Com ou sem – Minha noite no pior hotel do mundo

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Com ou sem – Minha noite no pior hotel do mundo

Naquele tempo eu trabalhava para a IDD miniaturas. Era um trabalho interessante, apesar do fato de que era uma furada só que ninguém normal além de mim e meu irmão Raphael encararmos. Nós criávamos bonecos de RPG. Fazíamos as matrizes, esculpindo os bonecos em durepoxi durante dias, e então entregávamos para a fábrica, que os copiava aos milhares.
Havíamos viajado para participar de um festival de RPG em Belo Horizonte. O dia foi muito divertido, com mil e uma atividades. Ao fim do dia voltaríamos de carona no carro do Átila, que era o dono da IDD.
Eu já estava ficando meio incomodado, pois era muito homem num carro pequeno. Chegou uma hora que comecei a sentir uma dor nas costas filha da puta. A dor só aumentou com a dificuldade de arrumar posição naquela lata velha do Átila.
Comecei a pensar num jeito qualquer de sair daquele carro. Vendo uma placa na estrada, perecebi que iríamos passar por Três Rios, a cidade da minha avó. Quando o carro finalmente passou em Três Rios, já era umas duas horas da manhã. Decidi avisar a eles que iria descer lá.
Meu irmão não quis descer e resolveu voltar com eles pra Niterói.
Eu desci do carro me achando super-esperto. Estiquei a coluna, peguei minha mala de bonecos, recheada de alicates, ferramentas e instrumentais e entrei pelo baixo portãozinho do jardim na casa da minha avó.
Comecei a bater no portão. Eu bati, chamei, assobiei e só faltou virar cambalhota. Nada. Nenhuma resposta, apenas o silêncio da noite, com aqueles grilinhos estrilando ao longe.
Comecei a bicar o portão. Meus avós tem um sono pesado da porra, e não era a primeira vez que um parente tinha que esgoelar até ficar azul para minha vó chegar na janela.
Eu gritei tanto que num ruído assustador uma janela ao meu lado se abriu. Era Yone, a vizinha. Cheia de bobs na cabeça. ( imagina a cruza da Dona Florinda com Satanás? É ela.)

-Sua avó viajou pra Niterói. Não tem ninguém aí não.
– …. – Não consegui dizer nada. Só pensei: PUTAQUIPARIIIIIIIU!
-Er… Obrigado. Desculpa acordar a senhora.

A Yone não falou nada. Só fechou a janela com uma estridente batida no melhor estilo louca-antipática possível.
Eu caí na real que estava simplesmente ferrado. Um frio do caralho.
Três Rios é a típica cidade do interior do estado do Rio. No verão é um calor de matar. No inverno é um frio de doer. Parece até a farda do exército. E naquela noite estava particularmente frio.

