Guardas, propinas e um pouco de malandragem

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A pior coisa que tem é policial corrupto em véspera de natal ou carnaval. E lá estava eu, indo para o trabalho no carro do meu pai (que estava com o IPVA vencido). O lance é que eu morava em Niterói e ia para o trabalho em Três Rios, o que significava duas horas de viagem numa serra perigosa. Eu saía de casa 5:00 da manhã e metia o carro na estrada.
Naquele dia eu estava distraidamente dirigindo pela serra de Petrópolis quando um guardinha fez sinal para que eu parasse o carro no acostamento.
Eu pensei: Ferrou. Pro guardinha estar aqui de pé na estrada nesse frio, ele vai querer dindim.
Parei o carro e lá veio ele, com o passinho de “cerca Lourenço”. Parou ao lado do vidro e proferiu a frase clássica:
– Bom dia. Habilitação e documentos do veículo, por favor. – Era uma frase dita mecanicamente.
– Bom dia. (aquele tom amável de quem está cagado, apanhado com as calças na mão) Peguei a carteira, peguei o documento e entreguei a ele.
Ele ficou ali olhando, olhando…

Era um jogo de nervos irritante. Ele sabia que iria me ferrar. Eu também sabia, mas ele preferiu ficar ali, me enervando mais um pouco.

– O documento está atrasado. – Disse ele com um certo sorriso. Aquele sorriso pérfido de um urubu ao dar de cara com um boi morto na beira da estrada.
-Ué. É mesmo? Ih. Eu não sabia, senhor policial. É que este carro é do meu pai e… – tentei emendar um rol de desculpas, que ele, e eu mesmo, sabíamos que não serviria para nada além de introduzir a extorsão.
Então ele me interrompeu:

– Vou ter que apreender o veículo.

– Ah… – Disse eu. Eu já estava meio puto. Casado, com sono, tendo que ir para o trabalho cedo pra dedéu e ainda encontro uma dessa pelo caminho. Continuei:
– …Então tá. Pode apreender.

O guarda levou um susto. Não é todo dia que um sujeito fala que ele pode apreender um veículo por estar com o imposto atrasado. O guarda perdeu o rebolado. Eu me adiantei e saí do carro. Tranquei a porta.

– Por favor, me acompanhe. – Disse ele, apontando para aquela casinha onde o policial fica. Eu sabia que era para pedir o dinheiro. Fiz-me de bobo e fui.

Chegando lá, ele falou:
– O senhor tem certeza que eu posso apreender seu veículo?
– Claro. A propósito, o carro não é meu. – Uma óbvia jogada de negociação pra reduzir o valor da propina.
– Então eu vou apreender, hein? Tem certeza? Não quer ligar pro seu pai? – Perguntou ele. Parecia até um episódio do Chaves, meu.

– Senhor policial, eu ligar pro meu pai vai mudar alguma coisa? O senhor vai me liberar?
Eu posso é te prometer que pago o IPVA assim que chegar em Três Rios.

– Ah, isso eu não posso fazer. Não é certo. – Olha a cara de pau do sujeito, de falar esta segunda oração.
– Então apreende o carro, pô. Vou ficar aqui com o senhor cantando até que alguém venha me buscar. Tudo bem… Comecei a assobiar uma musiquinha bem irritante do Latino.
– … – ele ficou em silêncio olhando pra minha cara por cima dos óculos de leitura, bem como o Al Borgueti fazia. Ficamos ali nos encarando uns quatro segundos quando ele interrompeu “o som do silêncio”:

– Tá bom, tá bom. Vou te dar uma chance. Faz o seguinte. Libera duzentos reais aí e pode ir. – Foi assim. Na bucha.

– Hã? O quê? Duzentos reais? Pô se eu tivesse duzentos reais o carro estava com o IPVA pago, senhor policial. Eu tô duro. Tô indo pro trabalho…
– Quanto você tem aí?
– Eu tenho só dez reais pra pagar o pedágio. O senhor troca?
– Você não tem cheque?
– Cheque eu tenho. Só fundos é que não.
– Porra moleque. – O guardinha canalha ficou com raiva. – Você não tem limite na conta?
– Meu limite é de cem reais.
– Então faz logo um cheque de cem reais e pode ir.
E assim eu fiz. Escrevi um cheque de cem reais e perguntei se ele queria nominal. ( piada idiota, hehehe)
-Claro que não, né garoto? Faz ao portador.
Eu fiz e entreguei. O guarda devolveu o documento e a chave.
– Pode ir. E vai com Deus.
Enquanto eu ligava o carro e saía daquele trecho ermo e frio da serra de Petrópolis, me sentia mal. Me sentia um fraco de ter sido corrupto e cedido a uma extorsão barata de um guarda filho da puta, que chegou a se rebaixar e pedir a propina com cheque.

