A esfera preta – Parte 7

A explosão

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A cidade entrou em colapso numa terça-feira. Começou com um boato.

Diziam que o governo transportaria André de helicóptero naquela noite. Os noticiários já haviam esgotado o suposto  suicídio do chefe de polícia e seu staff: Um atropelado, um engasgado e outros dois policiais morreram trocando tiros numa missão, sem prender ninguém.

O mistério sobre o desaparecimento de André e da bola se estendeu por mais de um mês, com os agentes federais fazendo todo o possível para bloquear as informações da imprensa.

Quando todos se deram conta de que André havia sido sequestrado de dentro da delegacia, foi uma comoção.  Jack Harland sabia o que havia acontecido, mas quando a fita com os registros desapareceu lá de dentro da emissora, ele começou a se preocupar mais com sua condição de vivo do que com sua promoção a âncora do jornal da noite. Ele havia desistido de usar o celular porque estava certo de que os federais, ou seja lá quem mais, estavam monitorando tudo.

Mas em algum momento, a coisa estourou para o grande público. Ninguém sabia sobre os homens de preto daquela noite, além dele, Joe, Mike, Carl e a megera da Lucy.   Como a diretora de programação tinha sofrido uma — estranha, talvez até oportuna — crise nervosa, e estava de afastamento médico por 30 dias, Jack só podia especular que o desaparecimento do videotape nas dependências da GBC talvez envolvesse algum tipo de ameaça ou aperto.

Não havia muito tempo para pensar no que levaria uma pessoa fria e grossa, com nervos de aço que deixariam James Bond chorando em posição fetal, a ter uma crise daquelas do nada. A mulher era uma veterana, uma estrela do jornalismo, estivera à frente de diversas operações sob alta tensão, como os conflitos do Cáucaso, Kosovo, guerra do Golfo, invasão do Iraque e 11 de Setembro.

Aquela mulher, antes de virar executiva da emissora, cobriu pessoalmente terremotos, tufões e as mais violentas fúrias da natureza. A morte era uma velha companheira de Lucy Mansfield.
Pra ela sair fora e mandar o Lima daquele jeito, algo sério tinha acontecido; Jack sabia, Joe tinha certeza e, acima deles, o velho chefe de edição, Carl, tinha certeza absoluta, pois esteve ao lado dela em tudo aquilo.

Carl parecia tão apavorado que agia como se Lucy estivesse lá; inclusive, se referia a ela o tempo todo: “Lucy não vai deixar, Lucy não vai querer… Vamos fazer do jeito que a Lucy gosta!” — Aquilo já estava ficando ridículo. Mas cada um lida com o problema à sua maneira. E o jeito de Jack era ficar quieto, com os dois olhos bem atentos.

Foi Mike que, durante um café, disse uma frase que era tão real que Jack se surpreendeu com o poder de síntese do auxiliar: “A GBC é hoje um navio onde o capitão sumiu e o primeiro imediato está fingindo que ainda tem alguém no leme.”

Jack focou no trabalho. E o trabalho era cobrir os conflitos sem entrar muito em detalhes, mas a coisa tinha se tornado uma guerra civil. Por mais bizarro que fosse, era uma guerra civil por causa duma bola maluca parasita. Enquanto Dolores dava os últimos retoques ajustando os fios brancos mais teimosos, Mike disparava a contagem. O monitor diante de sua bancada decorada  com acrílicos luminosos mostrava os últimos comerciais. Entrou a abertura do Jornal das três na tela.

A luz vermelha acendeu-se no alto da Câmera 2. O texto começou a correr no teleprompter.

— Boa tarde. Eu sou Jack Harland e você está assistindo ao Jornal das três na GBC. Na edição de hoje: Milhares de Arautos tomaram as ruas. O conflito se espalha por dezoito países. A disputa pela fortuna do empresário brasileiro Plínio Marcos ganha reviravolta na justiça do México. Surto de paralisia misteriosa se espalha pela África, Homem esfaqueia a própria sogra em Heavens Socks. Acidente com caminhão e sete carros na Interestate 44 deixa dois mortos e sete feridos e a exposição de carros antigos no centro cívico de Evanstown.  Tudo isso e muito mais, aqui… Mas o quê? O quê? — Tocou uma musiquinha — Após os comerciais! Fica ligado que já voltamos!

