Evanstown amanheceu coberta por uma neblina espessa. Jack Harland andava pela calçada molhada, vestindo um pesado casaco de couro preto. Tirou a mão do bolso e depositou uma moeda na máquina de jornais. A tampa se abriu e ele pegou um. Novamente a “esfera parasita” era o tema central. A manchete sobressaía com letras garrafais: “Esfera parasita: Dois meses sem respostas”
O jornalista foi até um café na esquina, pediu um duplo com creme. A mocinha sorruiu pra ele:
— Eu… Eu conheço o senhor… Não é…
— Sim. Eu mesmo. Jack Harland.
— Ah, eu sabia! O Homem do jornal das três! Me dá seu autógrafo?
Jack sorriu e assinou uma papeleta. Pegou o café e sentou-se para ler. Já se completavam dois meses do desaparecimento de André, e a cidade ainda não sabia exatamente o que havia acontecido. Harlan olhou para a mesa do lado, onde quatro amigos tomavam cappuccino e debatiam a esfera. Só se falava disso. A esfera parasita era uma febre, alastrando-se rapidamente. E isso, curiosamente, parecia deixar tudo ainda pior.
Jack sabia que pessoas suportam tragédias. Suportam assassinatos. Suportam até guerras, desde que consigam entender onde começa o monstro e onde termina o homem. Mas ninguém suporta um mistério por muito tempo. Ele sabia que mistérios apodrecem dentro da cabeça humana. Criam fungos.
Criam cultos.
Harland olhou pela janela enorme da cafeteria, por debaixo da letra F pintada no vidro. Ele viu os carros passando na avenida principal. Dois homens com bexigas pretas amarradas num arco no cabelo usavam camisetas brancas com uma enorme bola preta pintada. Eles pediam dinheiro aos motoristas para arrecadar fundos.
Um deles entrou na cafeteria com seu indefectível – e ridículo – balãozinho preto de gás hélio amarrado na cabeça. Ele foi de mesa em mesa com uma sacolinha pedindo doações para os Arautos, e em troca, ia oferecendo um livreto com os pensamentos inspirados pela esfera.
— Ajude os arautos — ele falou já olhando para os lados, como se estivesse sendo perseguido. Havia um medo e uma certa urgência naquela voz, e, intrigado, o “homem do jornal das três” meteu a mão no bolso e pegou três notas de um dólar e deu ao rapaz. Quando ele estendeu a mão para pegar o dinheiro, lá estavam as marcas. Os cortes, as cicatrizes.
Logo, uma das funcionárias veio com agilidade por debaixo do balcão e pediu com toda educação de quem já estava farto dos Arautos da esfera e seu assédio:
— Sai, filho da puta! Sai! Vaza!
O rapaz, agarrou o dinheiro, jogou na sacolinha e mesmo sendo empurrado para fora, sem grande resistência, meteu a mão no casaco, e jogou o livreto na mesa.
— Que a esfera esteja com você!
Jack hesitou. Não sabia se devia dizer “amém” ou outra coisa e ficou quieto.
Ele olhou o título: “Os pensamentos da esfera – por PR. Silas Crowe”
Era um livro barato, devia ter 80 páginas ou menos, impresso em papel jornal. Tamanho pocket, capa de cartão laminado leve, branco com a enorme bola preta que era o símbolo deles.
“Devem estar rodando milhões dessa porcaria” — Ele pensou.
Jack acabou seu café, se levantou e saiu com o livreto dos arautos no bolso na direção da emissora.
Logo na esquina, havia agora um novo outdoor onde alguém pintara com spray preto:
ELE TOCOU O VAZIO E SOBREVIVEU, ao lado da enorme bola preta. Ela estava em todos os lugares. Em letras menores, os locais e horários dos cultos.
Algumas pessoas paravam para fotografar. Jack apressou o passo. Mais alguns quarteirões e chegou ao prédio da GBC. Logo na entrada, passou pelo porteiro. Ele estava compenetrado, lendo “Os pensamentos da esfera”. No elevador, três pessoas seguravam seus exemplares daquele livro.
Mike veio falar com ele.