Abri minha malinha de ferramentas e comecei a tirar uns alicates. Pensei em arrombar a fechadura no melhor “Mc Guiver way of life”. Depois de uns 40 minutos de insucessos, prendi meu dedão na dobradiça do alicate de corte e fiquei puto. Nos filmes tudo é mais fácil.
Caí na real que já passava da hora de dormir e que eu teria que arrumar um lugar para pernoitar.
Me lembrei do banco. Não aquele banco onde os ricos ganham dinheiro, mas um banco de praça do século XIX que minha vó tem no jardim.
Corri para o banco e tentei me ajeitar como pude. Fechei os olhos e tentei dormir.
Não deu.
O banco era duro pra caramba. Nos primeiros dez minutos eu pensei que dormiria, mas no décimo primeiro eu já notei, da pior maneira, que as réguas de madeira me arrebentavam mais ainda a coluna. Não havia lugar para colocar a cabeça nem os pés. E começou a cair um sereno frio.
Não havia jeito. Eu teria que arrumar um lugar para dormir.
Saí com minha malinha de ferramentas pelas ruas desertas, dignas de um bom filme de terror.
Andei por vários minutos pelo centro à procura de um hotel qualquer. Eu não podia ficar num bom hotel por dois motivos. O primeiro é que eu só tinha vinte reais no bolso. O segundo motivo era que simplesmente não existem bons hotéis em Três Rios. Só duas merdas e um melhorzinho, que na verdade mesmo, era uma semi-merda.
Então melhor Hotel de lá, seria equivalente ao pior hotel imaginável do Rio de Janeiro.
Pois lá estava eu. Procurando algum lugar, por pior que fosse, para passar a noite.
Andei pelas proximidades da rodoviária.
Na minha imaginação inocente, perto de uma rodoviária seria um bom lugar para encontrar um hotel, afinal, é na rodoviária que os turistas chegam, né?
Não. Não tinha uma porra dum hotel.
Então comecei a andar a esmo pela cidade. A hora avançava. E nada de encontrar uma viva alma que pudesse me mostrar um caminho, dar uma dica.
Foi quando ouvi que vinha passando um carro pela rua que eu estava. Por sorte, era um táxi. Fiz sinal. O cara diminuiu. Não parou, apenas andou mais devagar.
Eu perguntei pra ele se havia algum hotel por ali.
O cara deu um sorriso e disse que naquela hora eu só ia conseguir encontrar o Hotel Três Rios. ( ou Hotel Entre-Rios, não lembro bem)
Ele apontou o caminho e partiu.
Eu caminhei pra caramba. A porra do Hotel era longe pra dedéu.
Quando cheguei em frente ao hotel, olhei o letreiro, algumas letras faltando, a fachada pichada com um visual tão medonho que pensei seriamente se não era o momento de voltar e dormir no banco do jardim da minha avó.
Mas não sei de onde nem como, obtive uma certa dose de coragem e empurrei a porta de madeira. Ela deu um rangido chorado, como só as tampas de caixões do conde drácula são capazes. No interior era apenas o breu. O breu mais escuro e inacreditavelmente preto. Posso até dizer, sem medo de resvalar no exagero que o preto no interior do saguão do Entre-Rios Hotel era maior do que quando fecho meus olhos.
Fui andando devagarinho, com a mão para a frente, tentando inutilmente detectar qualquer objeto em meu caminho. Topei com alguma coisa pelo chão. Era mole. Tive medo de ser um cachorro. Ou pior, um gato.
Resolvi me manter fixo, parado. Esperando que minhas pupilas se dilatassem escancaradamente para que ao menos um maldito bastonete pudesse captar uma vaga informação visual.
Isso aconteceu lá pelo décimo sexto minuto em que eu estava ali dentro.
Durante este tenebroso tempo, só pude recorrer aos meus outros sentidos. E o que mais sofreu foi o olfato. O hotel tinha um cheiro estranho de coisa velha. Parece aqueles baús de fotos antigas, misturado com cheiro de brechó e cemitério. Havia uma coisa de fumaça de cigarro entranhado em todos os lugares. E poeira. Cheiro de poeira.
Quando meus olhos começaram a se adaptar, eu pude ver que havia ali na minha frente, um balcão de madeira. Caminhei até ele e tateando notei aquelas campainhas típicas de hotel de filme.
Toquei.
Nada.
Toquei novamente.
Nada.
Fiquei esperando, afinal, sou um cara moderadamente educado, mas quando vi que nada realmente acontecia naquela merda, perdi a linha e toquei “a nona sinfonia de Beethoven” na porra da campainha.
Só contive a fúria quando um rangido horrível aconteceu, dando um eco estranho. Lá em baixo, num corredor (eu descobri que era um corredor depois) uma luz se acendeu.
Lentamente, uma coisa cambaleante começou a vir pelo tal corredor. Eu não conseguia obter uma boa visão daquilo, pois o corredor era paralelo a lateral do balcão. Assim só vi uma sobra, que avançava lentamente. Tive tamanho medo daquela merda que pensei em correr. Era um troço tenebroso, na forma de um corcunda que parecia não ter uma cabeça. E ainda puxava da perna. Tive medo de dar de cara com o “homem elefante”.
Quando a tal coisa apareceu, dei até dois passos para trás. Ali, bem na minha frente, estava um OGRO.
Um ogro de RPG.
Sem sacanagem. Eu descobri naquele momento, que os ogros existem mesmo. Pelo menos em Três Rios. O “recepcionista” Era uma porra dum velho horrível, com uma corcunda, braços magrelos e um barrigão desproporcionalmente grande, que caberia umas três crianças dentro. Pelo lado de fora estava um cuecão mal enjambrado. Não deu pra ver graças a aquela penumbra que vinha da luz do tal corredor tenebroso se o velho tinha todos os dentes. Mas deu pra notar na hora que ao menos os que haviam ali naquela boca, não estavam na ordem que deveriam.
O velho se dirigiu a mim com aquela tradicional educação e cortesia que se espera de um recepcionista de hotel daquele porte:

