O Ultimo balão – Parte 6

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-Saiu Ninoca.

-Porra graças a Deus! – Suspirou Feijão.

-Mas eu tô com o braço fodido caras. –Ninoca tentou argumentar.

-Meu, justiça é justiça. Saiu você, é você, véio!

-Se você não for, pode crer que vai ter mais coisa fodida aí além do braço, tá ligado?

Ninoca se convenceu que era isso ou as coisas poderiam ficar feias para ele. Acabou aceitando, resignado os caprichos do destino.

Ninoca subiu as escadas lentamente. Atrás dele ia o Bira. Feijão, com medo, ficou lá em baixo.

Bira e Ninoca levantaram a tranca tentando fazer o mínimo barulho.

Eles olharam pela greta da porta. Não havia nenhum sinal dela. No fim da cozinha havia um rastro de sangue e o corpo de Edinho havia sumido.

Ninoca sussurrou no ouvido de Bira: -Ela deve estar comendo o Edinho na sala!

-Vai lá ver, cara.

-Porra isso não tava combinado, Bira!

-Claro que tava cuzão! Se você não for, vai levar porrada, Ninoca!

Ninoca aceitou. Saiu sorrateiramente para o meio da cozinha. Sentia todos os pelos do corpo eriçados de medo. Os arrepios se alternavam sem parar. Não havia sinal dela  na sala. Nem dos corpos.

Ninoca olhou pelas escadas. As marcas levavam lá pra cima.

Ele estava prestes a voltar para o porão quando sentiu uma gota pingar na cabeça dele. Ninoca não queria olhar. Trêmulo, sentiu outra gota. Lentamente olhou para cima, para em completo desespero, ver o corpo da velha de pé no teto. De cabeça para baixo.

-Aaaaaaaah! Ninoca gritou e tentou correr, mas foi em vão. A Velha caiu sobre ele.

Ao ouvir os gritos do amigo, Bira não pensou duas vezes. Bateu a porta de acesso ao porão e passou a tranca.

Logo as pancadas se sucederiam como antes. Gritar o nome da Fausta não adiantou.

BLAM! BLAM!

Bira correu para baixo e encontrou Feijão chorando em posição fetal.

-Fudeu! Fudeu tudo! Temos que sair daqui, Feijão! Ela Pegou o Ninoca.

-Ela vai pegar a gente, cara. Vai pegar a gente!

-Shhhh! Calma, calma porra! Calma caralho! Olha pra mim. Vamos sair dessa véio. Somos os mais velhos. Somos os mais espertos, tá ligado? Tu é cachorro louco. Cachorro louco. Repete Marcelo!

-Sou..

-Repete!

-…Sou cachorro louco.

-Cachorro louco porraaaaa!

-Loucoooo!

-Isso. Olha. Olha! Tá vendo? A luz do isqueiro, tá mexendo, cara. Tem uma corrente de vento aqui, meu. Tem que ter uma passagem lá pra fora em algum lugar dessa porra.

-O fogo tá acabando cara. Vamos ficar sem luz.

-O isqueiro ficou sem gás. Vamos colocar fogo em alguma coisa, meu. Vamos fazer uma tocha.

-Tá louco? A gente vai morrer sufocado.

-Meu, só vamos achar a passagem se a gente conseguir enxergar. – Disse Bira, pegando uma velha almofada e arrancando as bolotas de palha  estopa de dentro dela. Acende aí, isqueiro desgraçado! Vai. Vai…

Finalmente o monte de palha se acendeu. Em minutos havia uma fogueira esquentando o porão.

-Cara o fogo tá se alastrando!

-Também, tudo nessa merda é inflamável!

BLAM! – A velha bateu violentamente contra a porta.

-Cara vamos procurar. Tem que ter uma passagem nessa porra! Ou a gente acha ou vamos morrer queimados!

Os dois começaram a revirar o porão. Entre muitas coisas, acharam uma barra de ferro.

