O sol entrava pela fresta da persiana como uma lâmina fina, cortando o ar poeirento do quarto. André acordou devagar, com aquela preguiça pesada de quem dorme demais nos dias úteis. Sentiu o calor abafado da manhã de verão. Estava suando. O ventilador de teto estava estragado; já estava fazendo dois meses. Sentia o peso do lençol úmido sobre o peito, o cheiro de mofo misturado ao suor noturno. Nada de novo. Mais um dia de trabalho na loja de carros usados do cunhado. Ele sabia que o trabalho que sempre odiou o aguardava dali a algumas horas.
Antes de abrir os olhos, ouviu o trem passar lá fora, como um ronco distante. Então ele abriu os olhos.
Foi quando Andé viu.
Flutuando a meio metro da cama, bem no centro do quarto, uma esfera preta. Perfeita. Lisa como a pele de uma criança recém-nascida, sem uma única imperfeição, sem emendas, sem reflexos. Nem o sol que vazava pela persiana ousava tocá-la; a luz parecia se curvar ao redor, deixando-a num vácuo de sombra absoluta. Tinha o tamanho de uma bola de basquete, talvez um pouco maior, e pairava imóvel, silenciosa, como se o ar a ignorasse. Não vibrava, não zumbia, não emitia som algum. Apenas… estava ali.
André ficou paralisado por um instante que pareceu eterno. Seu coração deu um pulo surdo no peito, mas ele não gritou. Não ainda. Em vez disso, piscou de novo, forte, como se pudesse apagar aquela imagem da retina. Talvez ainda estivesse sonhando. Lembrou por um segundo que leu no Reddit sobre “sonhos lúcidos”.
Fechou os olhos por dez segundos inteiros, contando mentalmente: oito, nove, dez… Abriu-os.
A esfera ainda estava lá. Imóvel. Perfeita.
— Que porra é essa? — murmurou para si mesmo, a voz rouca de sono. Ele se sentou na cama devagar, o colchão rangendo sob seu peso. O quarto era pequeno, paredes mal pintadas de um branco sujo, a cômoda velha no canto com pilhas de roupas amontoadas, o espelho rachado na porta do armário. Um pôster de filme… Tudo normal. Exceto… aquilo.
Ele esticou a mão, hesitante, como se testasse o ar quente de um forno. Os dedos tremiam a uns centímetros da superfície, ms a bola se afastava. Não sentia calor, nem frio. Nada. A esfera não reagia. Ele retraiu a mão, o pulso acelerado agora martelando nas têmporas. A esfera voltou a posição original. Pensou em rir, em se convencer de que era um delírio. Talvez estivesse endoidado. Teve um primo da vó dele que era doido. Matou a família toda. Ou ainda, podia ser o tal sonho lúcido, daqueles que vêm depois de uma noite de cachaça barata com os amigos no bar da esquina…
Mas o cheiro do quarto era real demais — cigarro velho, café frio da noite anterior —, e o sol na persiana queimava sua pele exposta.
Levou as mãos à cabeça, esfregando os olhos com força. “Tá bom, acorda, André. Acorda logo.” Mas ela não sumia. Estapeou a própria face tentando se livrar de qualquer tanse, mas apenas ficou com o rosto doendo.
Ele saiu da cama se esgueirando, se arrastou pelo chão… Os pés descalços batendo no piso frio de cerâmica. A esfera preta se aproximou. André correu para a porta do quarto, o coração na garganta, girando a maçaneta com dedos úmidos de suor. A esfera estava vindo.
Trancada? Não, só emperrada como sempre. Ele forçou, e a porta rangeu e abriu num estalo, para o corredor estreito que levava para a sala.
Ele olhou para trás, por cima do ombro. A esfera o seguia. Sempre à mesma distância.
