Foram ao todo, oito tiros. Todos na velha. Mas ela não caiu. Pelo contrário. Ela continuou a andar pelo corredor, arrastando aquele vestido.
Desesperados, os rapazes desceram as escadas e correram para a sala.
– Fudeu. E agora? – Perguntou Ninoca.
-Não tem saída. – Disse Kléberson.
-Tem bala aí ainda? – Ubirajara perguntou.
Edinho moveu a cabeça negativamente.
Todos começaram a bater na porta, mas a enorme porta de carvalho e aço, enfeitada com almofadões esculpidos e encimada por duas cabeças de leão mal se moveu.
-Caralho, lá vem ela! – Gritou Feijão apontando o alto das escadas.
A morta vinha descendo as escadas.
Bira lançou o revólver na velha. Ele acertou bem na cabeça da morta e ela desequilibrou-se. Caiu na escada, mas logo tornou a se levantar devagar.
Kléberson correu até a lareira e agarrou um dos ferros. – Vai ser na porrada, minha tia!
Ante os olhares estupefatos dos amigos, Kléberson correu com o ferro para cima da velha que estava quase chegando na sala, já nos últimos degraus da escada.
Ele tentou atingir a morta, mas a aparição agarrou o ferro no ar. Ele foi agarrado pelo pescoço. A velha atracou-se com Kléberson e mordeu-lhe a garganta.
Em meio a uma torrente de sangue, o jovem se debatia tentando se livrar da morta, mas quanto mais ele lutava, mais forte ela parecia ficar. A velha meteu-lhe os dedos com unhas compridas e sujas nas órbitas dos olhos de Kléberson e arrancou-lhe os olhos, que ela engoliu com enorme satisfação. Logo, o corpo sem vida de Kléberson estava jogado no chão da sala.
Diante da cena macabra, Marcelo, Ninoca, Edinho e Bira correram para a cozinha. A porta da cozinha não tinha tranca. Assim, Feijão e Edinho ficaram segurando a porta enquanto Ninoca procurava uma forma de sair pelos fundos. Bira vasculhava as gavetas em busca de algum facão.
A primeira pancada na porta quase os jogou longe. A morta estava muito forte. A porta da cozinha estava rachando a cada pancada.
-Caraca que merda é essa meu? – Perguntou Edinho desesperado.
-É assombração! – Gemeu Feijão. Ele estava chorando. Seria engraçado ver um homem daquele tamanho chorar assim, se não fosse trágico.
Então, a velha conseguiu meter a mão através da porta, que se partiu com o impacto e agarrou o pescoço de Edinho. Todos correram para tentar ajudar, mas era impossível soltar a velha do pescoço dele. Edinho começou a ficar azul. A velha apertava o potente torniquete ao redor do pescoço do rapaz.
-Larga, larga e corre! – Gritou Bira ao ver a vida se apagando dos olhos do amigo.
Feijão largou a porta, que se partiu diante deles. A velha entrou na cozinha e debruçou-se sobre o corpo de Edinho, para também lhe arrancar os olhos.
-Por aqui! – Apontou Ninoca. Ele tinha conseguido achar uma passagem para o que parecia ser um porão nos fundos.
Sem ter para onde correr e com a assombração sem os olhos a entrar na cozinha atrás deles, todos se jogaram nas escadas escuras que desciam para as profundezas. Felizmente, Bira tinha consigo uma das lanternas.
-Olha! A porta tem tranca. Me ajuda aqui! – Disse Ninoca.
Bira e Ninoca trancaram a porta que dava acesso ao porão bem a tempo. A velha deu uma pancada tão forte que quase arrebentou a porta. Os dois caíram rolando pelas escadas até bater lá em baixo.
A lanterna quicou pelas escadas e finalmente se apagou.
-A lanterna! A lanterna! – Feijão gritava, tentando localizar a lanterna na escuridão do porão. Mas era impossível.
Os outros dois amigos também começaram a tatear no escuro em busca da lanterna. Sentiam as teias de aranha esfregando em seus dedos. Não se via absolutamente nada. Ninguém encontrava a lanterna. Lá em cima, eles ouviam as batidas da velha macabra na porta do porão.
BLAM! BLAM!
Bira lembrou-se do isqueiro. Acendeu a chama e finalmente achou a lanterna. Ela tinha rolado para debaixo de um sofá velho.
