A esfera preta – Parte 2

A Estrada

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O Pontiac velho de André guinava pela I-94, a interestadual que cortava os subúrbios de Evanston como uma veia cinzenta sob o céu nublado de Illinois.
O carro rangia a 140 km/h, motor tossindo como um fumante crônico. O velocímetro tremia no vermelho, o asfalto quente pelo sol surgia borrado com os  outdoors desbotados na beira da estrada: “Chicago Cubs — Win or Die”.

André não tirava os olhos da bola.  Dois metros e meio de distância exata, lisa e negra, flutuando sem esforço contra as curvas da estrada. Não batia no vidro, não rolava com as freadas. Apenas seguia, silenciosa, enquanto André gritava para o para-brisa: “Sai! Sai daí, porra!”.
Ele girou o volante num pânico cego, quase colidindo com um SUV prateado. Buzinas explodiram ao redor, um caminhão de entrega da FEDEX desviou dele por um triz.

O retrovisor piscou azul. A viatura policial, com sua irritante sirene, vinha uivando como um animal ferido no vácuo do Pontiac.

“Merda, merda”.

André pisou no acelerador, o carro ia protestando com cheiro de borracha queimada. A esfera permaneceu imóvel, atrapalhando a ver o policial no reflexo do retrovisor. A viatura grudou na traseira, e ele ouviu o alto-falante da polícia ordenar:

— Veículo à frente, encoste no acostamento. Agora!

André hesitou, suor escorrendo nos olhos. A esfera o encarava — ou parecia encarar.
Mais 2 km de loucura se seguiram, com o policial no encalço e berrando ordens de parar. André seguiu desviando caminhões, até o trânsito engrossar na avenida. Já chegava a hora do rush.
Carros parando em fileiras, formaram um engarrafamento súbito perto da saída para Northwestern University.
André jogou o Pontiac no acostamento de cascalho, pneus chiando, o carro finalmente entregava os pontos como se morresse num suspiro.

 

A esfera deslizou pelo ar, ainda pairando na altura do teto do carro, bem atrás do veículo, dois metros e meio de André, que agora tremia no banco do motorista. Suas mãos apertaram com força o volante.
E ele ouviu a porta da viatura bater.
O policial desceu do carro. Era um homem alto, negro, com ombros largos sob o uniforme azul-escuro e um bigode proeminente. Ele devia ter quase cinquenta anos de idade. No cinto carregava algemas e spray.
No uniforme a plaqueta brilhava: Evanston PD. Do outro lado do colete tático, o nome do policial vinha bordado em fios prateados: “Evans”, numa estranha coincidência.
Ele se aproximou devagar, mão no coldre, olhos varrendo o Pontiac.  A aquela altura, já tinha passado por rádio os dados do carro para a central.
Os outros carros passavam devagar no acostamento, motoristas esticando o pescoço, alguns tinham celulares erguidos, filmando.

O policial passou andando, parou diante da bola, olhou para o carro, para a bola e de novo para o carro. Depois andou até perto da porta.

— Senhor, licença e registro.

André meteu a mão no bolso, já temendo ter esquecido a carteira, mas estava lá. Ele tirou a licença e estendeu para fora do carro, sem dar um pio.

— O que diabos o senhor acha que está fazendo a 90 milhas por hora?

Evans tinha uma voz grave que lembrava a voz autoritária do Darth Vader, com sotaque do Meio-Oeste.

André abriu a boca, mas as palavras travaram.

— Oficial… tem uma… uma esfera. Preta. Me segue desde… desde o… Não é minha!

O policial franziu a testa, olhando para a esfera pairando ali, imóvel no ar úmido.

— Tem licença pra operar drone na interestadual, senhor?

— Não! Não é drone! Eu não sei o que é… Juro por Deus!

— Senhor, desligue o drone.

— Eu não controlo isso! Ela me segue sozinha!

— Eu mandei desligar seu drone, senhor.

— Eu… Olha, eu vou falar de novo. Não é drone, não é meu, eu não consigo…

— Sai do veículo. Mãos onde eu veja.

André obedeceu devagar, pernas bambas no cascalho. Ao pisar fora, a esfera se moveu.  Ssuave, precisa, mantendo os dois metros e meio dele.

Evans recuou um passo, olhos arregalados. Sacou a Glock num movimento treinado, apontando para a esfera.

— Afaste seu drone! Agora! Mãos na cabeça!

