No mundo todo as pessoas ficaram chocadas.
O Show da esfera havia dado lugar a uma maciça cobertura da imprensa. Os mortos eram centenas de milhares. Idosos, mulheres, crianças. Nenhum arauto foi poupado.
O plano de suicídio coletivo foi executado com enorme sucesso, empregando um veneno sintético potente. Os jornalistas tentavam descobrir como o grupo religioso fanático e terrorista havia obtido aquela fórmula, de uso estritamente militar. Logo, enquanto imagens de milhares de mortos jogados ao redor da imensa bola negra que se destacava na fazenda apareciam nas telas, alguns especulavam teorias da conspiração de que o serviço secreto havia induzido a morte coletiva como forma de esmagar a resistência dos Arautos, que se tornava mais e mais poderosos, e começavam a inserir tentáculos de influência dentro do governo.
Houve então um luto mundial.
Os diretores do show cancelaram o capítulo final e André, com a esfera negra, foi mandado de volta para a prisão na instalação de pesquisas.
Os enterros e as despedidas levaram quase um mês inteiro, dado o volume de mortos. E houve também o efeito “rebote”. Muitos pais de jovens que haviam se batizado arautos, em depressão com a perda dos filhos, se mataram na sequência. O mundo praticamente todo presenciou estarrecido esses suicídios.
André voltou à sua condição perturbadora de esperar. Agora ainda pior, pois havia dado a autorização para a própria morte.
Um mês depois, André estava no camarim. Comía uvas.
Ele adorava uvas. E bolinhas de queijo.
A porta do camarim se abriu e Jack Harland entrou. O smoking branco era o mesmo. Ao abrir a porta, André ouviu o abafado canto vindo da direção do palco. Os shows estavam a pleno vapor.
— E aí, Adré? Tudo bem? — Jack lhe estendeu a mão.
— Senhor Jack! — Ele disse, de boca cheia, apertando a mão do jornalista.
— Espero que não tenhamos mais problemas dessa vez. Quero te dizer que por mim, isso tudo…
— Eu entendo. Não precisa falar nada.
— Não, não. Eu preciso falar. André, isso tudo é uma loucura!
André olhou para a bola, imóvel no ar, ao lado dele.
— De loucura eu entendo, e já estou de saco cheio, pra falar a verdade.
Jack nada disse, concordou em silêncio e saiu. Já quase na porta disse:
— Nos vemos no palco, então.
Jack saiu do camarim e subiu as escadas por trás do palco. Asistentes, bailarinas e gente do staff passavam pra lá e pra cá.
Das coxias ele viu as cantoras apresentando o Spherize myself novamente. O imenso público assistia e cantava junto. Por um mês Spherize myself dominava as paradas, mas agora seria um pouco diferente.
Quando elas terminaram de cantar, Jack viu entrar pelo lado esquerdo o famoso cantor Tonny Vernett, um famoso cantor da velha guarda, ídolo dos grandes shows de Las Vegas com sua Big band, na linha de Sinatra e similares. Os músicos executaram a introdução. Will Andersen, o gênio do piano, surgiu num piano de cauda branco iluminado pelo potente refletor.
Ele começou a tocar. A canção era baseada no Prelúdio em C Menor de Frédéric Chopin, Opus 28, número 20, e cantada no último verso, descolou de uma performance em linha reta dos poucos últimos compassos do Prelúdio. Tonny começou a cantar a triste melodia de “Os filhos da esfera”. As pessoas acompanharam com isqueiros numa miríade de pontos de luz que se perderam no horizonte. Era uma canção em homenagem aos mortos pela seita dos arautos da esfera. Ao final, pombas brancas foram soltas e voaram para o céu escuro, em meio a balões pretos, representando a alma dos que se foram.
O “The Sphere day reloaded” era um sucesso. Com uma audiência ainda maior que a do primeiro. Quem estava feliz eram os patrocinadores, que tiveram um desconto enorme para mais uma rodada de publicidades mundiais.
