A esfera preta – Parte 3

A mídia

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O apresentador engomado com seu terno e cabelos impecáveis surgiu sorrindo seus dentes imaculadamente brancos no video:

— Boa tarde, América. Aqui é o Notícias das Três com Jack Harlan. Fiquem conosco para as últimas atualizações sobre o caos na I-94. E já temos um link ao vivo para o centro de Evanston. Karen, o que temos por aí?

A tela do estúdio em Chicago piscou, cortando para uma repórter loira enfiada em um casaco grosso de lã cinza, microfone em punho diante da delegacia de Evanston PD. Atrás dela, o prédio de tijolos marrons fervilhava: viaturas cruzando o estacionamento, fitas amarelas serpenteando postes, uma multidão de curiosos se aglomerando na calçada úmida coberta com uma camada de chuva fina. O ar da tarde cheirava a asfalto molhado e café no isopor. Na aglomeração, celulares erguidos como antenas famintas.

— Boa tarde Jack. Estamos ao vivo da Delegacia Central de Evanston. Jack, o que era pra ser uma abordagem de rotina virou tragédia esta manhã. Um homem dirigindo um Pontiac azul, identificado como André Silva, um imigrante brasileiro, foi detido após matar um oficial da polícia rodoviária com seu drone militar não autorizado. Testemunhas dizem que o drone, uma esfera preta flutuante, explodiu o agente rodoviário. O trânsito parou por horas na saída para Northwestern University causando um gigantesco engarrafamento e transtornos que estão sendo sentidos até agora nos acessos ao centro de Evanstown.”

Jack entrou no ar novamente quando a luz da câmera cinco se acendeu:

— Como é? Ele explodiu o policial? Você disse explodiu, Karen? Eu ouvi bem?

A luz da câmera cinco apagou e Jack viu Karen pressionando o headphone com os dedos na tela de retorno. Ela movia a cabeça afirmativamente, com um leve delay no link ao vivo.

— Exatamente, Jack. O imigrante brasileiro, que talvez seja um imigrante ilegal, estava portando um drone militar não autorizado, que agiu de maneira agressiva e explodiu o policial Evans Tompson. Testemunhas do incidente, que está sendo qualificado como uma ação terrorista, viveram momentos de terror. Estou aqui com um deles que pode dar seu depoimento…

A câmera girou para Elvis Davis Jr., o caminhoneiro. Ele estufou o peito e esticou a coluna, para aparecer bem no vídeo. Atrás dele, as pessoas se acotovelavam numa massa disforme de braços e cabeças querendo aparecer na reportagem do GBC Channel.
Elvis tinha uma camisa xadrez suja de graxa. Barba espessa, olhos avermelhados e portava consigo o pé de cabra ainda na mão como troféu. Quando o microfone se aproximou, ele começou a falar. Suas primeiras palavras não foram captadas em meio ao ruído, mas então ele enfiou a boca mais perto da espuma.

— …Vi tudo, sim senhora! O maluco tava voando baixo com aquela bola preta atrás do carro, tipo arma de filme! Quando passou pelo meu caminhão, eu olhei e me perguntei: Mas que diabos é aquilo?  Era uma bola preta, voando! Então, eu notei que tinha algo errado e comecei a perseguir o carro, que começou a fugir de mim. Nisso, apareceu o carro da polícia e eu dei passagem.
O policial estava a toda, mas o rapaz corria muito. O Pontiac tem um motor… E… sim, sim, então é como eu disse, aí o trânsito na saída A estava parado e aí ele foi forçado a encostar. Eu fiquei parado, só vendo pelo espelho, Era uma bola preta grande, maior que uma bola de boliche, e ela estava voando! Eu vi quando o policial explodiu! Foi assim mesmo, ó… Boom! E voou sangue pra todo lado,  Nessa hora eu disse pra mim mesmo “Elvis, é agora ou nunca, rapaz! Esse é seu momento de brilhar”, e então eu peguei o Joe, meu melhor amigo ( ele mostrou para a câmera o pé de cabra) e eu pulei da cabine. Enfrentei o cara corpo a corpo, segurei ele pelo colarinho. E sabe o que ele fez? Mandou aquela bola maldita pra cima de mim!  Ele queria fugir, mas eu disse a ele: Meu irmão, esquece! Você vai pagar pelo seu crime!  Ele gritava ‘não é meu!’, mas eu não caí nessa. Tava na cara que era dele, sabe como é que é? Esses chicanos são mentirosos, senhor. Não dá pra confiar no que eles dizem! Eu usei o pé de cabra pra imobilizar até os tiras chegarem. Herói? Dizem que sou herói! Sou apenas um americano que fez a sua parte! Nah, só fiz o que qualquer americano faria.”