Após puxarem uma pesada estante velha, encontraram a tal passagem. Era estreita, uma pequena janela com uma fechadura enferrujada.

O ar já estava irrespirável. O fogo estava liberando muita fumaça. Bira não enxergava direito. Os olhos ardiam. Ele arrancou a camisa e prendeu na cabeça improvisando uma máscara. Feijão fez o mesmo.

Não foi preciso muitas batidas com a barra para que o metal podre cedesse e liberasse a passagem. O influxo de ar permitiu que respirassem, mas alimentou ainda mais o fogo, que cresceu como um monstro atrás deles, e a alta temperatura começou a queimar suas costas.

O buraco da ventilação era largo, mas ainda não tinha espaço para que eles passassem.

BLAM! – Outra batida violenta lá em cima. A porta de acesso ao porão estava prestes a ceder.

-A tranca não vai aguentar, Bira! – Gritou Feijão.

-Continua! Força! – Disse Ubirajara. Eles estavam usando a barra de ferro para tentar soltar as pedras ao redor da passagem. Bira estava perdendo as forças. Estava tossindo muito e já quase não enxergava.

Uma pedra já estava solta e a outra se movia ligeiramente com as pancadas do metal.

BLAM!

-Esquece ela. Foca na pedra. Mete a porrada na pedra, Feijão! – Gritou Bira.

Feijão reuniu toda a força que um homem que acha que vai morrer tem e desferiu numa pancada seca contra a pedra. O metal faiscou na rocha e ela se partiu.

Rapidamente, Bira conseguiu remover as pedras. Agora tudo que os separava do jardim era um monte de terra fofa e úmida.

Começaram a enfiar o ferro e cavar feito loucos, enquanto a horrenda aparição se chocava contra a porta.

BLAM!

-Acho que eu consigo passar! – Disse Bira.

-Vai, vai!

BLAM! CRAAK! – A porta finalmente cedeu.

-Puta que pariu! Acho que ela entrou! Ela entrou!

-Vai!

Empurrado por Marcelo Feijão, Bira conseguiu se arrastar pelo buraco.

-Me dá a mão negão!

-Eu não vou conseguir, cara!

-Vai porra. Força!

-Puxa Bira! Puxa!

-Não estou conseguindo cara. Você é muito pesado.

-Ai caralho, estou entalado, Bira. Puxa!

-Tá vendo ela?

-Me puxa Bira, me puxa pelo amor de Deus!

-Desculpa cara. Você não vai passar, meu.

-Não, Bira. Não, cara! Não brinca assim não molecão! Me ajuda aí! Ela tá descendo, Bira! Me ajuda cara!

-Não vai dar, Feijão. Desculpa meu.

-Não, Não. Não Bira! Não me larga aqui ô seu filho duma puta!

-Foi mal! – Disse Ubirajara, deixando Marcelo Feijão para trás. Ele tentou abstrair os gritos. Bira sabia que deixar feijão para trás iria atrasar a aparição o suficiente para que ele fugisse.

-Bira filho da putaaaaaa!

Os gritos de Feijão terminaram num berro horroroso e gorgolejante. A criatura havia chegado nele. A noite que parecia interminável estava cedendo. O dia enfim raiava, tingindo o céu de lilás.

Ubirajara correu pelo matagal e pulou o muro da casa. O fogo estava se espalhando rapidamente. A casa logo cedeu em meio a gigantescas labaredas de fogo que consumiam tudo.

Bira pegou o Monza e evadiu-se dali o mais rápido que pôde, já que os bombeiros logo chegariam.

-E foi assim que eu escapei. – Disse Bira, matando o que restava na garrafa de água. A noite havia se derramado sobre o costão. Acima deles, somente as estrelas que se perdiam num firmamento infinito sobre o mar.

-Porra… Tu largou seu amigo pra morrer, cara?

