
Comerciais patrocinados cortavam a transmissão a cada conjunto de minutos: anúncios de seguros “para o mundo pós-esfera”; marcas de bebida que vendiam “garrafas da memória”; serviços de streaming que promoviam documentários exclusivos.
Entrelaçados ao rito da morte, estavam aquelas pausas consumistas que, numa mesma sequência, vendiam produtos e convidavam para reflexões sobre humanidade.
Claro, alguns comentaristas criticaram a hipocrisia; outros responderam que “a economia precisava funcionar até nas cerimônias, ou ela também morreria”.
Um banco criou o sphere card, um título de capitalização, e prometeram um sorteio de 400 milhões para um dos membros logo após a execução.
Assim, o Dia da Esfera virou um espetáculo planetário, com intervalos comerciais, como se o rito não pudesse escapar das engrenagens que o alimentavam.
Quando André foi trazido para assinar os documentos cenográficos no palco, (parte do show, disseram) o mundo estourou em gritos, assovios e aplausos. Fogos foram disparados. Parecia Reveillon. Milhões aplaudiram e a versão sinfônica de Spherize Myself da filarmônica de Londres tocou.
André vestia um conjunto laranja repleto de marcas de patrociadores. Ele era acompahando pela esfera, como uma sombra escura a persegui-lo.
Ele caminhou com um passo que parecia uma despedida antecipada; o uniforme era simples, embora lembrasse o de um piloto de fórmula 1. Tinha as mãos limpas, os olhos fundos de quem aprendeu a viver mirando uma câmara.
Sentou-se à mesa antiquada pintada de dourado. Ali um notário elegantemente vestido o aguardava. Era obviamente um ator. Tudo era cênico. Os verdadeiros documentos já tinham sido assinados nos bastidores numa mesa de PVC suja de uvas, farelos de salgadinhos e ketchup.
Os holofotes estouraram sobre ele. André se sentiu num teatro. E fez-se silêncio.
Não havia um pio.
Os microfones, câmeras fixas, luzes que o estilhaçavam em ângulos frios. O papel estendido à sua frente tinha letras simples, cláusulas que descreviam a execução, datas e protocolos. Havia uma seção para sua assinatura: o nome que ele dera ao mundo e que o mundo agora reduziria a uma assinatura.
Ele pegou a caneta com a destreza de quem já assinara muitos recibos de momentos banais. Por dentro, André observava as mãos que tremiam pouco — não por medo da caneta, mas porque a espera sistemática do mundo tinha feito do tempo um músculo dolorido. A caneta marcou o papel. A assinatura foi limpa, quase sem floreio; foi, acima de tudo, uma confirmação de que ele aceitaria o que o mundo decretava. Ao assinar, pensou em coisas pequenas: o som das ondas numa tarde de infância, o gosto de uma manga que a mãe lhe deu num domingo, a sensação de uma bicicleta sob seus pés. Pensou também no rosto do profeta, no olhar dos soldados, nos apresentadores que disseram a palavra “conscientização” com voz calma. Nos minutos que se seguiram, houve documentos adicionais, formalidades, carimbos, e a boca do mundo fechou por instantes enquanto esperava o próximo movimento.
O notário pegou o documento e ergueu acima de sua cabeça careca. As luzes estouraram no papel. As câmeras puxaram com as melhores teleobjetivas e a assinatura de André apareceu nos telões e nas casas de milhões de pessoas, emocionadas.
Estava decidida a execução.
Entraram os corais dos arautos com os hinos de “O messias voltará novamente”. E duas mulheres deslumbrantes com vestidos curtos de bolinhas conduziram andré ate uma poltrona vermelha no canto do palco para assistir a mais uma rodada de discursos e mensagens de esperança. Uma luz intensa brilhou, v ermelha como sangue sobre ele. Era dramático. Em contrapartida, uma luz branca incidia sobre a esfera logo acima da poltrona, gerando um interessante contraste para o povo ver a esfera parasita em toda sua glória.
No telão o rosto do Papa apareceu, gerando uma onda de aplausos.
O Papa fez um dicurso breve, disse que a Igreja recusava a ideia de que ele era o messias e que a esfera aos olhos da igreja não era Deus. Condenou a morte de André que chamou de “um inocente”. E fez uma oração.
Em seguida, presidentes da China, Russia, Índia e até Coreia do Norte se pronunciaram via transmissão simultânea. O mundo havia parado. Guerras pararam, conflitos pararam, o mundo todo estava ligado naquele único evento.
Em seu pensamento melancólico, afundado na poltrona vermelha com um holofote também vermelho em cima, André percebeu que, desde o primeiro contato que trouxera a esfera à luz do seu perseguimento, ele nunca fora apenas ele mesmo. Tornara-se imagem, símbolo, tela em que cada coletivo projetou a própria dor. Não havia mais lugar para suas memórias particulares; o que erguiam sobre ele eram narrativas que transformavam sua vida em matéria-prima. “Fui engolido”, pensou, mas não com rancor: a voz interior falava com cansaço.