Novamente, as palavras dos políticos, todos fazendo questão de citar a triste perda dos jovens arautos e muitos culpando a bola pelo terrível desfecho.
Agora, mais que nunca, todos queriam pôr fim ao mistério.
André estava na poltrona vermelha. A luz intensa sobre ele tingia-o como uma mancha sanguinolenta na escuridão do palco.
Os políticos falavam no telão, um a um, seguidos de vaias, assobios, aplausos e gritos da imensa plateia, já aflita pelo momento derradeiro.
Quando os políticos acabaram, vieram as crianças ao som da filarmônica de Londres.
Mensagens de fé e esperança num mundo melhor, união. Chegou o momento do grande coral de cantores famosos. O palco ficou escuro. Assistentes empurraram a poltrona vermelha ao centro do palco. Ela tinha rodinhas e isso ajudava.
Quando o palco se acendeu, lá estavam eles. Os grandes ídolos de toda uma geração, juntos com camisas com o símbolo do evento, a meia esfera geodésica no peito, cantando num playback emocionado a canção da despedida. O belo espetáculo de vozes famosas em coral, com cada um tentando sua melhor e mais emocionada performance, foi incrível. André, de frente para o coral e de costas para o público, assistiu atento. Em certo momento, se emocionou e sentiu as lagrimas geladas descerem pelo rosto.
A bola, sempre iluminada por um facho de luz que a seguia, mantinha-se ao lado da poltrona, suspensa no ar.
Findo o coral VIP, era chegada a hora derradeira. O clímax do evento. Os indicadores na tela dos organizadores mostravam a máxima audiência.
As assistentes de palco com suas belas pernas torneadas entraram e prepararam a poltrona. Os tambores rufaram e a poltrona girou para o público. As pessoas aplaudiram animadas.
No microfone, Jack Harland disse:
— Senhoras e senhores, chegou o momento mais esperado da noite.
Ele passou o microfone para André dar suas palavras finais.
— Sejam felizes! — Ele disse.
O povo aplaudiu loucamente, em frenesi.
O médico entrou sob os acordes da suíte sinfônica de Shperize Myself.
A luz branca se derramou sobre André e sua poltrona de couro vermelho.
Um soro foi colocado ao lado de André. A música crescia, quase obliterando os aplausos e gritos do público.
As ajudantes de palco conectaram um fio que saía por debaixo das roupas de André num aparelho.
A seringa foi conectada na entrada do soro.
André olhou pela última vez para Jack Harland.
— Força, garoto. Vá com Deus. — O apresentador disse, fora do microfone.
André olhou para a coxia onde dezenas de pessoas assistiam em silêncio. Cantoras, bailarinas, staff e Nathan Hale. O velho levantou a mão num adeus.
André olhou o soro pingando.
A música chegava ao fim.
André sentiu tudo ir se apagando lentamente. Seu último olhar foi pra esfera, que pairava perto da poltrona. Imóvel.
No telão, um painel mostrando os indicadores de batimentos cardíacos e pressão sanguínea desenhava sístoles e diástoles na tela.
A orquestra acompanhava cada batida do coração, improvisando um tipo estranho de jazz.
Quando a bolinha verde que subia e descia lentamente foi formando picos mais e mais baixos e finalmente se tornou uma linha reta. A Orquestra tocou a pleno vapor “Spherize Myself”. Fogos estouraram no céu. O palco se iluminou com várias cores.
Explosões de confetes, fumaça e efeitos especiais variados aconteceram.
O povo aplaudia em total frenesi. Nas casas, em pubs e clubes noturnos, era festa, era como um grande Réveillon.
André estava morto.
A esfera continuava ali.
O palco se apagou por completo. A música cessou. Apenas a luz do canhão branco atingiu a esfera. Perto de onde o corpo de André estava caído, com a cabeça pendendo para o lado.
Luzes verdes de laser atingiram a esfera de várias direções.
