Perfuraram o forro e bateram violentamente na madeira seca de um cômodo. Não se via nada. A poeira havia tomado conta de tudo. Todos estavam tossindo e gemendo.
-Porra… – Disse Bira.
-Ai meu braço. Puta, acho que quebrei o braço. Ai que dor. AAAAAH! – Gemeu Ninoca.
-Tá todo mundo bem? – Perguntou Bira.
-Eu tô. A pança do Feijão amorteceu a queda. -Disse Kléberson.
-Tománocu!
Edinho se levantou e tateou na escuridão procurando a lanterna. Quando ele finalmente encontrou, iluminou o cômodo escuro. O cheiro de mofo reinava supremo na mansão.
-Será que quebrou “mermo”? Mexe a mão aí, Ninoca.
-Ai! –Gemeu.
-Cara acho que não quebrou não. Tu ia estar urrando de dor. Deve ser só uma luxação “mermo”. – Disse Edinho, conferindo o revólver que trazia com ele.
-Porra estamos trancados aqui. – Constatou Bira, forçando a maçaneta da porta.
Os rapazes olharam para cima e viram as estrelas.
-E agora? – Perguntou Ninoca. – Voltar pelo teto não dá que o pé direito dessa porra é alto pra caralho!
-O pé eu não sei, mas o teto é alto pra caralho. – Falou Feijão.
-Pé direito é a altura do teto, animal!
-Cala tua boca senão tu vai ver o meu pé esquerdo nessa sua beiça!
-O jeito é arrombar essa merda. – Disse Bira, recolocando o revólver na cintura.
-Cara deixa o feijão meter a barriga nessa porra aí que ela cai. – Riu Kléberson.
-Porra maluco. Tu não vai baixar essa crista não? Vou ter que sujar a minha mão na tua fuça? É isso “mermo” que “tu quer” pivete?
-Deixem a luta livre no gel para depois, gazelas. No momento eu quero sair fora daqui. Pior que os bagulhos do balão ficaram todos lá no telhado. Vamos ter que sair, escalar essa merda pra pegar a porra toda. – Disse Ninoca esfregando o braço.
Edinho começou a iluminar o cômodo. Era um cômodo pequeno, com um berço antigo, umas bonecas assustadoras nas prateleiras, um sofá todo puído e armários bem grandes de madeira escura. Havia uma janela, mas estava fechada com tranca.
-Acho que é quarto de criança. – Alguém concluiu.
-Bora, eu e tu. Vamos abrir essa merda. – Disse Bira, puxado Marcelo feijão pelo braço.
Feijão tinha cerca de trinta anos. Alto, forte e barrigudo. Parecia um estivador. De todos eles, era o único que nunca tinha sido preso. O resto da galera toda tinha “passagem”.
– No três? – Perguntou Bira.
-Ok. Um… Dois! – Berrou Feijão, metendo o pé na porta com toda vontade. A porta se abriu numa pancada só. A Fechadura enferrujada havia se partido.
Diante deles estava um escuro corredor, que dava numa escadaria.
-Vamos. Vamos! Gemeram, descendo as escadas. O salão foi iluminado com as lanternas. Estava repleto de poeira. A casa inteira estava coberta com uma fina camada de poeira.
-Vai com cuidado. Essa porra tá toda podre. Como a madeira estala! – Disse Kléberson.
-Olha para essas luminárias. Não tem lâmpadas! – Disse Edinho, apontando as lanternas para o enorme candelabro. Todas as luzes da casa são velas.
-Eu disse que essa porra aqui estava fechada desde o tempo do império! – Sussurrou Ninoca. – Não existia nem luz elétrica ainda, meu.
-Cara por que você tá sussurrando? Ninguém fala nessa casa tem mais de cem anos! – Riu Ubirajara.
Eles foram até a porta. A enorme porta de madeira e aço era toda trabalhada.
-Parece mais uma porta de castelo. – Falou Ninoca.
-É… Tá trancada. – Disse Kléberson forçando as maçanetas.
-Também, olha isso! – Edinho apontou com a lanterna. Havia uma espécie de viga soldada pela oxidação prendendo a porta junto ao teto.
Em muitos pontos da casa haviam marcas escorridas de água.
-Porra esse lugar dá calafrios. Vamos logo meter o pé e ir embora dessa bosta.– Gemeu Feijão.
-O telhado deve estar nas últimas. Essa casa não demora, vai desabar. – Concluiu Bira.
-Ei… Espere aí. Ninguém ainda parou pra pensar que se nós somos os primeiros a entrar no casarão nesse tempo todo… Ele deve ter alguma coisa de valor? – Perguntou Kléberson.
-O Klebinho tá certo hein? – Perguntou Bira.
-Pela suntuosidade da sala, é bem provável que o dono da mansão fosse algum barão, algum marquês… Sei lá.
-Isso significa ouro! Jóias! – Comentou Edinho com um sorriso nos lábios.