A luz vermelha apagou e, enquanto a grua se reposicionava, Jack tomou um gole de água.  Os comerciais da entrada eram rápidos, então não havia muito tempo a perder.  Mike falou: Em 3…2… A luz voltou a acender.

Jack leu as notícias. Milhares de Arautos tomaram as ruas no mundo. Vestiam branco. Carregavam tochas. Batiam panelas.
Cantavam:

— DEVOLVAM O MESSIAS!

As primeiras vitrines quebraram perto da meia-noite. Depois vieram os incêndios. Um posto de gasolina explodiu na avenida principal. Carros foram virados. Uma farmácia saqueada. Homens mascarados arrastavam televisores enquanto gritavam frases espirituais completamente incompatíveis com furto qualificado.

A polícia perdeu o controle em menos de uma hora. Os bombeiros não conseguiam atravessar as barricadas. Silas Crowe surgiu numa transmissão ao vivo cercado de seguidores uma e meia da madrugada na CNN. O balão preto presa sobre sua cabeça mascarada balançava lentamente enquanto ele encarava a câmera através de dois buracos escuros na máscara suja.

— O governo roubou nosso profeta — e completou com seu punho serrado erguido no ar — Isso só termina quando André voltar para nós!

Atrás dele, pessoas com macacões brancos com bolas pretas pintadas incendiavam um carro.

 

Aquela imagem percorreu o mundo.
Nos outros países não era diferente. Na França, carros foram incendiados e, na Inglaterra, os Arautos tinham lutado com a polícia usando bombas incendiárias.

Na manhã seguinte, o governo federal decretou estado de emergência. As cidades grandes, como Nova York, Los Angeles e Washington, estavam isoladas.

Guardas nacionais ergueram barreiras nas estradas. Helicópteros circulavam noite e dia. Drones pairavam sobre bairros inteiros. Repórteres usavam máscaras, coletes azuis e capacetes.

A palavra SEITA aparecia agora em letras garrafais nas capas dos jornais. Os Arautos adoraram. Nada fortalece mais uma religião do que perseguição televisionada.

———-

André acordou amarrado no leito. A bola ainda estava ali. Impávida.
Ele estava dopado há tantos dias que não sabia que dia era.
O teto branco acima dele vibrava levemente com o ar-condicionado industrial.

Ele tentou mover os braços, eles doíam, apertados pelas correias. Ao seu lado, monitores de todo o tipo e fios desciam para máquinas que ele não conseguia ver direito. Cabos de conduíte brancos levavam toda sorte de informações e se espalhavam pela sala imaculadamente branca.
A porta se abriu e um homem calvo, de setenta anos, vestindo um guarda-pó azulado entrou. Ele tinha luvas de borracha azuis.

— Bom dia, André.

 

André nem respondeu. Estava meio tonto ainda. Tentou sentar.
Outra correia atravessava seu peito e impediu.

A esfera repousava a menos de dois metros da cama. Perfeitamente imóvel. Negra. Absoluta.

O homem abaixou-se sob a cama e trocou o saco de urina. Depois ajustou alguns parâmetros num pequeno monitor ligado numa máquina.

Mesmo depois de dois meses, André ainda sentia aquela coisa ligada a ele de alguma forma. Era como se uma parte dela estivesse dentro da sua cabeça. Como um zumbido distante. Um chamado. Ou talvez apenas a sensação permanente de estar prestes a lembrar algo horrível.
Havia aquela clássica janela espelhada, e André sabia que homens observavam atrás de um vidro blindado.

Militares? Cientistas? Agentes que jamais diziam seus nomes.

O homem se aproximou, abriu os olhos dele e com uma lanterna iluminou o fundo de sua retina.

— Como está se sentindo hoje?

André sorriu. A garganta seca produziu um som grotesco.

— Onde eu estou?

— Numa instalação segura, vamos dizer assim.

André sentiu algo gradualmente apertando seu braço. Percebeu que era um esfigmomanômetro atado a ele.

— Seguro pra quem?

O médico não respondeu, apenas sorriu satisfeito.

— Os dados vitais estão ótimos. A transferência foi um sucesso.
— Transferência?

