OCULTISMO PARTE 1 – O dia em que eu hipnotizei o Popozinho

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Popozinho era o apelido do irmão do… Isso mesmo, Popozão.

Oficialmente o nome dele era Antônio Carlos, mas todo mundo que gostava do cara chamava ele de Popozinho. O Popozinho era um amigão meu que também morava naquele prédio que eu morei, onde eu dei aquela festa e onde eu tive a casa assombrada por fantasmas e onde eu contava casos de assombração para a criançada à meia noite, no playground, junto com aquele meu amigo que morreu e depois apareceu pra mim (conforme combinamos na frente das testemunhas). Aquela foi a primeira vez que eu hipnotizei alguém.

O Popozinho era fã incondicional da banda  Faith no More. E paralelamente eu estava vivendo uma situação bastante peculiar na minha vida de psiconerd. E esta situação, ao qual não pretendo dedicar muitos detalhes por motivos alheios à minha vontade, envolviam pesquisas com ocultismo. Inclusive tenho que reconhecer que os fenômenos que vieram a acontecer na minha casa à posteriori tem ligação direta com a minha entrada neste universo de ordens secretas, invocações, espadas e coisas do tipo, que a grande maioria leva na gozação, mas que à vera, ali, in loco,  podem fazer até o Kojack se arrepiar.

Então naquela época eu estava estudando um livro de alta de magia do século XIX e no livro um grande mago chamado Papus ensinava alguma coisa sobre hipnose. Na verdade no tempo em que o livro fora escrito, os processos cerebrais envolvidos no ato de hipnotizar não estavam totalmente claros e estes fenômenos, hoje totalmente conhecidos pela ciência ainda estavam na casa do ocultismo. Papus citava aquilo como “magnetismo”. Óbvio que o “magnetismo” em questão, não é o mesmo dos ímãs.  Era um tipo de “poder” invísível que se acreditava emanar do mago, como um tipo de ecotoplasma, uma força invisível que permitia controlar a vontade alheia.

Então eu estava lendo aquelas coisas, e à medida em que eu me aprofundava nas pesquisas antigas do ocultismo, comecei a ter vontade de experimentá-las. Nesta época eu ainda não havia entrado para a faculdade e portanto não havia ainda estudado hipnose clínica. Pra mim, aquilo ali era só um monte de experiências. Eu desdenhei do desconhecido. Eu não sabia, mas o meu castigo estava vindo a cavalo. (pelo menos nisso eu me identifico com o Paulo Coelho)

Mas o fato é que nós (eu e os meus amigos do prédio) resolvemos que iríamos experimentar o “magnetismo”. Ante uma platéia formada por adolescentes, pré adolescentes e uma ou duas crianças, eu convidei o Popô – como o popozinho era chamado entre a gente, para ser a cobaia.

Ele topou na hora.

A experiência foi levada à cabo nos fundos do bloco B. Na parte antiga do playground, onde hoje existe um salão de festas. Seguindo à risca meu livro de magia (já posso imaginar os leitores da IURD se benzendo e dizendo “tá amarrado!”) coloquei uma vela na frente do Antônio Carlos, o Popô.  A vela tinha que ser posicionada em um ângulo de 45 graus acima da cabeça da cobaia.A função da vela era clara: Criar um ambiente escuro e funcionar como um ponto de luz. A iluminação produzida mais o balançar da chama e o ângulo desconfortável contribuíam para cansar a mente do sujeito, levando-o a um estado de sonambulismo.

Então, após avisar aos meus amigos da assistência que aquilo era coisa séria, que era para que todos se mantivessem em silêncio, (nem precisava avisar nada. Tava todo mundo meio que com cagaço) estabeleceu-se  um clima clássico de seriedade e sobriedade.

O ambiente foi escurecido e só a vela se manteve acesa. Eu via o fogo bruxuriante da vela iluminando os rostos das crianças, com olhos arregalados. Eu sei que grande parte daquela galera estava com medo. Sei porque eu também estava. Se por acaso minha experiência de magnetismo não funcionasse, seria vergonhoso. Mas se funcionasse como o livro dizia, seria igualmente assustador.