-Talvez até coisas mais valiosas. Vai que o dono dessa casa era o Imperador! – Exclamou Kléberson.
-Não, jumento. O Imperador não era. – Respondeu Ninoca.
-Como que tu sabe, ô espertão?
-Porque se fosse, teria o selo real em todo lado nessa merda, seu burro!
-Fodam-se vocês. Eu só quero sair dessa porra. – Falou Marcelo Feijão, olhando ao redor.
-Gente, acho que o Feijão tá com cagaço. Um cara tão forte e tão frango… – Riu o franzino Kléberson.
-Pela janela não dá. Tem grade na merda toda. – Disse Ninoca.
-Vocês podem parar de galinhagem e começar a procurar alguma coisa que dê dinheiro, faz favor? – Bira perguntou.
Os rapazes se espalharam. Bira era o único do grupo que fumava. Ele tinha sempre com ele um isqueirinho de plástico, que usou para acender algumas velas. Logo, a casa imersa na escuridão mais profunda enfim se iluminou com a luz das poucas velas. Após acender as velas de um castiçal, Bira orientou os rapazes:
-Vamos juntar tudo de valor aí na mesa. Tudo que alguém achar que vale grana, coloquem na mesa.
Minutos depois, a mesa estava repleta de taças de prata, garfos, facas, quadros…
-Tem bem menos coisa que eu esperava. – Disse Bira, olhando para a mesa.
-Sei lá hein? Um quadro desses pode valer uma fortuna, cara! – Ninoca apontou uma das pinturas.
-Ainda não vimos lá em cima. – Falou Kléberson.
-Bora! Disse Bira apontando as escadas. – Algo me diz que a grana tá lá!
No segundo andar do casarão, todas as portas estavam trancadas. Foi preciso arrombar uma a uma. A maioria delas eram quartos e salas de banho. Acharam uma biblioteca repleta de livros. Bira estava vasculhando atrás dos quadros em busca de um cofre oculto quando Edinho deu um grito. O grito de Edinho ecoou no casarão. Todos vieram correndo.
-Achei alguma coisa!
Diante deles, no final do longo corredor, estava uma porta. Essa porta continha uma cruz de madeira trabalhada com a figura de cristo. Os cupins haviam feito um estrago violento, e mal se podia reconhecer a figura de Jesus.
-Essa merda aí não deve valer nada. – Disse Kléberson.
Feijão repreendeu Kléberson.
-Ou, respeito com nosso Senhor, moleque!
-Esquece o santo! Eu pensei que o corredor acabava aqui, mas veja… É uma porta. Tem um último cômodo aí atrás da escultura. – Edinho mostrou uma fina greta no canto da parede.
-Acho que quem colocou esse Jesus aí queria disfarçar esse quarto. – Bira concluiu.
Kléberson se animou. -Então só pode ser o quarto do tesouro.
-Mas olha ali. O que é aquele trocinho ali em baixo? – Disse Bira, apontando a lanterna de Edinho.
-Cara parece uma macumba isso aí, cumpadi. Não tô gostando dessa merda. – Gemeu Feijão entre os dentes.
-São umas fitas… E tem uns papéis… – Disse Bira, agachado, rasgando o papel dobrado junto ao chão. –Edinho, Ilumina aqui, porra.
Edinho iluminou o papel.
-Cara é um trecho da Bíblia. Mas já está se desfazendo em pó.
-Tá ligado que isso é de mau agouro né? Simbora, meu!
-Aí, negão! “Seje” homem! Tá mais cagado que fralda de neném nessa merda, pô. – Berrou Ubirajara.
-Shhhh! Olha, aqui diz: “Pois a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais.
Efésios 6:12”
-Cara… Acho que quem colocou isso aí certamente tava querendo afastar os curiosos. – Disse Kléberson.
-Lógico que é isso! – Concordou Bira.
-Pode ser coincidência também. – Disse Edinho. – O que você acha, Ninoca?
-Naquele tempo a Bíblia bombava muito mais que hoje. Pode ser mesmo coincidência.
-Bom, e como que a gente faz para abrir essa porra de passagem? Tá agarradão, olha aí!
-Calma! – Disse Bira. Tem uns ferros lá na cozinha! Pega lá pra gente, Feijão?
-Nem pelo caralho dourado do Papai Noel que eu desço nessa merda de casa sozinho, Bira. –Respondeu Marcelo.
Todos começaram a rir. – É muito cagão mesmo. – Riu Kléberson.
-Então vai você moleque. Nessas merdas tem que ser o recruta “mermo”. Vê se general entra na enrabação?
-É, vai você Klebinho. – Disse Bira, entregando o castiçal para Kléberson.
Kléberson desceu a escada no fim do corredor iluminando o caminho com o castiçal com duas velas.
Enquanto Kléberson descia as escadas, Bira se virou para Feijão. -General? Você?