Não rolava, não voava com velocidade. Apenas se movia, suave, mantendo exatamente a mesma distância: dois metros, talvez dois e meio. Pairava no ar como se o quarto fosse seu habitat natural, deslizando sem esforço pelo espaço vazio. André congelou no centro do corredor, o ar preso nos pulmões.
— Não. Não, não, não.
Ele deu um passo para frente, acabou tropeçando na pilha de sapatos perto da entrada. A esfera veio atrás, silenciosa, imperturbável.
Ele correu. A casa era minúscula, com cozinha integrada à sala, banheiro no fim do corredor, mas André correu como se fosse um labirinto infinito. Seus passos descompassados ecoaram no piso gasto, o corpo suado colando a cueca boxer à pele. Chegou à cozinha, por sorte a calça jeans estava pendurada na cadeira. Ele saltou dentro dela com uma desenvoltura olímpica que só o medo é capaz de proporcionar.
Agarrou-se à pia de inox enferrujada, inclinou-se sobre a torneira pingando. Jogou água no rosto, gelada, revigorante. Ofegante, virou-se devagar.
Ela estava lá. Dois metros e meio de distância exata. Pairando sobre a mesa de fórmica, onde descansava a xícara de café da noite passada, com suas bordas encardidas.
André gritou então. Um grito gutural, animalesco, que reverberou pelas paredes finas da casa:
— Saaaai! Vai embora! Sai daqui, caralho!
Ele pegou a xícara e arremessou com toda força. O café frio espirrou no ar, a porcelana girou como um míssil tosco e acertou a esfera em cheio se espatifando, mas nem a sujeira aderiu na esfera misteriosa. Pedaços brancos voaram pelo chão, e poças de café escorreram em riachos marrons na fórmica da mesa.
Mas a esfera… continuou lá. Intocada. Imóvel. Dois metros e meio.
“Que merda é essa?”
Ele caiu de joelhos, as mãos tremendo no rosto. Pensou em fantasmas, em alucinações, em algum vírus que pegara no metrô lotado. Ele era vendedor de carros usados, nos finais de semana, passava dias inteiros na frente do computador, comendo miojo e bebendo energético. Estresse? Remédios? Não tomava nada além de ibuprofeno para as dores de cabeça. Ontem à noite, tiha sido só uma cerveja com o vizinho no quinal, conversando sobre o jogo de futbol. Nada fora do normal.
André levantou-se devagar, costas arqueadas como um animal acuado. Testou de novo: deu um passo para a esquerda, em direção à geladeira. A esfera se moveu em sincronia perfeita, deslizando pelo ar sem som, sem deslocamento de ar. Ele parou. Ela parou. Dois metros e meio. Ele correu para a sala. E meio ao sofá puído, TV de 32 polegadas na parede, janela com vista para a rua. Puxou a cortina, abriu a janela com violência. O barulho da cidade invadiu: buzinas, vendedores ambulantes gritando ao longe.
— Eeeeeei! Alguém! Socorro!
Se debruçou na janela, acenando os braços. A rua lá fora estava meio vazia, com o movimento matinal: um casal de idosos caminhando com o cachorro, um motoboy parando no sinal, crianças indo para a escola com mochilas coloridas. Nnguém deu atenção.
–Eieeee! Olha aqui! Tem uma… uma coisa aqui!
Ninguém olhou. O motoboy acelerou, o casal seguiu alheio, uma mulher com fones de ouvido nem mesmo notou e passou correndo.
André gritou mais alto, a voz falhando até que desistiu. Era só mais um mlauco numa cidade-hospício.
André voltou-se para dentro. O peito arfando. Voltou-se. A esfera pairava no centro da sala agora, bloqueando o caminho para o corredor. Dois metros e meio. Ele contornou devagar, colado à parede, sentindo o gesso úmido sob os dedos. Ela contornou também, suave como óleo em água. Não colidia com móveis. Ela deslizava graciosaente sobre a mesa de centro, ignorando a pilha de contas atrasadas.
