A cadeira obscura- Parte 8

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Capítulo 8 de 23
breucapa | Contos | conto, Contos

Renato bateu a cabeça violentamente contra o chão de pedra da pracinha.

Tudo se apagou numa espécie de blecaute.

Quando recobrou os sentidos, Renato percebeu que estava de barriga para baixo. Seu corpo doía miseravelmente. Descolou a cara do chão frio. Abriu os olhos mas não viu nada. Não tinha som. Não tinha ninguém.

-Socorro!  – Ele gritou, apenas para perceber sua voz sumir, engolida pela escuridão opressora ao seu redor.

Pensou que talvez estivesse cego. Mas não estava.

Tateou pelo chão em busca de encontrar alguma coisa. Não havia absolutamente luz alguma ao seu redor. Precisou tocar o rosto para ter certeza que estava com os olhos abertos. Tornou a gritar por socorro, mas não teve sucesso.

-Que lugar é este? Que merda é essa? – Renato se perguntou.

Sem saber o que fazer, ficou parado. Não sentia vento, nem nada. Somente um cheiro estranho, de poeira, de coisa velha.

O chão frio lhe fez pensar que talvez estivesse preso num necrotério. Talvez quando bateu a cabeça, tivesse desfalecido e o povo, aquele bando de ignorantes, tivessem o levado para algum necrotério. Talvez fosse tarde da noite, não houvesse ninguém no necrotério. Pensou que poderia ter acordado e caído da maca…

Andou, com a mão abanando o ar, movendo de um lado para o outro, como as baratas movem suas antenas. Mas não havia maca. E nem parede. Fosse aquele lugar o que fosse, não havia parede alguma. Seu único contato era o chão.

Renato abaixou-se e sentiu o chão com as mãos. Era liso, frio. Metálico. Parecia coberto de uma camada de poeira fina, pois pôde sentí-la entre os dedos.

Sem ver nada, resolveu andar. Andou a esmo, sem saber para onde estava indo.

Foi o início de sua longa jornada. Renato andou na escuridão completa por um longo tempo. Inicialmente, o desconforto de andar sem enxergar lhe fez dar passos de bebê. Não conseguia se manter aprumado. Renato percebeu naquele breu sua completa dependência da visão. Mas ele prosseguiu. Sempre com os braços para frente, se agitando no ar.

Com o tempo, seus braços doíam horrivelmente e Renato começou a andar levantando os braços muito eventualmente. Horas depois, andava sem nenhum braço para frente. Andou até cansar. E quando cansou, sentou-se para pensar em sua bizarra condição.

-Mas que caralho… Isso é… Impossível.

Então, um tremelique subiu por sua coluna e Renato constatou algo horrível:

-Caralho! Eu morri!

Renato tocou o braço. Sentiu a jaqueta. Sentiu o couro. Sentiu a camiseta por baixo e a calça comprada na galeria no dia anterior. Nada parecia fazer sentido. Puxou o joelho da calça e encostou a testa nos joelhos. Sentiu o cheiro dela. O cheiro de Lílian. Onde ela estaria agora? Talvez estivesse no velório dele.

Um homem tão aventureiro, com tantas histórias, tantas situações, morrer assim, tão bestamente. E que bosta de inferno era aquele sem um fogo, sem uma labareda, sem um chifrudo? …A sensação era de estar num armário infinito. A angústia lhe consumiu todas as esperanças quando Renato resolveu gritar novamente.

Gritou até perder o fôlego e desesperado, começou a chorar.

Chorou até perder as forças. Quando finalmente se recompôs, sentiu algum alivio de que pelo menos ninguém tinha visto ele fazer aquele papelão. Onde já se viu? Coisa de maricas.

Renato levantou-se e continuou a andar.

Andou por mais um bom tempo, até que bateu de cara numa parede. Foi um choque e tanto. Renato meteu a fuça na parede de metal com tamanha vontade que perdeu o equilíbrio e caiu sentado.

-Caralho! – Gemeu com a dor na testa. Ao mesmo tempo, sentia-se eufórico. Havia achado a parede! Havia uma parede então. E se havia uma parede, era óbvio que havia também uma porta.

Renato tateou pela parede em busca da porta, mas a parede era enorme. Ele podia segui-la para a esquerda ou para a direita. Escolheu usando o método científico.

