A esfera preta – Parte 5

Arautos da Esfera

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Silas Crowe voltou do barracão nos fundos da fazenda. Passou pela sala onde repousavam, em silêncio, as velhas fotografias de sua família em porta-retratos antiquados.
Ali estavam os três filhos, Anna, sua mulher e ele. Um Silas muito diferente. Eram fotos de um tempo de felicidade de que ele costumava se lembrar na cama, sozinho, logo após suas orações, antes de dormir. Normalmente, antes de se deitar, Silas tinha um ritual. Ia até a janela do segundo andar da casa e olhava para o nordeste. Diante da vasta plantação de milho, ali estavam elas, as quatro cruzes. Uma família inteira morta no incêndio que o desfigurou, mas não o matou. Fez pior: O fogo o deixou vivo para sofrer por eles, sentindo a profunda falta que faziam.

Silas saía da janela, removia as roupas e vestia uma ceroula rápido, para evitar olhar sua própria imagem abominável no espelho. Deitava-se com pressa para dormir logo.  A noite era boa quando seus fantasmas internos permitiam.

O incêndio de 1997 tinha levado tudo: a mulher, os três filhos, o cheiro de pão fresco pela manhã e o rosto do homem que ele fora um dia. O que restara era uma máscara de carne derretida, pálpebras repuxadas para trás num esgar permanente, lábios torcidos que mal conseguiam conter a saliva. As cicatrizes brilhavam como cera derretida sob a luz fraca da lâmpada da sala. Ele era o monstro que as crianças apontavam de longe, o fantasma que os mais velhos evitavam mencionar.
Ele veio do barracão e entrou na cozinha. Sobre a mesa repousavam algumas contas e revistas antigas.

Silas pegou um copo de água. Foi até a sala e ligou a TV. Estava quase a hora do jornal das oito e meia da GBC.
O jornal falava sobre o placar da rodada da liga de beisebol. Ele estava ouvindo da cozinha enquanto abria o frasco com cuidado. Antes de pegar a colher e encher com o pó cinzento, deu uma boa olhada na caveirinha engraçada que sorria pra ele do rótulo.
Silas se perguntou por que diabos os fabricantes colocam caveirinhas tão amistosas em substâncias que podem matar. A caveirinha parecia sorrir. Seu nariz era apenas dois tracinhos, e isso lembrava um pouco o nariz dele mesmo, isto é, os buracos enfiados na cara repuxada que ele tinha, de onde dentes pareciam surgir de maneira aleatória. Silas sorriria de volta para a caveira do vidro de veneno se pudesse.

Ele pegou a colher e misturou o pó na água. O pó no copo formou um montinho que ficou boiando como uma pequena ilha giratória na superfície da água.
Muito lentamente, a ilha foi se desfazendo enquanto fragmentos dela desciam para o fundo.
Enquanto o veneno ia se encharcando de água, ele passou ao caderno. Pegou a caneta e pacientemente, escreveu sua carta de despedida. Deixaria a fazenda para a igreja local, onde se casou com Anna nos anos 70 e batizou seus três filhos.
Terminada a carta, o copo agora era um caldo leitoso acinzentado.

Silas passou a abrir uma caixa de sapatos, de onde tirou a arma enrolada numa flanela. Pegou a caixinha de balas e colocou três delas no tambor do revólver. Sua mão tremia um pouco.
Ao fundo, a tv em alto volume, como sempre, tratava do noticiário. Chegara a hora.

Era pegar o copo, beber tudo de uma só vez e então esperar um ou dois minutos. Quando os primeiros efeitos viessem, ele pegaria a arma, encaixaria na boca e puxaria o gatilho. Estava decidido.
Então, passou ao último passo. Abriu a sacola de mercado que havia perto das revistas e tirou uma grande barra de chocolate suíço. O chocolate era lindo e muito bem embalado. Ele teve dificuldade de conseguir desembrulhar, mas ali estava, brilhando sob  a luz amarelada do lustre mid-century da cozinha. Lindo, como uma joia marrom de intenso quilate. Um pedaço de prazer materializado em perfeição. Se fosse capaz de sentir cheiro, ele certamente aspiraria lentamente o perfume do cacau.

Colocou o pedaço do tablete na língua e esperou que derretesse. Ondas de prazer tomaram seu corpo, vindas das profundezas. Lembrou-se dos filhos. Como eles gostavam de chocolate! Às vezes, ele trazia uns Reezes quando voltava da cidade. As crianças ficavam no alpendre esperando.
Silas Crowe decidiu que era a hora de se juntar aos filhos no céu.

Abriu a boca e colocou mais dois pedaços de chocolate que mastigou bem lentamente, tentando memorizar o momento que antecederia sua partida na casa vazia.
Olhou pela última vez para a cozinha e para o jarro com as flores de plástico empoeiradas.
Pegou o copo e já ia beber quando ouviu na TV a notícia sobre um homem sendo perseguido por uma “Bola parasita”.
Era tão estranho aquele termo que ele pensou que o suicídio talvez pudesse esperar cinco minutos.
Levantou-se da cadeira e foi até a sala.

Ali estava o homem do jornal da tarde, cujo nome ele não sabia. Estava na rua, diante de uma multidão que se aglomerava no centro.  Segundo o jornalista, as novidades eram que não se tratava de um caso terrorista, mas que ainda havia um mistério sobre a esfera parasita. O homem estava falando de um jeito engraçado, como se fosse um narrador de filmes de terror e isso divertiu um pouco Silas.