— O Lakers ganhou! Me deve dez pratas, Jack!
— Devo, não nego… — Jack sorriu pendurando o casaco no espaldar da cadeira. Jogou o livreto e o jornal sobre a mesa.
— Até você? Todo mundo tem essa merda, hein?
— Pois é, um cara me vendeu lá no café. O que temos na pauta?
— A pauta do restaurante caiu. Parece que a casa de André virou um santuário. Os malucos da bola estão lá, para desespero dos vizinhos.
— Nossa, faça ideia!
— Eles estão chegando aos milhares lá. O pessoal está na rua, cobrindo. Vai ao ar hoje.
— Certo. Mais o quê, Mike?
— Pauta de costumes. Iolanda vem com a nova moda das bolas pretas. Sucesso em Paris.
— Caralho, não acontece nada que não seja ligado a esfera?
— Você criou esse monstro, Jack. Lide com ele! — Mike estendeu a prancheta para Jack assinar.
Jack foi até a janela. A cidade se espalhava lá em baixo. Em sua mente a frase ecoava: “Você criou esse monstro, Jack.”
Quando a equipe de campo chegou com os videotapes, Jack foi até a edição.
Velas, cartazes, fotografias. Bilhetes escritos à mão: “VOLTE, MESSIAS”, “ELE FOI ESCOLHIDO”, “A ESFERA NOS CHAMA”… As pessoas viajavam quilômetros para tocar o portão enferrujado da casa onde André vivera como um homem comum antes de desaparecer dentro do maior delírio coletivo da década. A rua estava infestada de bolas pretas para todos os lados, pessoas colavam adesivos nos carros que passavam, vendedores ambulantes surgiram na rua. Havia de tudo: camisetas, bonés, canecas. Santinhos com a foto de André e até miniaturas da esfera feitas de isopor pintado.
Crianças tinham balões pretos amarrados nas mãos e até um sujeito gordo vendia algodão-doce preto.
Centenas de pessoas cantavam musicas religiosas sobre a volta da esfera, o olho de Deus.
— Os vizinhos estão loucos. Quem não se converteu teve que se mudar… — Disse Joe, assistindo as imagens enquanto fumava um cigarro.
Jack Harland concordou. — Se te pegarem fumando aqui vai dar merda, italiano!
— Cara, como chegamos tão rápido nessa loucura? Olha ali, aquele cara no canto do video. Fica ligado no que ele vai fazer, Jack.
O homem estava tirado a roupa.
— Ué. Nudismo?
No video, o homem magrelo, já nu, estava cercado de mais outros caras e todos eles o seguraram com o braço estendido numa banqueta improvisada no quintal. Estavam agora com estiletes cortando o braço do homem. Estavam literalmente cortando um desenho em forma de esfera perto dos pulsos. O sangue escorria.
— Santo Deus! — Jack lembrou na hora da cicatriz no pulso do cara estrahnho no café.
— Eles são os convertidos dos arautos, Jack. Se orgulham da dor.
— Isso é loucura, Joe! A chefe não vai deixar isso ir pro ar, cara Ainda mais no das três. Nem fodendo!
— A gente pode botar um desfoque, ué.
— Hummm, sei lá. Tem que aprovar com o velho isso aí, brother.
— A coisa está piorando, está saindo do controle! Você tá percebendo?
— Sim. Tava falando com o Mike agora a pouco…
— O lider dos caras é um pirado. E aquela máscara você viu?
— É um negócio meio Klu Klux Klan, né?
— Total.
— O que me impressiona é esse culto à dor.
No monitor pessoas deitavam no gramado, nuas, a espera de seus cortes. Outras, ja cortadas, esfregavam o sangue nas testas como bolotas vermelhas e se abraçavam.
— Caralho, que doentio! — Jack gemeu. — E esses balões de gás! Que coisa ridícula… Francamente.
— Silas diz que simboliza “a órbita do desconhecido sobre o espírito humano”. Tá no livro dele. Quer ler?
— Já tenho o meu, italiano. Um desses doentes me vendeu por três dólares hoje.
— E você pagou? Eles estão dando de graça no cruzamento da 20 com a rua Kennedy!