Quando finalmente alcançaram, ela estava estragada. Havia quebrado na queda.
A luz fraca da chama do isqueiro permitia ver o porão. Um amplo cômodo cheio de coisas empilhadas. A maioria eram móveis velhos e muitos quadros.
-Ei! Ilumina aqui, Bira! – Disse Ninoca, apontando um dos quadros cobertos de poeira.
-Veja, acho é ela!
-Sem dúvidas é ela. É o mesmo vestido. – Disse Feijão.
-Porra, ela era bonita pra caralho! Como que virou esse bicho, essa coisa horrível?- Perguntou Bira.
-Tem alguma coisa atrás? Tem. Olha aí. Acho que é uma dedicatória. “…Para Fausta de Montigny”… Acho que isso é um F né?
-Fausta. Fausta… O nome dela é esse! E se a gente gritar o nome dela? – Perguntou Ninoca.
-Tá louco? Se essa monstra, essa assombração aí está vindo atrás da gente depois de morta, tu vai querer chamar ela ainda? Olha lá! A bicha tá socando a porta feito louca! – Disse Marcelo Feijão, mas ninguém lhe deu ouvidos.
-Fausta! Fausta! Pare Fausta! – Gritou Ninoca. Logo, ele foi seguido por Bira nos gritos.
-Ih, parou!
-Shhh! Vamos esperar. – Disse Bira.
Feijão se assustou: -Ei, por que tu apagou o isqueiro?
-Vamos economizar o gás.
Os três se sentaram no velho sofá puído e comido pelas traças. O lugar fedia horrivelmente a mofo. O tempo foi passando. Nenhuma batida voltou a atingir a porta.
-Será que ela morreu? – Perguntou Feijão.
-Ela já está morta, burro. – Respondeu Bira.
-Foda-se. Quem disse que morto que anda não pode morrer novamente? Se ela estava andando é porque não tava totalmente morta. – Feijão replicou.
– Isso é.
-Porra, como que pode essa merda? Essa… Essa assombração aí estava morta desde o império… – Disse Ninoca.
-Cara esse terço aí que a gente pegou. Aquilo devia estar segurando ela.- Respondeu Bira.
-Eu tenho pra mim que essa mulher ficou sei lá, possuída por algum demônio. Alguma alma, algum espírito. –Disse Ninoca.
-Cruz credo. – Gemeu Feijão.
Ninoca continuou: -É a única explicação. Aquilo lá não é mais ela. É um tipo dum espírito, fantasma, sei lá. Alguma coisa ruim que foi preso no corpo dela. Ela morreu e a coisa ficou lá, presa dentro dela. Até que alguém muito esperto arrancou a parada que tava prendendo o demônio dentro dela, né Bira?
-Não tira o corpo fora não, seu merda. Você foi a favor de pegar a parada. Me lembro de você dizendo: “ela já tá morta mesmo…”
-É verdade. Mas agora isso não adianta. Estamos fodidos de qualquer jeito, meu chapa.
-Pelo menos ela parou de socar a porta.
-Sei lá. Sei que a gente não vai poder ficar aqui pra sempre. Vamos ter que dar no pé desse lugar cheio de fantasma. – Disse Feijão.
-Eu acho que é um corpo possuído e não um fantasma, porque ela até agora não atravessou paredes. Dizem que demônios estão restritos ao plano da matéria.
-Sou mais fantasma que demônio.
-Foda-se o que está dentro da maldita! Eu sei que quero rapar fora daqui. – Disse Feijão.
-Bom, ao que parece, só tem uma saída. E é pelo lugar de onde viemos. – Concluiu Bira.
-Tá louco? Aquela porra deve estar lá em cima. – Disse Feijão.
-Cara alguém tem que ir lá em cima para ver se ela voltou para o quartinho dela. –Bira Respondeu.
-E como vamos fazer isso? – Perguntou Ninoca.
-Zerinho ou um.
-Por que não?
-Não, porra. Tem que ser por ordem. O mais novo que se foda. Eu sou o mais velho nessa merda.
-Enfia esse seu cagaço no cu, negão. Vamos pelo método democrático!
Bira acendeu o isqueiro novamente.
-Os três se entreolharam diante da luz do isqueiro.
-Zerinho ou um…
CONTINUA AMANHÃ