-Por que não, Bira? Sô cachorro louco desde os quinze! Tô na parada desde que seu tio fundou o grupo. Nós fundamos essa porra e agora tu…
-Nós não, negão. Ele! Você veio de curioso e enxerido duma figa que tu é.
-Foda-se. Eu sou o mais antigo nessa merda e acabou o assunto. Não gostou vem no braço! –Respondeu Feijão fazendo uma posição de lutador de boxe.
-Eu gosto desse crioulo porque ele é folgado. – Riu Edinho.
-Crioulo não, Edinho. Afrodescendente. – Disse Ninoca.
-Afrodescendente, mas general. – Completou Feijão.
Os quatro se espantaram de ver Kléberson voltar correndo e carregando o ferro.
-Veio rápido pra caralho, hein moleque?
-Eficiência. – Disse Kléberson.
-Na minha terra isso tem outro nome. Chama “cagaço”. – Riu Ninoca.
-Toma. A passagem é toda sua, General! – Disse Bira, passando o ferro para Marcelo Feijão.
Marcelo enfiou o ferro de atiçar as brasas na greta e forçou. A madeira estalou.
-Ummmpf! Tá duro pra caraca!- Ele gemeu.
-Deixa eu arrancar esse crucifixo para ajudar. Calmaí.
-Cuidado com Jesus, porra.
-Jesus? Isso é só uma madeira comida de cupim, seu merda. – Respondeu Bira, arrancando o crucifixo da porta.
-No três todo mundo puxa. Um… Dois… Vai!
Enfim, com o esforço coletivo, mais o ferro de Feijão, a passagem se abriu num grande estalo. Eles caíram para trás. A porta estava solta.
-Abriu! Uhuuuu! – Eu comemorei.
-E o que tinha lá dentro? – Perguntou Andreas, enquanto verificava a câmera no alto do costão.
-Tem água aí? – Bira perguntou.
Andreas Hannan abriu a mochila e passou a garrafa para Bira. O barbudo tomou um gole. Limpou o suor da testa e retomou a história.
-Todos nós levantamos e fomos para a entrada do cômodo.
Os rapazes Apontaram as lanternas lá para dentro.
Para a surpresa deles, não era uma sala de tesouros, mas um quarto. Um quarto finamente decorado ao estilo que devia ser moda em Paris nos anos mil e oitocentos. Era um quarto grande, com muitos móveis. Parecia bagunçado. Havia pilhas de livros nos cantos. As paredes desgastadas, eram pintadas com motivos florais antigos. Um enorme espelho ocupava boa parte de uma das paredes. Quadros e mais quadros estavam por todos os lados.
Um calafrio na espinha atacou a todos quando os fachos das lanternas finalmente apontaram na direção da cama. O dossel havia apodrecido e caído por cima do que parecia um corpo, cobrindo-o como se fosse um sudário.
Kléberson foi o primeiro a entrar. Era o mais miúdo e o mais corajoso entre todos os cachorros loucos. O último a entrar no quarto foi Marcelo Feijão, que obviamente estava morto de medo daquela situação.
Todos eles se reuniram ao redor da cama. Ninguém tinha coragem de mexer no corpo. E durante algum tempo que Bira não soube precisar bem, ninguém ousou dizer nada.
Ficaram ao redor da cama, apontando as lanternas para aquela coisa.
Foi Ninoca que rompeu o silêncio.
-E aí? Vamos levantar o pano ou não?
-Por respeito devíamos deixar assim. – Disse Feijão.
-Respeito? Respeito o caralho! E o dinheiro? Pode ter algo de valor. – Disse Kléberson.
-O que tu acha, Edinho? – Perguntou Bira.
Edinho concordou que poderia ter algo de valor. – Já invadimos mesmo… Agora dane-se!
Edinho foi quem levantou o tecido. O pano escuro levantou uma poeirada no ar. Lentamente ele foi descendo e revelando a figura sobre a cama. Afundada nos lençóis estava uma mulher. Era uma velha. Tão logo ela foi descoberta, todos se horrorizaram.
Mas o mais assombroso naquela figura era que não se tratava de uma caveira. Era uma velha de uns oitenta anos. Estava morta, indubitavelmente, mas estranhamente, não parecia estar morta há séculos. Ela estava deitada como uma múmia, usando um belo vestido antigo decorado. Cobrindo-lhe os olhos, estava um tecido dobrado. Os cabelos apodrecidos espalhavam-se pela cama. A velha estava numa pose similar à de uma múmia, com os braços cruzados sobre o peito.
-Puta que o pariu! Um corpo incorrupto! – Exclamou Ninoca.
-Corpo o quê Ninoca? – Perguntou Bira.
-Corpo Incorrupto é um corpo que não se decompôs após a morte! Mas sem ser emblasamado. Tem um porradão de santos que acontece isso. A Igreja considera milagre! Tipo Santa Bernardete, o Papa Pio X, São Vicente de Paulo…
CONTINUA AMANHÃ
