O KLF, uma banda tão doida que literalmente queimou dinheiro.
Em 1991, o grupo musical mais vendido do mundo não era uma grande banda de rock, nem uma superestrela pop. Era The KLF, um duo britânico formado por Bill Drummond e Jimmy Cauty.
Apesar de muito famosos na época, sua popularidade não veio apenas por suas músicas contagiantes, mas também por sua atitude anárquica e subversiva em relação à indústria fonográfica.
O The KLF se destacava não apenas por seus hits, mas pela forma como zombava do mercado musical e desafiava as convenções estabelecidas.
Diferente de outros artistas que buscavam fama e fortuna, Drummond e Cauty tinham uma filosofia peculiar, que pode soar muito estranha em tempos de capitalismo selvagem:
Eles não queriam lucrar com sua arte.
Assim, absolutamente todo o dinheiro que ganhavam era reinvestido em produções cada vez mais extravagantes, em vez de ser usado para enriquecer seus criadores.
O Sucesso e a Polêmica de The KLF
Durante os primeiros anos da década de 1990, a popularidade do The KLF cresceu exponencialmente. Um dos maiores sucessos do grupo foi Doctorin’ the Tardis, um mashup que misturava o tema do seriado Doctor Who com Rock and Roll (Part Two) e outros sucessos da época:
Apesar das críticas negativas da mídia especializada, essa música esquisita atingiu o topo das paradas no Reino Unido e entrou no top 10 em países como Austrália e Noruega.
Entretanto, não era apenas a música que chamava a atenção. A banda sempre fez questão de provocar a indústria musical com gestos ousados e inesperados. Esse comportamento atingiu o auge em uma apresentação histórica no Brit Awards.
O Choque no Brit Awards
A performance mais controversa do The KLF aconteceu no Brit Awards, um dos maiores eventos musicais do Reino Unido. Para a ocasião, a banda se juntou ao grupo punk chamado Extreme Noise Terror e apresentou uma versão de 3 A.M. Eternal em estilo thrash metal. Drummond, usando um Kilt e um sobretudo de couro, gritava as letras da música no microfone de forma intensa.
O momento mais chocante veio quando ele saiu do palco e retornou segurando um enorme fuzil automático. Diante de uma audiência perplexa, ELE COMEÇOU A ATIRAR NO PÚBLICO!
Felizmente, a metralhadora era equipada com balas de festim, mas o povo não sabia e considerando que eles já tinham uma fama de ter o miolo meio mole, você pode imaginar que foi uma correria de pânico sem precedentes.
Para encerrar a apresentação caótica, um locutor anunciou solenemente:
“Senhoras e Senhores, The KLF deixou a indústria musical.”
O que parecia apenas uma declaração bombástica, feita para chocar e fechar com chave de ouro, logo se mostrou verdadeiro. Eles pararam pra valer!
Pouco depois, o duo anunciou oficialmente sua aposentadoria da música. Contudo, um problema surgia: Mas e agora? O que fazer com todo o dinheiro que ainda entrava devido aos direitos autorais de suas canções?
A Criação da K-Foundation e o Dilema do Dinheiro
Após deixar a indústria musical, Drummond e Cauty passaram a refletir sobre sua relação com o dinheiro. Eles nunca quiseram ganhar fortunas e, mesmo sem lançar novas músicas. Mas seus antigos sucessos continuavam gerando receita sem parar.
Isso evoluiu até que no ano de 1993, o KLF acumulavam cerca de £1.000.000 (um milhão de libras esterlinas), cerca de sete milhões e trezentos mil reais aproximadamente. Nada mal para quem não queria ganhar nem um centavo e fazia tudo de zoeira, né?
Assim, eles decidiram fundar a K-Foundation, uma organização inicialmente voltada para ajudar artistas em dificuldades financeiras.
[momento desabafo de um artista falido] (E eu aqui na merda… “Mim dê, papai, mim dê!”)
Voltando ao post: Entretanto, fiéis à sua filosofia de contestar o sistema, logo mudaram de ideia. Justificaram sua decisão com uma declaração peculiar:
“Percebemos que artistas em dificuldades devem continuar a lutar, afinal, esse é o verdadeiro objetivo.”
[momento desabafo de um artista falido 2] Filhos da puuuutaaaaaaa!
Diante dessa nova perspectiva, decidiram fazer algo completamente inusitado com o dinheiro. Primeiramente, tentaram criar uma obra de arte com as cédulas, pregando as notas em uma grande moldura de madeira. No entanto, nenhuma galeria aceitou expor a peça. Tentaram transportar a obra para a Rússia, mas nenhuma seguradora quis cobrir os riscos. Sem saber o que fazer com uma montanha de dinheiro, uma ideia extrema surgiu: VAMOS QUEIMAR A PORRA TODA!
A Queima de Um Milhão de Libras
No dia 22 de agosto de 1994, Bill Drummond e Jimmy Cauty, acompanhados de seu fiel ajudante conhecido como Gimpo, embarcaram em uma jornada inusitada. Pegaram uma balsa rumo à ilha de Jura, na Escócia, um local onde já haviam realizado uma de suas performances artísticas anteriores.
Dentro de um galpão industrial abandonado, eles começaram a formar pilhas de cédulas de 50 libras, cada uma contendo £50.000. Inicialmente, ficaram receosos de que o dinheiro não queimasse direito, mas logo as notas começaram a pegar fogo rapidamente. Cauty jogava cédulas no fogo com empolgação, enquanto Drummond usava uma tábua para empurrar as notas que escapavam das chamas para dentro do fogo.
Em torno de £100.000 subiram pela chaminé, se dispersando pelo céu da ilha. O evento foi registrado por Gimpo em um filme de 67 minutos intitulado Watch the K Foundation Burn a Million Quid (Assista a K-Foundation Queimar Um Milhão de Libras), que mais tarde seria exibido em vários eventos.
Repercussões e arrependimento
A queima do dinheiro causou grande controvérsia e questionamentos. Durante as exibições do filme, Drummond e Cauty debatiam com a audiência: foi certo? Foi errado? Ou não era da conta de ninguém?
A mídia e o público se dividiram. Alguns viam o ato como uma crítica contundente ao capitalismo e à obsessão por dinheiro. Outros consideravam um desperdício absurdo que poderia ter sido usado para algo mais significativo.
Por anos, Drummond afirmou que não se arrependia da decisão. No entanto, em 2004, admitiu à BBC que justificar o ocorrido se tornava cada vez mais difícil:
“É algo muito difícil de explicar para seus filhos. E não fica mais fácil com o tempo. Gostaria de saber explicar o motivo para que as pessoas entendessem.”
Por outro lado, Cauty foi mais afetado pela decisão. Amigos relataram que ele entrou em um estado de depressão leve e sentia uma espécie de choque pelo que haviam feito:
“Todos os dias eu acordo e penso: ‘Meu Deus! Queimei um milhão de libras e todo mundo acha que foi errado’.”
Arte, Protesto ou Insanidade?
O ato de The KLF continua sendo um dos momentos mais bizarros da história da música e da arte contemporânea. Foi uma crítica ao materialismo? Um protesto contra a indústria fonográfica? Ou apenas um capricho de dois artistas excêntricos?
Independentemente da interpretação, a história de Bill Drummond e Jimmy Cauty permanece um dos gestos mais radicais já feitos no mundo da música.
Certo ou errado, eles fizeram o que queriam.