A gigantesca tela de leds no fundo do palco se acendeu. Era a bola. A bola estava no centro do grande evento. Ninguém sabia o que aconteceria. Ela explodiria? Iria embora? Ficaria como estava?
Um silêncio tão denso que parecia absorver o ruído de dias, décadas, pequenas evidências de vida cotidiana. As vozes humanas, interrompidas, cessaram e deram lugar a um ruído novo — o rumor elétrico de equipamentos, o farfalhar ansioso das redes. Milhões de pessoas ficaram imóveis, olhando telas, céus, janelas: o homem morreu. A esfera não.
Quando a esfera se moveu, foi um susto.
Ela lentamente se moveu sem André. Jack deu dois passos para trás, temia que a esfera parasita aderisse a ele. Todos temiam.
A esfera foi até o centro do palco, levitando calmamente, e estacionou no ar.
As pessoas, com suas respirações presas, acompanharam atentas.
Na sala de comando da organização do evento, o diretor-geral controlava a ordem das câmeras para que não ficasse chato, já que a bola não estava fazendo nada espetacular.
Um dos homens que fazia análise telemétrica da esfera virou-se na cadeira e disse:
— Senhor! Senhor, olha esses números!
O homem foi até o painel conferir.
— Está certo isso?
— Ela está encolhendo! Olha aqui! O diâmetro da leitura do laser! Aqui, ó.
— Blake, joga as leituras no telão! Agora!
Os números apareceram grandões lá no fundo.
O povo começou a aplaudir.
— Senhoras e senhores, estão dizendo que a esfera está encolhendo! — Jack disse animado ao microfone. Aplausos estouraram de todos os lados.
Todos os canhões de luz do palco apontavam pra esfera. Lá atrás, os números iam rapidamente mudando.
Em todo o planeta as pessoas viam estupefatas a esfera encolhendo ao vivo na Tv. As imagens mostraram-na em close, refletindo lâmpadas e rostos. Não havia inscrição, nem rachadura, nem pulso luminoso. Só uma superfície que devorava detalhe e devolvia fundo.
Ela diminuía rapidamente. Jack com sua voz de narrador de telejornal narrava o que recebia pelo ponto eletrônico: “Ela chegou ao tamanho de uma bola de ping-pong!”
A cada notícia o povo aplaudia mais.
“Uma bola de gude, senhores… Uma pérola!… Um grão de arroz…”
Em um certo momento, ela não podia mais ser vista nem registrada pelas câmeras, mas os lasers de alta potência ainda a captavam, ate que finalmente pararam de captar.
“Perdemos! Perdemos! Estão informando que ela sumiu!” — Jack praticamente gritava animado no microfone. Novamente fogos estouraram. A orquestra voltou a tocar a todo volume e as pessoas cantaram juntas.
A notícia alcançou os lugares mais remotos do globo terrestre e, por isso, foi um estrondo como nunca se viu.
Hinos noturnos tornaram-se cantos nas ruas; lojas fecharam portas e janelas enquanto multidões se aglomeravam nos sinais. Onde havia dúvida, nasceu fanatismo. Em outra praça, homens e mulheres acenderam fogueiras e queimaram o que julgavam herege: livros, telefones, cartazes com a bola. Saques se encaixaram no mesmo compasso. Incêndios lambiam bairros inteiros; as chamas transformaram vitrines em mosaicos de cinzas.
Cresceram então cultos novos e improvisados: templos de papelão com promessas, sacerdotes de WhatsApp que distribuíam rituais em áudios, cápsulas de fé prontas para streaming.
Alguns cultos ainda adoravam a esfera, outros a temiam como abre-alas do juízo final. Muitos esperavam que a esfera voltasse, numa ressurreição redentora.
Seis meses, depois, seis dias — a cronologia perdeu sentido quando o mundo se entortou de medo.