– QUEQUECÊQUÉ? – Dito assim mesmo. Meio gritado e num tom autoritário.
– Eu… Eu… Queria, bem, eu queria…
-FALALOGO!
-Eu queria um quarto, por favor.
-TÁ. Disse ele, abaixando-se com certa dificuldade. Olhou pra mim meio de lado. A cabeça dele saía quase do meio do peito. Pensei que talvez fosse algum tipo de anomalia genética. Naquele ângulo ele era o próprio Quasímodo. E sua frase atrapalhou meus pensamentos: – É COM OU SEM?
-Hã?
-COM OU SEM, COM OU SEM, PORRA??
– Com o quê? – Perguntei eu.
-COM OU SEM? – Repetia ele. Foi quando notei o movimento de cabeça. Engraçado como estas pessoas costumam apontar as coisas com a cabeça e com o beiço lá no interior.
Quando eu finalmente entendi, olhei atrás de mim. Pude ver, graças a luz que provinha do corredor infecto, que haviam umas três ou quatro putas velhas dormindo umas sobre as outras num sofá tão horrível que parecia um pedaço de coral, com tanta espuma saindo pra fora.
– É sem! É sem!!!! – Me apressei.
-É QUINZE REAU ADIANTADO. VAIQUERÊ?
-Vou. Toma Ó… Adiantado.

– VEM POR AQUI – Disse ele, passando por baixo do balcãozinho e me puxando com uma delicadeza típica de um policial de Diadema.