Colocamos o Antônio Carlos no banco de praça que tinha no play, de frente para a vela. Ele ficou olhando para ela, sem se mover, em uma posição totalmente confortável. Ficou assim por um tempo indefinido, mas que me pareceu -pelo menos nas minhas memórias – uns 40 minutos. Todos já estavam ficando cansados. Foi quando notei que o Popô estava começando a se comportar como dizia o livro. Ele estava ficando com sono…

Iniciei a leitura do capítulo de magnetismo. Gradualmente fui estabelecendo comandos e mais comandos. Popô foi gradualmente ficando mais e mais adormecido. Até que eu fiz o teste do livro. O teste consistia em levantar o braço dele dizendo que o braço estava ficando leve… Muito leve. Cada vez mais leve e… Meu Deus! Ele estava mesmo hipnotizado.  O braço do Popô não baixou mais.

Eu olhei satisfeito para o resto da galera. Todos estavam estupefatos com a cena. E então eu pensei… Calma. Mas e se o cara está me ownando? E se ele tá de sacanagem, tipo fingindo?

Então comecei a estabelecer comandos variados. E ele obedecia geral. Isso foi me dando segurança.

Em um determinado momento, o Popô me perguntou:

-Onde que eu estou?

Eu não sabia o que dizer e improvisei: -Você está no camarote do… Faith No More.

A reação do cara me fez crer que não era uma zoação. Ele estava mesmo hipnotizado.

O Popô começou a olhar em volta. Mas de olhos fechados. Alguns meninos da “platéia” começaram a querer rir. Mas eu fiz um sinal e o silêncio voltou.

-Nossa! Que foooda! -Ele dizia. Olhando de um lado para o outro, de olhos fechados. Era como se estivesse dormindo.

E eu continuei: – Tem uma porta ali está vendo?

-Tô.

-Vai até lá.

-Tem alguém aqui comigo. Quem é? – Ele perguntou.

Eu fiquei meio bolado. Achei que ele tava querendo acordar e se referia a galera da “platéia”. E então eu disse:

– É o Mike Patton (o cantor da banda.)

-Mike? É você? – Ele perguntou olhando fixamente para a parede. Eu tive medo da situação e respondi como se fosse o cara.

Novamente Popô teve uma reação interessante. Ele começou a conversar como se estivesse mesmo com o cara. Começou a fazer aquelas perguntas de fã… Eu comecei a responder algumas perguntas. E então ele falou:

-Espera aí você está falando em… Português? -Hahaha. Fui ownado pelo cara hipnotizado. Mas eu não deixei a peteca cair:

-Sim, eu estou aprendendo português. Obrigado por visitar nosso camarote. Agora você precisa ir embora que nós vamos ensaiar.

O Popo ainda quis ir ao “ensaio”, mas eu “o cantor” não deixei. Seguindo os procedimentos de magnetismo do meu livro, eu gradualmente tirei o Popô do transe e ele acordou como se nada tivesse acontecido. Ele não lembrava de nada e o pessoal ficou muito impressionado pelo fato de que o Popô realmente pensava que não havia acontecido nada além de olhar para uma vela. Quando a gente falava pra ele ele simplesmente dizia que era mentira que era impossível. Ele não acreditava mesmo. ele pensava que a gente tinha combinado de mentir pra ele.

Mas ninguém ali estava mais impressionado do que eu. Apesar de achar interessante o que estava naquele livro – Que veio parar em minhas mãos numa situação bastante incomum e que não cabe contar aqui. – Eu não estava levando muita fé. Quando a coisa funcionou exatamente como o livro descrevia, eu realmente fiquei bolado.

De um certa forma, aquela experiência desencadeou em mim um processo de interesse que eu nem imaginava que teria. Mergulhei com tudo naqueles assuntos.

Em outras situações eu hipnotizei outros amigos. Um deles foi o Raul. No dia do Raul, foi tudo bem parecido com o dia do Popozinho, só que com o Raul eu resolvi ousar. Levei o Raul a um estágio de transe mais profundo. O mais profundo que eu havia conseguido até então. E dali em diante, comecei a brincar com a parada.

Uma das experiências – coitado – foi dizer para o Raul que ele estava levitando. Sem peso. Eu joguei o Raul pra cima (não na vera, mas no universo hipnótico) e ele subiu como um foguete. Deu pra ver na expressão dele que ele estava desfrutando de um grande prazer no início, mas que logo depois se tornou medo. Eu ia dizendo para o Raul que ele estava subindo, subindo, subindo cada vez mais alto. E ele começou a sentir frio. Raul me dizia que sentia muito frio. Que estava acabando o ar.