A porta se abriu e um homem mais velho entrou: — Que cheiro de fumaça é esse aqui na minha ilha?
Os dois se entreolharam em silêncio.
— Vai unzinho Carl? — Joe Spozzito estendeu o maço.
— Opa! — Ele disse, pegando dois ciarros e guardando um no bolso. — Qual é a boa, meninos?
— Estamos revendo o material da rua. Olha aí os pirados lá. — Disse Joe, mostrando as cenas.
— Ih, rapazes, vocês sabem que esse negócio ali do sangue não vai pro das três.
— Mas e se a gente der uma embaçada? Ou mostramos rapdinho… Um flash: Pá!
— Não, não… Vamos jogar pro jornal da noite. A gente dá uma borrada. Pro das três é pesado. A Lucy come meu fígado se eu aprovar isso aí, Joe. Lembra como ela ficou quando mostramos o garoto mutilado? Mas ó… Bom trabalho!
— Carl, temos que fazer alguma coisa sobre isso! A coisa tá saindo do controle, você não perecebe? — Jack pausou o video apertando o botão na mesa de edição. No monitor a enorme bola sangrenta pintada na testa de um membro nu dos Arautos.
O experiente editor chefe baforou o cigarro em silêncio contemplativo.
— Já tentamos, Jack. Alias, nós causamos isso.
— Nós? Nós, você diz “nós”?
— A imprensa. Tentamos ridicularizar e descredibilizar essa bosta e olha o que deu! Fizemos propaganda para eles. São ímãs de malucos. Estão recolhendo e aglutinando todos os pirados, desajustados, drodados, andarilhos, pilantras e socialmente desvalidos do país. A crença na esfera está dando um horizonte, um sentido pra eles.
Jack Harland se inclinou na cadeira e cruzou os braços — Algo me diz que isso vai dar problema, Carl.
— Ah, mas ele é um gênio mesmo! — Riu o Italiano, saindo da sala. — “Vai dar problema” Já deu! Depois dessa sagacidade preciso mijar, me dá licença!
Carl olhou para a brasa do cigarro fumegando na sala escura. — Nós ja vimos esse filme antes, Jack.
— Jonnestown.
O chefe de edição não respondeu. BAixou os olhos. E então, os dois ficaram em silêncio.
O jornal das três foi ao ar naquele dia sem mostrar os membros dos Arautos da Esfera se cortando.
A GBC focou no aspcto lúdico com os membros usando balões pretos de festa amarrados nas cabeças. A materia mostrou as passeatas dos Arautos da Esfera: centenas deles caminhavam pela cidade usando túnicas brancas improvisadas, quase sempre lençóis baratos com buracos mal cortados para os olhos. Na altura da testa, havia um círculo negro pintado à mão.
Diante da massa de pessoas que pareciam estar fantasiadas de fantasmas, surgiu num palco Silas Crowe. Ele usava uma versão mais elaborada: um capuz feito de fronha de travesseiro engomada, pontudo, com a esfera negra desenhada bem no centro da testa. Parecia um cruzamento entre um profeta bíblico e um paciente psiquiátrico que escapara de um sanatório.
Jack Harland apresentou o jornal e após o trabalho, sentou-se à mesa. Olhou o livreto com a bola preta na capa e pensou no líder da seita. Havia algo em Silas que o perturbava.
Talvez fosse a voz calma.
Talvez os olhos escuros ocultos atras da máscara e as perguntas que isso gerava: Por que a máscara? Quem era ele? Seria alguém conhecido?
Talvez o fato de parecer acreditar em cada palavra absurda que dizia.
Nada é mais perigoso do que um homem absolutamente convencido da própria loucura.
Muito longe dali, na fazenda, os últimos raios do sol davam lugar a mais uma noite fria. Pessoas com seus trajes cerimonais, macacões de bola e até um ou outro completamente nus, andavam de um lado para o outro.
A fazenda de Crowe transformara-se no quartel-general dos Arautos. Barracas surgiam no terreno, como fungos depois da chuva.