Sabe, é estranho seguir um velho corcunda, careca, de cuecão, que ainda puxa da perna, sobretudo num hotel como aquele, e ainda ter que pagar por isso.
O velho se arrastou como deu até uma parede e ligou um desjuntor. O desjuntou deu um estalo e umas luzes fracas que pareciam ter 10 watts iluminaram uma escada de madeira.
O velho começou a subir. Eu atrás.
Ele então virou-se para mim e disse:
-Cuidado com esse aqui, garoto.
Eu olhei e era um buraco no meio da escada.
Puts, eu tinha que ter filmado aquela merda. Era tudo de madeira. Cada passo era um rangido mais horrível que o outro.
Saindo da escada, no segundo andar, eu vi um corredor que era o mais assustador que você pode imaginar. Norman Beates Hotel, mane.
Psicose a parada.
A cada duas portas, todas pretas, havia umas fracas luzinhas na parede. Passamos lentamente pelo corredor. Na parede ao meu lado, eu vi uma imagem de São Jorge, com aquela clássica lampadinha vermelha. E atrás dele uns bonecos que me lembraram bonecos de vodu. Mas hoje, mais velho, sei que eram bonecos de Cosme e Damião.
O velho ia puxando aquela perna e só parou em frente à última porta.
Enquanto ele tentava abrir a porta, praticamente lutando contra a fechadura, eu comecei a pensar se todos aqueles outros quartos estariam ocupados para o velho me levar até o último do corredor. Imaginei cada um dos possíveis hóspedes que habitavam o interior daquelas portas assombrosas. Traficantes fugidos? Matadores de aluguel? Foragidos de todos os tipos e procedências…Comecei a pensar se o fato do velho me levar mais e mais para as profundezas daquele antro, não tinham o objetivo mórbido de abafar meus gritos na hora em que finalmente os zumbis aparecessem.
Quando dei por mim, o velho finalmente conseguia abrir a porta.
Novamente, foi aquele rangido clássico e a escuridão. O cheiro de mofo invadiu meu nariz e o velho deu dois passos naquele lugar escuro.
Num estalo ele ligou a luz. A parada era tão espantosamente tosca, que o cara ligava a luz do meu quarto com uma chave geral! Tipo coisa do Frankenstein! Deu um estalo e um raiozinho quando ela ligou e uma lâmpada de 60 watts pendurada com fita isolante nuns fios verde e laranja que pendiam do teto, se acendeu.
E então eu pude dar uma boa olhada no quarto:
O quarto era um cubículo de dois metros por dois metros. Não havia janela. Apenas um basculante perto da cama. A parede era tão clara quanto é a parede de uma borracharia de beira de estrada. Isso não é um exagero literário. Era exatamente assim. Era preta. Ensebada.
Aposto que a última vez em que aquela parede cheia de rachaduras viu uma tinta, o presidente do Brasil era o Washington Luís.
No quarto, não havia banheiro. Só uma pequena pia, bem do lado da cama.
No outro lado, um armário preto, ao lado da porta.
O velho me entregou a chave e eu tentei durante uns seis minutos girá-la no tambor e me trancar naquele lugar de pesadelo.
Dei uma mijada na pia, tirei os tênis.
Enrolei a mão numa toalhinha que eu levava na mala de bonecos. Eu tenho um cagaço enorme de tomar choque, e já que ia desligar aquela chave geral na parede do quarto, não quis arriscar.
Desliguei a luz e deitei na cama.
Porra, a cama era quase tão dura quanto o banco da casa da vó Cida.
Claro que eu deitei de roupa naquela merda de cama. Não ia fazer a maluquice de tirar sequer a camisa naquele lugar. Tentei não pensar em nada e apenas dormir, mas isso se mostrou uma tarefa impossível. Eu só pensava naquele corredor escuro, naquelas portas. Na imagem do São Jorge com a satânica luzinha vermelha iluminando parte do corredor. Na verdade, essa luzinha vermelha demoníaca entrava sorrateiramente pela fresta abaixo da porta. Comecei a pensar naquele lugar. Nas putas velhas dormindo no sofá pulguento. No visual do velho.
Pensei em quantas pessoas já estiveram naquele quarto que parecia mais uma cela do Dops.
Quantas pessoas tuberculosas já cuspiram naquela pia… Aquela pia que estava tão perto da minha cabeça.
Resolvi inverter e dormir com a cabeça para o outro lado.
Eu não conseguia mesmo pegar no sono e com os olhos abertos, o quarto ganhava ares ainda mais assustadores. Eu ouvia gemidos, ruídos e estalos.
Foi quando pensei que não havia olhado dentro do armário.
Vai que tem um sujeito com uma faca ali dentro, né? Melhor me certificar.
Enrolei a mão na toalhinha e acendi a luz novamente.
Abri com um certo medo o armário, e lá dentro só havia um cobertor peleja. Desses de mendigos.
Tornei a desligar a luz e me deitei.
Dormi.
Quando abri os olhos, acordei com um ruído estranho. Um tipo de grito horrível. Pulei da cama e corri no basculante. Pela greta eu vi que nos fundos do hotel havia um lixão e que um bando de urubus disputavam um pedaço de carniça. Olhei a hora. Seis e vinte da manhã.
Aproveitei que já havia amanhecido, peguei minha malinha, abri o quarto e saí fora.
Algum tempo depois, demoliram aquele velho hotel e fizeram um supermercado no lugar.
Mas eu nunca mais me esqueci daquela noite mórbida que passei naquele lugar esquisito… Seja com ou sem.