Eu não tinha ideia do que poderia acontecer e então fiz o Raul cair. A galera foi ao delírio. Todos tentandos e manter em silêncio.  O Raul gritava e se sacudia na poltrona, como se realmente estivesse despencando. Imagino que nada cabeça dele era como se aproximar rápido no Google Earth. Pela expressão do cara, devia ser uma das experiências mais aterrorizantes que uma pessoa pode vivenciar.

Meu objetivo era estourar o Raul no chão e ver se ele morreria de verdade (PQp! Olha como eu era mongol!) ou se iria acordar. Mas o pânico do meu amigo foi tamanho que eu não tive coragem. Eu fiz com que ele recuperasse o poder de voar perto do chão. Fiz o Raul voar por alguns lugares bonitos antes de acordá-lo.

Embora a coisa fosse levada a cabo no play como um grande show para a garotada, eu estava usando os meninos do prédio como cobaias dos meus estudos de ocultismo. A experiência com o Raul me deixou intrigado. Eu nao tive coragem de fazer o que pretendia… E se realmente o coração dele parasse? E se ele realmente morresse ali? O que eu ia dizer? Olha a merda que poderia dar!

Então, parei de hipnotizar por alguns dias (até porque depois da hipnose do Raul ficou bem difícil de arrumar cobaias) e resolvi estudar um pouco mais. Meses depois, eu voltei a fazer experiências deste tipo. A mais estranha e constrangedora experiência de hipnose se deu com uma moça. Eu a hipnotizei e meu objetivo era obter a famosa regressão. Eu queria ver se conseguia fazer alguém lembrar de uma vida passada.

O problema é que nada havia me preparado para o que aconteceu.

Ela voltou e estagnou numa determinada idade. Era idade de criança, porque ela falava errado, meio tati-bitati. Por mais que eu tentasse fazer com que ela voltasse ela não voltava. Ela travou ali. E gradualmnete começou a reviver um momento extremamente traumático pra ela. Basicamente, aquela sessão, eu mais assiti do que atuei. A moça voltou a uma idade na infância e reviveu um abuso sexual por parte do pai.

Ela chorava e pedia socorro. Tremia, suava… Se debatia em pleno horror. Eu me senti impotente. Aquele troço ruim de ver e de sentir foi foda. Foi barra pesada. Aquilo mexeu tanto comigo que eu só consegui fazer a moça esquecer tudo que ela viu. Felizmente neste dia, estavam poucas pessoas no play. Nenhuma criança viu aquela cena. E ficou aquela sensação de ter feito uma coisa errada. De ter mexido numa caixa de marimbondos.  Eu nunca mais me esqueci daquela noite.

Eu resolvi não fazer mais experiências com meus amigos. Mas não estava disposto a abandonar o ocultismo.

Decidi comprar novos livros. Num sebo, eu descobri alguns livros interessantes. Um deles ensinava controlar algumas coisas, produzir pequenos fenômenos. E havia o que eu considero o pior e mais assustador de todos. Era impresso com linotipo. Este era um livro sem capa. Com páginas amareladas e ressecadas. Comprei por uma mixaria.  No livro havia muita coisa escrita em hebraico, anotações apagadas a lápis e outras com caneta de tinta, aquelas canetas antigas de tinteiro. Algumas passagens que me pareciam completamente inócuas estavam sublinhadas.

Eu comecei a seguir o estudo do antigo dono daquele livro. Fosse ele quem fosse. E lá no meio, havia algumas páginas que estavam enrugadas e com marcas marrons. Eu presumi que aquilo fosse sangue antigo. Qualquer um ser humano normal olharia para aquela porra e largaria na hora na primeira lata de lixo. Mas o babaca aqui não. O babaca aqui achou maneiro “comprar um livro sem capa num sebo, cheio de pentagramas, escrituras em hebraico ou coisa do tipo, e com marcas de sangue e invocações em latim”. O melhor de tudo era o final do livro. Ele não tinha final. O livro estava apenas despencado, ou seja, era um pedaço de um livro maior. Sendo que as últimas páginas estavam com visíveis marcas de que pegou fogo.

Então eu peguei aquela merda e fiz a pior coisa que eu poderia fazer. Eu comecei a estudar e seguir aquilo. Eu lia fora da ordem -BUUURROOOO! BURRO PRA CARALHO!

E o pior: Eu invoquei uma porra lá que eu nem sabia o que era.

E… Funcionou. (infelizmente)

Esta parte fica para um outro dia.