O curioso era que ninguém conseguia explicar por que a esfera não reagiu. Ela apenas existia, imóvel e absoluta, como uma negação silenciosa.
A mídia, faminta por explicação, fez semanas seguidas de debates. Especialistas em física, teologia, psicologia, logística e economia falaram até ficarem roucos. Teorias proliferaram: efeito placebo global, tecnologia alienígena, sinal de outra dimensão, arma de controle social do governo. Nada se comprovou. A esfera não forneceu dado algum. Sua indiferença era ofensa e consolo.
Veio a festa global, uma necessidade humana de transformar medo em riso. As cidades organizaram vigílias que confundiam preces com DJs; pessoas dançaram em praças à sombra do objeto de ossos negros. Era como se, ao mesmo tempo em que construíam altares, precisassem demonstrar que ainda podiam sorrir. A festa foi estranha: lágrimas de um lado, confetes do outro. Ao amanhecer, alguém notou — por ninguém notado antes — que a esfera talvez nunca mais voltasse.
Havia quem ainda guardasse fragmentos em potes de vidro, memorabilia da esfera, coleções amadoras de redenção; havia quem, em lojas humildes, vendesse “pó de esfera” como amuleto de sorte. Gatilhos de curiosidade e escassez encheram gavetas: o que era mais valioso, a explicação ou a lembrança?
Então, sem anúncio, sem espetáculo, o interesse pela esfera cessou. Jack Harland agora âncora do jornal da noite, lia notícias modorrentas sobre o mercado financeiro, inflação, novas guerras estourando no Oriente e brigas entre os conservadores e democratas.
O mundo, privado de seu enigma, desabou por um instante. Sem o foco do mistério, as tensões que ela havia amplificado retornaram às suas linhas habituais. Saques transformaram-se em limpeza; incêndios em reconstrução; templos de papelão em terrenos vagos. Novos líderes emergiram, promessas foram reaprendidas, os fanáticos se dispersaram em pequenos grupos, prontos a virar assunto de programas dominicais.
A mídia, voraz e impaciente, desviou seu interesse. O ciclo de notícias exigia novo estímulo: reality shows que reavivavam vinganças, celebridades que trocavam opiniões por audiência, guerras que retomavam as manchetes com seus velhos rituais. O casal famoso que se separou, o novo disco da cantora do momento…
A moda das bolinhas pretas morreu com a pressa de se vestir de novo. A Vogue sacramentou: Bolas estavam démodé.
As lojas que ganharam dinheiro com itens da esfera vendiam outras novidades, e a mania virou lembrança efêmera — um acessório esquecido na gaveta da cidade. A bola passava a uma mera curiosidade, uma sombra de um tempo estranho, como a pandemia.
As maiores tragédias, contudo, não se desfizeram tão rápido. Vidas interrompidas, bairros queimados, famílias despedaçadas permaneceram por algum tempo.
Mas a capacidade humana de retomar a rotina era maior do que o que havia acontecido em algumas semanas. As cidades se consertaram aos poucos. As noites voltaram ao ruído comum: buzinas, risos, discussões de bar, programas de auditório.
E, num desses retornos, a esfera reapareceu — não em forma de mistério, mas na pequena escala de um traço infantil.
Uma criança, sentada num banco de escola, riscou com caneta no caderno uma circunferência escura. Era torta, imperfeita, e, ainda assim, intensa. A professora pediu silêncio e atenção ao dever no quadro.
O mundo continuou a mover-se, reencontrando suas pequenas misérias e alegrias.
E ao fechar-se o círculo — a esfera que se formou, brilhou e sumiu — restou a imagem simples e irônica: um desenho de uma bolinha preta numa página qualquer, feita por mãos que ainda não conheciam a dimensão do que chamam vazio.
FIM

5 Comentários
Perfeito.
Mais uma obra prima.
Valeu!
A história ficou muito boa! Obrigado, Philipe, e até a próxima.
Obrigado hehehehe
conto muito bom, a não resposta também é uma resposta.