Passei o dia pensando em sustar o cheque. Mas lembrei que o guarda anotou a placa do carro num papel na mesa dele, e tive medo de fazer isso e ele telefonar para outros postos policiais alegando que eu furei um bloqueio, que eu erra perigoso e etc. E eu passava naquela serra duas vezes na semana, o que significava que eu ainda iria ver aquele canalha algumas vezes.
Paguei o IPVA atrasado e dali em diante passava lentamente na frente daquele puto, só pra ter o prazer de esfregar o documento em dia na cara dele.
O sujeito acabou tomando algum tipo de gancho, porque dali a uns 15 dias, ele sumiu. O posto em que ele ficava foi fechado e nunca mais o vi. Naturalmente pediu propina em cheque para mais alguém e se estrepou.
Eu jurei a mim mesmo que nunca mais na minha vida cederia a pressões cretinas e extorsões baratas de policiais querendo dinheiro. E isso se resumia a andar com tudo pago.
Esta parada de andar com tudo pago durou até o meu carro começar a colecionar uma porrada de multas (venha a Niterói e ganhe várias de recordação) que me impediram de fazer uma daquelas vistorias obrigatórias.

Então um dia, o Barbado, que era meu chefe na Ignis Games me pediu pra pegar ele no Aeroporto. O expediente acabou, eu peguei meu carro e fui pro aeroporto pegar o chefe. Quando eu acabei de descer a ponte da Ilha do Governador, perto daquele posto de gasolina, dei de cara com uma blitz. Eu sabia que não tinha feito a vistoria e por isso estava ferrado. Mas mentalmente, jurei que não iria pagar nada pra nenhum filho da puta.
O guarda armado com um fuzil apontou pra mim e em seguida para o acostamento. Mandou eu encostar. Eu parei o carro e veio o sujeito. Aquele mesmo diálogo.

– Documento e habilitação do veículo.
– Sim senhor. – Entreguei. Novamente, um tempão conferindo.
– O senhor não fez a vistoria. – Olha que novidade! Ele é bem esperto, né? E eu me fiz de otário, como convinha. Só que dessa vez eu me concentrei e desempenhei a melhor atuação de bom samaritano, digna do Oscar:

– Eu sei, senhor policial. Não fiz mesmo.
– E por que não fez? Eu vou apreender seu veículo, cidadão.
– Eu sei, senhor policial. O senhor está certo e acho que deve mesmo apreender meu veículo. Afinal, é sua função. Eu não tenho cara de pau de pedir pro senhor me liberar.

-… – O guarda bolado. – E o cidadão sabe quanto é a multa que vai ter que pagar? Duzentos e cinquenta reais! – Aquele preâmbulo de assustar para em seguida entrar com o pedido da propina. Mas eu continuei firme:

– É verdade. É uma multa enorme. Pode multar seu policial. É seu trabalho, né? Eu só gostaria que o senhor soubesse uma coisa. Posso falar?
– Pode cidadão.
– Eu queria só que o senhor soubesse porque eu estou com a vistoria atrasada. Mas olha, isso não é uma desculpa não. É que eu nunca atraso nada, e então acho que tenho que me explicar. Mas a multa e a apreensão do veículo está certo. É seu direito. É sua obrigação mesmo…

– Então fale, cidadão. – Disse o guarda curioso. E eu entrei no personagem de cabeça:

– Policial, olha aqui, vem ver a placa do carro. Tá vendo? O carro é de Três Rios. Eu sou de Três Rios, ( caprichando no sotaque). Eu trabalhava lá. Mas a firma onde eu trabalhava me demitiu. Ela faliu e não me pagou nada. Nem seguro desemprego, nem FGTS, nem nada. Eu fiquei com a mão na frente e outra atrás. E o pior não é isso. O pior é que eles lá usavam meu carro para fazer entrega no Rio. Eu, que precisava daquele emprego, deixava. Só que não sabia. O carro ficou cheio de multa. A firma disse que ia pagar. O senhor pagou? Então, nem eles.

Pra piorar, seu policial, a minha mulher estava grávida. Quando fui ver, era de três.
Três filhos, seu guarda. Desempregado, como que eu vou sustentar três crianças? Duas meninas e um menino? Quer ver a foto, olha aqui – Disse eu sacando a carteira, passando os plastiquinhos. – Não tinha nenhuma foto de criança, afinal, aquilo era absolutamente tudo inventado. Mas eu continuei firme no caô:

– Ué, cadê as fotos? O Washingtton, o Wellingtton e a Stefannyh… Deixa eu ver. Acho que tá aqui. – Disse eu futicando nos compartimentos da carteira. Quanto aos nomes, inventei na hora. Pobre gosta de nome complicado, cheios de “W”, “Y” e letras duplas, né?