Adré pulou para dentro do banheiro, e trancou a porta. O espelho embaçado refletia seu rosto pálido, olhos injetados, barba por fazer. O alívio chegou com força: Estava finalmente sozinho. Talvez, se ficasse ali um tempo, ela iria embora, pensou.
Lavou o rosto de novo, bebeu água direto da torneira, engasgando.
“Pensa, André. Pensa racionalmente.”
Ele era lógico, afinal. Vendedores de arros usados pensam padrões em dados caóticos. Isso era um padrão? Distância constante, movimento sincronizado. Como um drone invisível, ou um holograma defeituoso. Mas sem som, sem luz. Lisa demais para ser real.
Abriu a porta do banheiro com cautela. Ali estava ela. Ela esperava do outro lado, dois metros e meio no corredor estreito. André pegou a vassoura de lavar o banheiro, que ficava atrás da porta. Com a vasoura, abrindo uma greta, ele tentou empurrar a esfera. Mas foi impossível. A madeira bateu na superfície que parecia cerâmica polida, e a ela não se moveu. Estava como que colada no espaço.
O pavor crescia agora, não como um trovão, mas como uma névoa fria se infiltrando nos ossos. Andé fechou a porta e trancou. Pensou em se esgeirar pela janelinha e correr pelo jardim dos fundos até a rua.
Mas a janela erastreita demais. Ele nunca passaria.
O jeito seria voltar à sala, sair pela porta. A esfera não tinha sido hostil…
Ele saiu. Ela ainda estava no mesmo lugar. André vestiu uma camisa amassada. Tentou agir normalmete, previsivelmente como quem está acuado, diante de um cão bravo. Andou mesmo com mdo.
Pegou o celular na cômoda. Já eram 9:57 da manhã, quinta-feira. Uma notificação de e-mail picava. Prazo apertado para um cliente. Ignorou. Abriu a câmera, apontou para a esfera. Clicou. A tela mostrou a bola no ar. Ao fundo, o lençol bagunçado na cama.
Ele filmou um vídeo de dez segundos, girando em torno dela. Era impressionante.
André enfiou os pés nos tênis e abriu a porta da frente da casa, o trinco rangeu alto no silêncio do cômodo. E então, ele pulou pra fora e bateu a porta atrás de si, prendendo a bola lá dentro, e correu pra rua.
Mas tão logo se virou para entrar no carro, viu que ela veio atrás, deslizando pelo ar, saindo pela janela aberta na sala.
André se jogou dentro do carro e acelerou. “Agora quero ver, filha da puta!”
Ele pisou fundo e fez a curva para a avenida cantando peneu.
Seus olhos no retrovisor se arregalaram. A esfera preta ainda estava vido atrás.
André passou a quinta marcha e pisou o mais fundo que podia. O carro esguelava seu motor e já tremita todo.
A esfera seguia calmamente, como se voar a 160 km/h não fosse um problema.
Ele dirigi perigosamente, costurando entre os carros e caminhões, tentando fazer a esfera ficar para trás, mas era impossível.
Então André ouviu entre o ronco do motor quase explodindo, um barulho desagradável e bem conhecido: Era uma sirene.
“Fudeu, é a polícia!”
CONTINUA

7 Comentários
A história está muito interessante, Philipe. Volto na continuação. Até lá, abraço!
História interessante. Me deixou curioso. Leio o blog desde 2011 e adoro suas histórias.
Fico feliz que vc goste. Vamos ver onde essa história vai dar, hahaha Acho que vai dar muita merda.
Porra, finalmente… Bora…
Aeeeeee, um conto no Mundo Gump!!!
Aeeeeeeee!
Finalmente um novo conto de Philipe Kling David!
Sou leitor seu a muitooooo tempo! já li todos os seus contos!
Opa, que bom, fico feliz que goste. Vamos ver onde essa história da bola preta vai dar, hahaha