A multidão atrás ria, ouvia-se assovios e aplausos esparsos. A multidão era um mar de rostos: mães com carrinhos, adolescentes com TikToks rolando, um vendedor de cachorro-quente logo na esquina faturava com sua banca improvisada.

“Drone assassino!”, gritou alguém. “Amaldiçoado!”, ecoou outro. Karen Burstein assentiu, séria, puxando o microfone para si e voltando-se para a câmera:

— Elvis, você salvou vidas hoje. Jack, trago mais detalhes após os comerciais!

Quando a tela do monitor começou a exibir os comerciais, Jack Harlan, sentado com sua gravata vermelha impecável, rosto bronzeado do final de semana no lago, inclinou-se na cadeira. Diante dele os produtores andavam pra lá e pra cá com pranchetas e anotações. Jack lançopu um olhar para um jovem de bigodinho que consultava dados num painel.
O rapaz levantou os olhos e fez sinal positivo com o polegar.

— Audiência subindo para máxima histórica, senhor Jack!

— Ah, garoto! Vamos chutar essas bundas! Esse drone é meu passaporte para ancorar o jornal da noite!

O estúdio zumbia baixo. Dolores,  a maquiadora com sotaque cubano, ajeitava o cabelo grisalho de Jack com um pincel macio.

— E então, Dolores, o que acha desse drone? Drone high-tech ou o quê?”

Dolores era gordinha e de pouca estatura, sem nem olhar nos olhos de Jack, ainda focada no pó compacto, riu, com seus castanhos dançando pela paleta.

— Jack, na minha terra, isso é santería pura! Alguém fez magia contra ele. Foi amaldiçoado, sabe? Irrite um cigano, ou uma babalaô, e pronto: A bola preta da morte te segue até o fim do mundo. Acontece.

Jack pareceu desconfortável. Ajeitou o nó da gravata enquanto via a contagem regressiva piscar no painel.

— Vocês acreditam nisso mesmo Dolores?

— Não, jack. A gente sabe! Acreditar é quando você não sabe, querido! — Ela falou ja dando as costas e pulando da bancada. O auxiliar de produção, magrelo com fone de ouvido, ergueu três dedos: contagem regressiva. “Três… dois… um.”

Quando os holofotes intensficaram e a câmera cinco voltou a acender, Jack estava impassível olhando para ela.

— Estamos de volta ao Notícias das Três. Os telefones não param aqui no estúdio com teorias sobre o ‘drone assassino’ de Evanston.  Drones fora de controle, folks!  Atentado terrorista? O Brasil está contra nós? O que é isso? Um policial morto! Pessoas traumatizadas e agora uma família para o qual um pai não vai voltar pra casa hoje! Passou da hora do governo botar rédea nisso! Agora todo psicopata tem um drone chinês ou iraniano na garagem! Regulamentação já! Vamos voltar a saber mais informações sobre o atentado terrorista aqui na nossa cidade. Ao vivo, da central de polícia, com você, Karen Burstein!