— Ai caralho… Não é meu! Olha, ela me segue! Eu juro e…

André gesticulava frenético, sua voz quase quebrando em soluços. Mas o polical não estava num bom dia:

— Mãos no capô! Agora! —  O berro ecoou pela estrada. Os carros ao lado, quase parados, eram um círculo de rostos boquiabertos nas janelas: uma mãe tapando os olhos da criança, um executivo de terno filmando.

O policial Evans avançou, algemando André com violência contra o metal quente do capô. André gemeu com a cara na chapa do Pontiac.

— Fica quieto.

Evans agora tinha seus olhos grudados na esfera, fascínio misturado ao dever. Pelo rádio ele falou:

— Central, aqui é o 14-Adam. Suspeito com drone não identificado na I-94, km 22. Requisitando backup urgente…

Evans se certificou de abrir as pernas de André e apalpou seu corpo.

— Está armado? Tem armas no veículo?

— Não senh*

— Fique aí. Não se mova. — O oficial o interrompeu.

Depois, Evans se virou para abola, que estava parada na altura do teto do carro, no meio do veículo, bem no meio da porta traseira. Exatamente a mesma distância de sempre de André.

Evans se aproximou dela, devagar, como quem testa águas profundas.  OLhou para o lado e nos carros, as pessoas estravam intrigadas. Começaram as buzinas lá atrás e Evans fez sinal em silêncio para que os carros prosseguissem, mas alguns fingiram não ver.

Impressionado, quase que hipnotiozado, ele se aproximou da bola e estendeu a mão. Seus dedos grossos se aproximaram da superfície lisa, perfeita.
André levantou a cabeça e olhou para o policial.

Um estalo. Houve um silêncio por um microssegundo. Então, explosão. O corpo do policial estourou em fragmentos vermelhos  numa nuvem de detritos que encheu o ar:  ossos, carne, sangue  tudo foi vaporizado, espalhando-se pelo asfalto como tinta.
Gotas quentes salpicaram o rosto de André, que gritou, horrorizado, vendo o vazio onde o Evans estava um segundo antes: Agora ali estava apenas ma mancha irregular de sangue e vísceras fumegantes.

Então veio a gritaria. Todo mundo que testemunhou aquele macabro espetáculo parecia estar gritando.
André deu dois passos para trás. A esfera seguiu, sempre a dois metros e meio.

O caos irrompeu. Um caminhoneiro fortão desceu da cabine com pé de cabra enferrujado, e veio correndo na direção de André:

— Fica aí, seu filho da puta!

Outros motoristas saíram: um casal de meia-idade, uma idosa de óculos que vomitou na beira da estrada uma bile amarela misturando-se à poça de sangue.

O executivo engomado com uma gravata ridícula tentava explicar a um indiano:

–Ele explodiu o cara! Explodiu, assim, boom!

— Que drone é esse? — Uma mulher em choque perguntava insistentemente.
André não conseguia responder, apenas negava com a cabeça a autoria do crime, repetindo “não é minha” mas o turbilhão de vozes sobrepondo-se formaram um zumbido insano.
Logo, a confusão ganhou outro ingrediente, quando chegaram as sirenes ao longe.

Duas motos policiais cortavam o trânsito, com suas luzes piscando.

Os agentes desmontaram. Tinham as faces pálidas ao verem a mancha. As pessoas gritavam e gesticulavam todos ao mesmo tempo, e os oficiais as afastaram empurrando.
Eles então ficaram diante da poça e dos fragmentos de roupa pelo chão.

— Jesus Cristo, o que rolou aqui?

Os motoristas ainda gritavam explicações que pareciam loucura:

— O drone explodiu o oficial!

Os dois policiais rodoviários viraram na direção de André, que ainda estava ao lado do capô, algemado com as mãos nas costas.

Alguém berrou na multidão entre as buzinas e o falatório: “O maluco ali mandou!”.

Os policiais vieram na direção de André, que estava sentindo na boca o gosto de sangue e aos prantos. Um deles sacou a arma e apontou para a esfera.

— Desligue essa porra agora!

— Não é meu! Eu já disse pro outro… Cuidado! Cuidado! Ela explode quem toca! Me ajuda, por favor!

Os policiais olharam a bola, disseram que ele estava preso e começaram a ler os direitos dele.

— …Tem o direito de permanecer calado…”

O oficial S. Miranda estava com a mão no ombro de André, enquanto apalpava seu corpo em busca de armas. O outro, com arma em punho, ignorando as lágrimas, repetiu:

— Desligue o drone, ou eu atiro.

André desabou no cascalho, o mundo girando em choque. A esfera pairava, negra e paciente perto dele. Achou que ia desmaiar.

CONTINUA