– Continue, cidadão. – Disse o policial, olhando em volta. Eu percebi que ele estava interessado. E não perdoei.
– Então, eram três filhos, né? Eu tinha que arrumar um emprego. Dar sustento pra minha família. Decidi vir pro Rio de Janeiro, porque aqui tem mais oportunidade, né? Eu vim com a minha mulher e as crianças e estou de favor nos fundos da casa de uma tia minha que é doente láno Coelho em São Gonçalo, conhece? ( O tal Coelho é um bairro barra-pesada. descobri o bairro quando numa tentativa de assalto acabei puxando papo com o ladrão…Em breve em algum outro caso Gump) …Minha mulher tá fazendo faxina num bar.
Arrumei um emprego ontem, “Com a Graça de Deus” ( encarnando o pobre evangélico, afinal, nada como a Religião para amolecer o coração de um guardinha) e hoje foi meu primeiro dia no emprego. E o meu chefe perguntou se eu podia pegar ele no aeroporto. Eu vou dizer o quê, seu guarda? Vou dizer “não” ao chefe logo no primeiro dia de serviço? O que o senhor faria?
Eu vim buscar o meu chefe. E agora, já sei que me ferrei.
Então, se for apreender o carro tudo bem. Eu já me ferrei mesmo, né? ( olho no relógio)
O homem chegou de viagem faz vinte minutos já. Eu estou queimado. Furei o compromisso no primeiro dia de trabalho. Ele não vai acreditar no papo de uma blitz no caminho para o aeroporto… Já era. Tomara que eu não seja dispensado, afinal, nesse emprego, que eu custei pra arrumar, não vou ganhar muito mas pelo menos vou poder começar a pagar as pessoas a quem eu devo.
Vou poder arrumar minha vida. E comprar comida pras crianças, tadinhas ( os olhos cheios d´água – meus e do guardinha) porque seu guarda, elas não merecem…

Então, policial, se o senhor quiser me multar, o senhor está certo. É o seu direito. Mas sabe quantos litros de leite dá pra comprar com o valor desta multa? – A facada final, aquela pergunta retórica que bate fundo no peito. O guarda estava já quase chorando.
– E seu guarda…
– Cabo Rogério. – Disse ele . Eu fiquei feliz. Havia quebrado o distanciamento institucional. Agora o papo era entre duas pessoas, dois seres humanos. Dar o nome era uma prova de que eu fragilizara seus instintos. Eu estava em franca vantagem psicológica.
– Então, Cabo Rogério, a minha mulher, ela está doente. Ninguém sabe o que é. Vomitou sangue de madrugada… E eu só penso nas crianças. Como que vai ser, Rogério? – Eu dizia enquanto uma singela lágrima escorreu do canto dos meu olho. Ficou dramática aquela cena… Digna de um capítulo final na novela das oito.
– Pode parar, cidadão. – Disse ele apoiando no meu ombro com a mão. Vou tentar te liberar. Espera aí.
O guarda saiu enxugando os olhos.
Falou com um outro. Ele ficou e veio o outro.
Eu pensei: Putaquipariu! Só falta ter que contar essa merda toda novamente, pior que com certeza, eu não vou me lembrar.
O outro veio com a porra da metranca pendurada no pescoço. Eu não conseguia tirar o olho daquele trabuco. Enquanto isso, o outro policial, visivelmente superior na hierarquia, falou:
– Cidadão, conversei com o cabo Rogério. Ele quer que eu te libere.
– É mesmo? ( a clássica frase para que o policial introduza a extorsão)
– É. Só que o veículo tá irregular, e o certo era eu segurar o seu veículo. Mas então?
– Então? – Entendi bem, mas me fiz de bobo. Ele queria que partisse de mim a proposta. (Mas fiel a minha promessa na serra de Petrópolis, fiquei firme.)
– Então… Se eu te liberar eu estou errado e você está errado. Agora você que sabe. Eu preciso de uma amostra do seu interesse. Tá me entendendo? Tá me entendendo? – Apontou pra carteira.
– Amostra?
– É, sabe como é. A multa é alta. A gente pode dividir esta multa aí.
– Ué, eu não sabia que a polícia parcelava a multa. Dá pra dividir em quantas vezes? Tem juros?
– … – O policial ficou me olhando com cara de “que moleque retardado”
– Quanto você tem aí?
– Então, senhor policial… Eu tava no trabalho. Só tenho dinheiro pra pagar a ponte pra voltar pra São Gonçalo. Três reais. – Enfiei a mão no bolso e tirai três notas de um real. A única verdade que eu falei naquela blitz. E continuei: – Se eu te der uma, não posso voltar pra casa.
Ah, cidadão. Vai embora. Vai embora. Sai daqui. E vê se não dá mole hein?
– Sim senhor, obrigado senhor.
E eu fui embora, deixando para trás um bando de otários.
Acho que se o Cabo Rogério estivesse voltado, ELE me daria uns dez reais.

Nem todos os policiais são safados, lógico. Mas esses eram. Esse tipo de criatura mancha a imagem do estado. É triste saber que existem seres tão baixos.
Mas eu fiz a minha parte. Saí dali, paguei as multas e fiz a vistoria. Agora, ando com o carro certinho pra evitar ter que “atuar” novamente.