Karen voltou a surgir na tela olhando fixa como uma estátua para a câmera. Então ea deu um salto e começou a falar rapidamente:

— Nossas pesquisas internas apontam hipóteses quentes: arma secreta chinesa testada em solo americano? O Brasil está envolvido? OU seria uma ação de um Lobo Solitário? As pessoas da cidade estão divididas…

A cena cortou  para a rua. A multidão crescera: antes eram 50, mas agora talvez 100 pessoas formavam um paredão na beira da faixa de isolamento na calçada.  Era um zumbido de fofocas e flashes de celular.  Mais e mais vans de outras emissoras estavam chegando.
Fitas policiais agora já isolavam o quarteirão, e em meio à confusão de falatório, ouvia-se sirenes distantes, prometendo mais caos. Caminhões de TV de Chicago estacionavam, cabos serpenteando calçadas. Repórteres da CNN e Fox plantavam microfones na multidão. Elvis Davis Jr. posava para selfies, cm seu  pé de cabra erguido: “Eu domei o bicho!”.

A idosa que vomitou já tinha virado uma lenda local: “Eu vi o sangue voar como ketchup!” ela repetia para gtrupinhos atentos.
Ao lado da multidão que se engalfinhava diante da central, um grupo de religiosos entoava hinos, trazendo cartazes “Deus vs. Drone”.
Vendedores ambulantes já lucravam com doces pretos chamados de “Esfera Killer” em copos plásticos.

Lá no estúdio da GBC, Jack Harlan sorria para as câmeras, mas seus olhos travados no monitor de apoio demonstravam o frenesi: O intervalo tinha sido um caos. Telefones tocavam sem parar: Havia ufólogos ligando de Nevada, físicos quânticos de MIT twittando portais dimensionais, pastores citando Apocalipse.

A esfera estava virando um ícone: Pipocavam memes no Twitter, #DroneKiller trending, Photoshop com aliens e demônios. E havia pelo menos dois videos de celular mostrando o policial explodindo numa nuvem vermelha, mas estavam em baixa resolução e muito longe para se ver detalhes. A equipe de produção estava tentando um Upscale para exibir no jornal noturno.

A voz do apresentador surgiu em Off:

— Karen, novidades?

A câmera girou 180 graus e Karen apareceu pela lateral segurando o fone no ouvido esquerdo.

— Jack, sim. Um homem se identificando como advogado de André Silva, o ‘psicopata do drone, ‘ acabou de entrar na delegacia. E o número de curiosos está explodindo: estão chegando famílias inteiras, repórteres locais, já vimos até um pastor com cartaz ‘Expulse o Demônio’. A polícia municipal está montando  barreiras para controlar o trânsito na Dempster Street e…

Uma pessoa fora do enquadramento entregou um papel dobrado para Karen.

— Acabei de receber isso… — Ela disse, lendo o papel ao vivo.  — “O delegado Robert Kline dará coletiva às 19h30. Detalhes sobre o incidente e status do suspeito.” Saberemos mais em breve, Jack! Eu sou Karen Burstein, diretamnete da Central de Polícia de Evanstown, para o Noticiário das três.

O operador de mesa na sala da edição puxou uma manete e a figura de Jack Harlan surgiu magicamente sobre a cena da multidão no centro da cidade.

— Obrigado Karen! Aqui no estúdio, as linhas estão queimando com relatos: ‘Vi o Pontiac azul com a esfera preta voando atrás na I-94!’ Mas o que eu gostaria de pergutar é: Do que se trata esse drone? Entidade divina, punição bíblica por pecados modernos? Será um objeto extraterrestre, tipo Roswell 2.0? Ou fenômeno quântico, daqueles que físicos malucos adoram? O sobrenatural diabólico não está fora da mesa. Fontes ligadas à santería cubana sugerem rituais de vingança! Fiquem ligados. Tudo pode acontecer! Saberemos mais detalhes das autoridades logo mais na coletiva. E não mude de canal, sabe por que? Porque agora Jack tem aquele anúncio sobre cultura que você estava esperando: Vamos falar da exposição de vasos de terracota na Galeria Joseph Jacobs, que abre amanhã…

CONTINUA