Carros de todo tipo estacionavam quilômetros pela estrada. O milharal tinha dado lugar a um enorme acampamento onde barracas improvisadas com lonas de caminhão eram abrigo daquelas pessoas. E a cada hora mais e mais chegavam, vindo de toda parte, alguns em caminhões, vans, trailers e até em charretes improvisadas.
Famílias inteiras chegavam trazendo comida, geradores, colchões e animais. Sopa e pão eram servidos por um time enorme de apoiadores.
A seita crescia numa velocidade impossível. Toda noite, milhares se reuniam diante do celeiro principal a espera do lider. A multiudçao esperava ansiosa e quando Crowe surgia iluminado por tochas e pregava para as pessoas usando um carro de som eles iam ao delírio.
Os seguidores erguiam os braços em atitudes quase militares. Muitos vestidos de macacões brancos com bolas pretas. Outros portando velas e tochas.
Balões pretos sobre suas cabeças balançavam ao vento como um campo de antenas humanas procurando sinal do fim do mundo.
Crowe surgia dramaticamente, entre duas tochas, numa entrada triunfal vindo do celeiro. Ele então ia até a frente do microfone, levantava uma espada e saudava a multidão.
Então os balões eram soltos e enchiam o céu.
— André atravessou a carne! — gritava Crowe. A multidão berrava um som ininteligível que soava como “Brup!”
— André viu o outro lado!
— BRUUP! — A massa berrava. O som era tão alto que lembrava um teremoto. As barracas e pessoas de branco se perdiam numa massa que sumia ao longe.
— O outro lado! — Ele berrava no microfone, a voz esquisita ficava ainda mais estranha sob a máscara. A multidão respondia:
— O OUTRO LADO!
— O governo o esconde porque teme a verdade!
— A VERDADE!
— A esfera é o ovo do novo homem!
— DO NOVO HOMEM!
Havia pessoas chorando. Pessoas desmaiando. Naquela noite, pessoas caíam se debatendo no chão.
Um rapaz arrancou o próprio dente com um alicate diante da multidão e declarou que oferecia “a dor física ao vazio primordial”.
Todos aplaudiram.
Empolgado, um jovem rapaz subiu ao palco. Estava nu, e com uma faca afiada, ofereceu seu sacrificio e se imolando à esfera, cortou a própria garganta.
O sangue desceu como uma cachoeira rubra sob o peito dele e ele sorriu quando a multidão berrou “Bruuuuup”. Então, tomado pela fraqueza, revirou os olhos e caiu.
Dois auxiliares foram até o corpo e fotografaram com uma polaroid. Depois, levantam seu corpo molenga e pálido.
Crowe o abraçou como um santo. Os Arautos chamaram aquilo de martírio e a multidão aplaudiu profusamente.
Seu retrato foi pendurado na entrada da fazenda, junto com outros que haviam morrido.
“OS MÁRTIRES DA ESFERA”
Com o tempo, de um homem recluso a uma celebridade misteriosa, sua máscara produziu medo e fascínio. Silas Crowe começou a aceitar cada vez mais as entrevistas.
Os programas de televisão adoravam convidá-lo porque ele dava audiência.
Era eloquente, teatral. E sobretudo: era perigoso.
— O senhor está criando um culto? — perguntou uma jornalista.
Crowe ficou impassível. A Câmera se aproximou enchendo a tela com o mascarado. Seu riso rouco ecoou no estudio:
— Culto é o nome que o medo dá à fé dos outros.
A frase viralizou.
Camisetas com ela começaram a ser vendidas no dia seguinte. Enquanto isso, André seguia desaparecido.
Seu rosto sumira das reportagens. Seu nome passara a ser tratado como material sigiloso.
Os jornais falavam agora em: “O PORTADOR”, “O EVENTO”, “O INDIVÍDUO-ALFA”
Como se André tivesse deixado de ser humano e virado um mero problema matemático.
Na prática, era exatamente isso que acontecera.
CONTINUA

3 Comentários
A história segue mais e mais interessante. Parabéns, Philipe. Até a parte sete.
Curioso para saber o que aconteceu com André. Esse culto está espetacular.
” A esfera é o ovo do novo homem!”
muito bom kkkkkkkkkkkkk