-Não me orgulho disso, rapaz. Pode apostar. Nunca mais tive sossego depois disso. Desde que aconteceu, há um mês, eu vejo o feijão nos meus sonhos cara. Ele grita na minha cabeça o tempo todo. Estou ficando maluco.

-Isso é o peso na consciência, Bira. – Disse Andreas.

-Antes fosse. Não é. Isso é uma maldição. Uma maldição dessa merda aqui. – Bira pegou a caixa preta laqueada ao lado dele e abriu. Ali estava o terço de ouro com rubis e diamantes.

-Puta que pariu! – Balbuciou Andreas. – Então é verdade mesmo!

Bira se levantou de supetão na beira do penhasco. -Porra maluco! Cê acha que eu tô inventando essa merda toda?

-Ca-calma, calma cara!

-Depois daquela noite no casarão eu pensei que tinha me livrado. Mas ela veio atrás de mim!

-A velha?

-Lógico! Ela aparece pra mim. Sempre durante a noite. Sempre na minha casa. Na última vez, pulei da janela e me fodi todo. Eu já não consigo dormir. Minha vida virou uma merda. Não tem saída. É uma maldição. Ela não vai parar de me perseguir!

-Fica frio, Bira! – Dizia Andreas, mas foi inútil.

-Obrigado por me ouvir, garoto. – Disse Bira antes de se jogar no vazio.

Andreas levou a mão na boca. Estava estarrecido com o que acabara de testemunhar. Ouviu o baque do corpo batendo nas pedras lá em baixo, logo depois.

O vento da noite soprou frio.  Andreas Hamann Fige olhou para a caixa. Bira havia se esquecido da joia. Tentou se acalmar. O coração parecia que ia explodir. Andreas nunca tinha visto ninguém cometer suicídio assim, diante dele.

Ele pegou a caixa e contemplou a joia com a luz da lanterna. Só ouvia o som do vento açoitando os arbustos no alto do costão. Os diamantes e os rubis do terço de ouro maciço brilharam ante a potente luz da lanterna. Ao lado dele, a câmera disparava cliques registrando a passagem do braço da Via Láctea no espaço.

Ninguém acreditaria naquela história. Nem ele mesmo acreditaria. Afinal, o barbudo maluco poderia ser só um doido varrido, se não fosse aquela caixa de madeira preta com uma joia que valia fortunas testemunhar a seu favor.

Andreas pensou em sua situação e penúria financeira. Talvez pudesse guardar aquele terço como uma espécie de talismã, caso a situação de grana curta apertasse mais. Quem em sã consciência desperdiçaria a chance de embolsar aquele troço? Será que valia quatro milhões mesmo?

Mas não. Ele não tinha aquele direito. Aquilo não era dele. E para falar a verdade, Andreas estava com um pouco de receio daquela coisa. Depois, quando a polícia achasse o corpo, se a história não batesse, poderiam pensar que ele havia jogado o maluco para roubar a joia.

Andreas deu uma última olhada para o terço de ouro e diamantes antes de lança-lo ao mar da beira do penhasco.

Andreas voltou-se para a câmera. Deitou-se no colchonete e pensou em dormir, mas era impossível. A história e o suicídio haviam impactado sua alma.

Horas depois, quando o sol tornou a dar as caras, Andreas Hamann fez as fotos combinadas e desceu. Descer o penhasco era muito mais fácil que subir.

-Pra baixo todo santo ajuda. – Pensou.

Ele pegou o ônibus para casa. Pretendia tomar um banho, tentar dormir um pouco e levar os cartões para Genésio Vargas em Santa Tereza na parte da tarde.

Andreas estava saindo do banho quando seu sangue gelou. Em pé, no meio da sala,  estava a figura decrepita e sem os olhos. Era a velha.

Ela estendeu seu dedo magro e nodoso na direção dele e avançou lentamente, sem dizer nada.

-Não, não, não…Nãããããão.

Genésio Vargas nunca recebeu as fotos.

FIM

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