O destino de todo messias é a morte.
Engolido pelo rumor, pelos discursos, pelos comerciais que prometiam o consolo dos produtos com a bola preta.
Ao mesmo tempo, havia uma sensação estranha de alívio — não pela morte, mas pela simples concessão de que um homem não deveria ser o pivô de uma civilização inteira, que, no fim, preferira espetáculo às respostas para perguntas jamais levantadas.
A música voltou a subir. A cerimônia seguiu. Jack harland lia as piadas sem graça do roteiro. Na área vip da plateia a câmera flagrava famosos e celebridades acompanhando.
O noticiário notava os fim dos conflitos com breves reportagens e continuava ao vivo, dando espaço para as vozes oficiais. A transmissão voltou às celebrações protocolares, ao discurso do chefe de estado que agradeceu “a coragem de uma nação”.
Ao cair da tarde, quando as luzes dos holofotes chiaram contra o céu, André foi retirado de sua poltrona vermelha.
Foi levado ao centro do palco onde, ao lado de Jack Harland, o mestre de cerimônias, foi dado início ao grande momento costurado com a assessoria de Silas Crowe.
— Senhoras e senhores, o líder dos Arautos da Esfera… Com vocês, o reverendo Silas Crowe! — O homem de smoking anunciou. Aplausos e vaias se misturaram quando a figura do homem mascarado entrou, conduzida por duas assistentes de palco com pernas inesquecíveis.
Silas vestia seu manto preto cerimonial com reproduções dos mandamentos da esfera. E trazia consigo sua espada.
André vendo a espada, temeu por um minto que fosse morrer à espadadas. Mas Jack lhe sussurrou entre os dentes:
— Fica frio, garoto. Vai ser injeção letal mesmo.
Silas foi até o microfone e começou a falar. Disse que aquele era o grande momento dos atrautos, o momento da redenção. Havia um silêncio sepulcral por todo o planeta onde somente a voz do fazendeiro era ouvida.
Quando o longo e modorrento discurso terminou entre uma e outra microfonia, os tambores rufaram.
Jack que estava com os olhos congelados na esfera, nunca estivera tão perto do objeto misterioso que ele mesmo batizou ouviu no ponto eletrônico a voz metálica do diretor:
“Agora ele vai levantar a espada e fazer a saudação. Aí entrarão as mensagens das crianças no telão principal”.
Silas Crowe levantou sua espada no ar, tal qual um He-Man.
— Pela honra da esfera! Os teus Arautos te saúdam e se entregam ao destino! AGORAAAA!
Aquela não era a mensagem combinada antes. Ninguém entendeu merda nenhuma, mas a música continuou.
O diretor da programação buscou no documento guia onde estava aquilo, mas não achou. E pelo rádio, mandou que a filarmônica tocasse outra vez.
Alguém entendeu errado e em vez de tocar o hino dos arautos novamente, o maestro sinalizou o rufar os tambores.
Foi nessa hora que Silas retirou sua máscara, revelando sua face deformada ao público. O próprio Jack Harland, cascudo de ver de tudo na vida, não conseguiu evitar a surpresa e soltou um “puta que pariu” no microfone aberto.
— Eu revelo minha face ao mestre supremo! — Ele gritou com a espada ao ar.
Em choque, o mundo todo arregalou os olhos. A cara deformada e grotesca do lider dos arautos brilhou na tela. Então, antes que qualquer um pudesse fazer alguma coisa, ele correu com a espada na mão na direção de André.
Temendo a morte iminente, André se preparou para o pior. Mas Silas Crowe apenas saltou e se agarrou no orbe negro e explodiu numa chuva nauseabunda de pedaços sobre André e Jack.
Sem saber o que fazer, Jack Harland e seu smoking branco salpicado de sangue e pedaços de tripas olhava de um lado para o outro, com André ao lado. A filarmônica começou a tocar o hino dos Arautos.
Um boletim extraordinário entrou ao vivo, no meio do evento. Inicialmente a tela foi trocada pelo logo do evento. Houve silêncio e ficou na tela a metade da geoesfera com o nome “The Great Sphere Day – Live”.
As pessoas que viam o show pela Tv ainda estavam com a boca cheia de pipoca, se perguntando se aquilo era teatro, encenação barata, uma homenagem ao Planeta dos Macacos, quando a notícia chegou, bombástica:
Milhões de arautos da esfera haviam cometido suicídio coletivo. A mensagem fora do protocolo, era um sinal combinado.
CONTINUA

2 Comentários
Capítulo impressionante, muito bom! Ansioso pela parte 10. Até lá, Philipe.
E o conto continua subindo em qualidade. Esperando a parte 10.