O último balão – Parte 4

· · 4 min de leitura
shallow focus photography of books

-Então essa aí era uma santa? – Perguntou Feijão.

– Religiosa era. A julgar pelo que ela traz no peito… Olha aí. – Disse Edinho apontando o facho da lanterna mais para baixo. Sobre as mãos cruzadas no peito, estava um terço de ouro maciço com cristais e o que pareciam ser… Diamantes!

-Não acredito!

-Olha isso, meu!

-Caraca deve valer uma fortuna!  Será de ouro?

-Só pode ser. E isso aqui com certeza é rubi! Diamantes. Olha só esta coisa!

-Nunca vi nada igual. Nem em museu! – Exclamou Ninoca.

-Quando você acha que esse treco vale, Bira? – Perguntou Edinho.

-Se isso tudo aí for diamante mesmo, por baixo isso deve bater nuns quatro milhões, xará!

-Estamos ricos! Estamos ricos! Gritava Kléberson, animado, abraçando Marcelo Feijão.

-Caras… Temos que sair fora. Isso aí não tá certo não. Essa porra deve ser histórica. Se a gente vender isso vai dar merda com certeza! – Disse Feijão.

-A gente desmonta e derrete. Eu tenho um parceiro em São Cristovão que desmonta isso mole e vende as partes separadas. – Disse Bira. – Eu ajeito o esquema e a gente divide essa grana. Depois podemos voltar aqui e levar os quadros, a prataria, a porra toda. Mas tem que ser no mocó. Não dá pra sair explanando pra geral que aí sim, vai dar merda.

-Se o Feijão não quiser a parte dele eu fico com ela. – Riu Edinho.

-Perdeu. Passa pra cá, minha tia. – Disse Bira, tirando o terço de ouro de cima do corpo.

-Desrespeito, hein “cumpadi”! – Disse Feijão.

-Não fode, Marcelo. Onde ela está, não vai precisar disso. Não como a gente. Ela já tá morta mesmo… – Riu Ninoca.

-E esse pano aí na cara dela?

Ninoca pegou o pano. -Sei lá. Algum ritual funerário antigo, eu acho. – Ao remover o tecido, todos saltaram para trás. Alguém havia removido os dois olhos da velha.

-Puta que pariu! Que bizarro.

-Deus me livre e guarde! Que abominação!

-Será que fizeram isso quando ela tava viva?

-Mas pelas marcas de sangue escorrido, acho que sim. O morto já não sangraria assim – Disse Ninoca, desdobrando o pano. Ao acabar de desdobrar, três moedas caíram no chão.

-Veja, são moedas da época do Império. E esse pano aqui nem é um pano normal. Ó. É uma estola de padre. Veja os símbolos da cruz. O símbolo do Espírito Santo e…

-É tipo aquele cachecol comprido que padre usa, né? – Pergutou Kléberson.

-Tipo não. É exatamente aquilo!

-Caras, mas… Quem merda, quem iria arrancar os olhos dessa dona e meter esse pano de padre em cima? Por que isso? Será que antigamente era assim? – Perguntou Edinho.

Edinho sentiu alguém lhe agarrar o braço. Assustado, deu de cara com Marcelo Feijão. Ele estava com os olhos arregalados. A boca balbuciando sons desconexos.

-Que foi, cara? Feijão? Feijão! Ajuda aqui gente, o Feijão tá tendo um troço, meu!

-Acho que é asma! – Disse Bira tentando acudir o amigo. – Calma Marcelo! Respira cara! Respira!

O enorme amigo estava em vias de desmaiar. Finalmente feijão encheu os pulmões de ar e conseguiu enfim falar: – E-e-ela-se-se-se-mexeu!

-Hã?

Edinho apontou a lanterna para a velha. Todos se levantaram. Feijão estava com falta de ar.

A velha parecia imóvel.

Os amigos se entreolharam achando graça.

-Porra negão… Cê é foda “mermo”.

Então a velha se levantou na cama tal qual um boneco de madeira. Todos começaram a gritar desesperados. A morta lentamente virou a cabeça na direção deles e não disse nada. Os buracos escuros que ela trazia na face apontaram para o grupo.

-Corre! Corre! – Gritou Kléberson, disparando porta afora como um raio. Todos se levantaram e correram feito loucos. Pararam todos juntos no final do corredor, perto das escadas.

-Puta que o pariu! Você viu? Você viu? Eu disse! Eu disse que ia dar merda! – Marcelo repetia, desesperado.

-Ai meu Deus do céu! Alá! – Gritou Edinho, apontando o facho da lanterna. Em completo horror, todos eles viram a velha passar pela estreita porta no fim do corredor. Ela veio andando lentamente na direção deles. Os braços esticados para a frente. Não dizia nem gemia. Andava em movimentos rígidos, feito um manequim.

Bira sacou a arma. Virou-se para Edinho e deu a ordem:

– Soca bala nessa porra!

CONTINUA AMANHÃ