Samatha Blast, a apresentadora do jornal da noite, entrou ao vivo pelo link e perguntou sobre a tal esfera parasita.
Uma imagem desenhada por um artista mostrava um homem correndo com uma bola preta que parecia uma bola de boliche com o dobro do tamanho, em pleno ar.
Em off, o jornalista falava sobre arma secreta, maldição, objetos extraterrestres e até mesmo fenômenos quânticos.

— Que idiotice! —  Silas gemeu, olhando a Tv.

Mas a coisa ficou estranha quando o homem no link ao vivo disse:

— E talvez a esfera possa ser… um anjo!

— Um anjo? — A apresentadora indagou.

— A esfera parasita está perseguindo esse homem, e não se sabe o motivo, Samantha. E se na verdade essa esfera for uma materialização do anjo da guarda desse rapaz?

— Mas um anjo não devia ter asas e ser… bonito?

— Bem, talvez seja uma representação humana, não sei. Quem sabe se eles podem mudar sua forma? Samantha, tudo o que sabemos sobre a esfera parasita até o momento é que não sabemos praticamente nada!
Eu sou Jack Harland, falando diretamente da coletiva de imprensa no centro de Evanstown para o jornal da noite…

Silas desligou a TV e fez silêncio na casa da fazenda, que erguia-se como uma sentença de morte no fim da estrada de terra vermelha.

Silas sentiu o ar fugir dos pulmões.

Nada era por acaso.

O fogo que lhe roubara a família, a solidão que o corroera por quase trinta anos, a dor que lhe comia os ossos todas as noites — tudo convergia para aquele exato segundo. A esfera não era um demônio. Ele sabia.
Era o olho de Deus voltando a olhar para a Terra. E o homem perseguido, o coitado que corria como um cão chicoteado, era o novo Messias. O ungido de uma era que os homens cegos ainda não compreendiam.

— Cães! — Verociferou.

A revelação havia desabado sobre ele como uma onda poderosa e quente. Silas começou a tremer. As cicatrizes latejavam, como se o fogo tivesse voltado para purificá-lo. Lágrimas escorreram pelos sulcos irregulares de sua face, queimando como ácido. Ele riu, um som rouco e quebrado que ecoou pela casa vazia. Como ninguém mais via? Como o mundo inteiro era tão cego? Com só ele tinha percebido o óbvio?

Mas foi o segundo pensamento, um pensamento inspirado diretamente pelo criador, que o comoveu e o fez cair de joelhos no tapete da sala: Ele era o escolhido! O primeiro a compreender!

O silêncio que se seguiu era sagrado.

Na mente de Silas, uma voz trovejou — não com palavras, mas com presença. Imensa. Antiga. Inevitável.

Aceitas-Me?

A voz da Esfera.

Silas caiu de joelhos diante da tela escura, as mãos deformadas erguidas como quem recebe a hóstia sagrada.

— Sim mestre! — sussurrou. — Eu aceito!

A voz voltou, mais profunda, fazendo vibrar até os dentes dele:

Prove.

Ele se levantou como um autômato. Caminhou até a cozinha escura, guiado por uma luz que só ele via. Sobre a mesa manchada, o copo de água que ele preparara com o veneno de rato. O líquido cinzento leitoso brilhava fracamente sob a luz amarelada. O cheiro era repulsivo.

Silas ergueu o copo. O gosto explodiu em sua boca — amargo, químico, podre.

Ele bebeu tudo em dois grandes goles, e sentiu o veneno descendo como fogo líquido pela garganta. Parte do líquido escorreu pelo queixo derretido, pingando na camisa suja.

A voz retumbou uma última vez dentro do crânio dele, enchendo cada canto escuro de sua alma:

Renascerás sob o signo da Esfera e edificarás a Minha igreja. A primeira e única, a verdadeira. Espalharás a boa nova. Estou de volta. Vinde a Mim todos os arautos da verdade.

O mundo girou. Silas tombou como uma árvore serrada, a cabeça batendo com força na quina da cadeira. O estalo úmido ecoou. E fez-se a escuridão.

O galo cantou.

Silas abriu os olhos. As pálpebras repuxadas ardiam. O chão de cerâmica fria estava molhado sob sua bochecha. O copo jazia estilhaçado ao lado dele. O gosto amargo ainda revestia sua língua, como se o veneno tivesse criado raízes.

Ele se ergueu devagar, o corpo inteiro protestando. O sol inundava a cozinha de luz alaranjada.  Um vômito violento o dobrou ao meio: uma gosma cinza-amarronzada, espessa e viva, jorrou de sua boca para o chão. Ele cuspiu várias vezes, rindo entre as ânsias.

Vivo.

Ainda vivo. Era o sinal. O milagre!

Seus olhos — selvagens, dilatados — encontraram a carta de despedida sobre a mesa. As palavras patéticas que escrevera na noite anterior pareciam de outro homem. Um homem morto.

Silas soltou uma gargalhada que começou baixa e foi crescendo até preencher a cozinha, um som demente e jubiloso. Pegou a folha, rasgou-a em pedaços furiosos e amassou o que restava numa bolinha. Finalmente,  arremessou contra a parede.

A caneta estava ali. Esperando.

Ele a pegou com dedos que não tremiam mais. Abriu o caderno numa página em branco e, com letra grande, quase febril, escreveu o título que ecoaria pelos séculos vindouros:

OS MANDAMENTOS DOS ARAUTOS DA ESFERA

A primeira luz da manhã entrava pela janela rachada, dourando as cicatrizes de Silas Crowe como se fossem ouro velho. Ele sorriu — um sorriso terrível e belo na sua deformidade — e começou a escrever.

A igreja nascia.

CONTINUA