-Uni-duni-tê…Salamê-minguê-o-lado-escolhido-é-você!

Foi pela direita. Logo, após uma longa caminhada, percebeu que devia era ter ido pela esquerda, já que a parede da direita não mostrou porta alguma.

Andou novamente até se cansar e precisou sentar. Estava com fome e sede. Não sabia as horas, e apesar de ter um relógio no pulso, ele era antigo e Renato não conseguia ver os ponteiros.

Renato encostou-se na parede.

-Porra de lugar maldito. Porra! Filho da putaaaaaa! – Berrou até sentir os pulmões arderem. Renato odiava a sensação de estar preso.

Fechou os olhos, já que não fazia diferença mantê-los abertos.  Ficou pensando na vida. No que poderia estar fazendo se não estivesse ali, naquela porra de escuridão gélida.

Renato só realmente abriu os olhos quando ouviu um sussurro atrás dele.

-Ist da jemand ?

Renato saltou do chão, com um misto de cagaço e felicidade.

-Que? – Renato perguntou, afobado. Mas não houve resposta.
-Tem alguém aí? Quem falou? Quem falou? Quem está aí? Eu sei que tem alguém aí! Quem está aí? Quem é você?

Mas novamente, ele tornou a ficar na completa solidão. Estaria ficando louco? Estava surtando? Teria sido uma alucinação?

Não, não era. Renato ouviu um estrondo. Uma batida dura e pesada que fez tremer o chão. E em seguida ele sentiu um deslocamento de ar. Alguma coisa passou correndo perto dele. Ouviu o barulho. Era um “plã,plã,plã” interminável que passou por ele e foi se distanciando.
Diante daquele barulhão Renato emudeceu. Abaixou-se. Ficou encolhido. Tinha mais alguém ali com ele. E isso era assustador…

Quando o silêncio novamente se estabeleceu, Renato ouviu novamente a voz. Ela vinha de trás da parede e era bem baixa.

-Wer bist du? Du da drüben! Ich rede mit dir . Können Sie mich hören? Ich brauche Hilfe! Ich bin sehr weh. Die Sache … Die Sache kommt und geht. Sie wird mich bekommen . Hüten Sie sich vor der Sache! Wenn er kommt , so tun Sie schlafen !

-Ei… – Renato reconheceu aquela língua, mas o sujeito falava depressa demais. Ele não conseguia entender. Só compreendeu a última parte sobre “dormir ou fingir que dorme quando a coisa vier” Ele havia passadio muito tempo falando em alemão na loja de Munique, mas reconheceu pelo sotaque e velocidade que ali estava alguém do norte da Alemanha. Tentou arranhar alguma coisa:
-Hallo Kumpel. Mein Name ist Renato . Wo bin ich? Welcher Ort ist das?
O homem do outro lado ficou em silêncio por alguns segundos. Parecia surpreso e bem desesperado.
-Hilf mir! Hilf mir, Herr! Ich bin verletzt! Die Kreatur wird mich umbringen ! Die Kreatur ! Sein Kommen!
-Bitte Freund … Sagen Sie es langsam . Ich kann nicht undersatnd Sie . Ich bin kein Deutsch . Ich bin Brasilianer. Was ist das Wesen ?

O sujeito ficou em silêncio novamente. E então ele falou baixo, tão baixo que era quase impossível de ouvir.
– Shhhhh! Sein Kommen!
-Ach Was? Ach Was? Ich kann nicht verstehen! – Renato respondeu. Mas o sujeito emudeceu completamente. Renato insistiu.-Mein Herr? Wie heißt du , mein Herr?
-Shhhhh! Halt den Mund dieses Mund Arschloch!

Renato se emputeceu com aquilo. Estava tentando ajudar o desgraçado e era insultado.
Então ressurgiram, as batidas. Elas vinham aumentando, como se fossem pequenas explosões.
Renato sentiu o chão vibrar e então elas pararam subitamente.

Renato ficou mudo. Estava de pé, com os olhos fechados na escuridão. Ele ouvia o ruído quase inaudível de alguma coisa respirando. Ele sabia que não estava sozinho. Tremendo de medo, Renato esticou o braço para a frente e para seu horror, sua mão encostou numa coisa peluda.

CONTINUA