A porta se abriu e outros dois homens entraram. Eles não estavam com o guarda-pó nem jalecos ou luvas. Vestiam ternos. Seus cabelos estavam cuidadosamente esculpidos com gel.  Eles pararam diante do leito onde André estava amarrado. Um deles olhou para a bola e viu seu reflexo se curvando na superfície polida. O outro virou-se para o cientista.

— Sinais vitais?

O cientista nem olhou pra eles, Ficou olhando para baixo, como se tivesse sido instruído para não encará-los. Disse olhando para André:

— Os sinais vitais estão todos bons. A pressão sanguínea está subindo dentro do esperado e normalizando.

— O paciente já está liberado?

— Sim, senhor.

O homem de terno se virou para o espelho e André viu o homem sendo refletido. Ele ergueu o braço como se acenasse para si. Fez um movimento engraçado ondulando a mão.  O outro homem de terno apenas o encarava aos pés da cama.

 

A porta novamente se abriu e mais pessoas, essas usando coletes brancos espessos, botas brancas, capacetes, entraram. O cientista calvo desatou uma série de tubos e desligou alguns dos pequenos monitores presos na cama. A cama deu um estalo e lentamente o encosto se inclinou um pouco.

— Está bom assim? — Ele perguntou, quase que retoricamente, pois André sequer pôde responder.

Os homens de colete destravaram a cama e começaram a movimentar o leito.  Logo André deu o passeio mais estranho de sua vida.
Os homens misteriosos levaram a cama em silêncio. André ouvia um guincho vindo da rodinha esquerda. Desceram uma rampa em curva, que parecia não acabar nunca mais. O giro era quase de 360 graus. O lugar era enorme, um salão monumental de concreto que parecia saído de um filme. O ambiente era opressor e assustador, meio escuro, como uma catedral. A arquitetura era brutalista e ameaçadora.
A processão que seguia com a cama parecia ser grande a julgar pelo barulho dos passos que ecoavam. André não conseguia ver quem estava atrás de seu leito, mas à frente iam o cientista calvo e os dois homens de terno e cabelos colados na cabeça com aquela gosma.
Ao redor mais homens de branco e macacões.  Mas certamente alguém importante seguia a comitiva por trás.  A bola estava seguindo, como sempre.

André ouviu um som metálico estalar e um barulho que lembrava um grande motor ou uma caixa de redução.  Havia um som de correntes também.
Os homens de branco se abaixaram e travaram a cama. André olhou ao redor; estava num tipo de platô iluminado. O chão tinha um grande quadrado amarelo pintado ao redor dele.  Os homens apontaram uma máquina com uma luz verde para a esfera. Um raio laser deslizou na superfície do orbe.
Eles estavam fazendo medidas e ninguém falava com André, apesar de seus apelos insistentes.

— Que isso? O que é isso? Me solta!

Os homens andavam de um lado para o outro falando baixo e apontando.
Um novo estalo surgiu.

Ao lado da esfera havia agora uma estrutura metálica enorme.

Uma espécie de gaiola cilíndrica feita de aço reforçado. Era como um enorme copo de aço, com paredes enormes. Estava suspenso do alto com uma corrente que lembrava a corrente de um navio, ela sumia na escuridão, mas parecia presa num tipo de braço pneumático, na lança de um guindaste ou algo assim.

Cabos grossos atravessavam o chão.
Sensores cercavam tudo.

André começou a gritar em pânico, quando aquilo se moveu lentamente para cima dele. Com estalos metálicos.

— Se você não se acalmar, vou precisar te dar isso aqui…  — disse o homem calvo pacientemente — … e com isso você vai dormir mais uma semaninha.  Seja bonzinho.

André arregalou os olhos diante da seringa com um fluido verde.
Ele virou a cabeça e viu dentro do cilindro de aço que pendia no ar.  Uma série de elementos eletrônicos dentro dele tinha leds vermelhos piscantes.

Dois homens de macacão branco e capacetes chegaram perto da cama de André.
Eles tinham uma manta branca. Um terceiro chegou pra ajudar.  Era pesadíssima, e aquilo André entendeu: Era um escudo de chumbo como aqueles de radiografia, mas bem mais espesso.  E isso só podia significar uma coisa, os homens estavam prestes a bombardear aquela coisa com radiação.
Quando tudo estava finalmente pronto, apareceu, vindo não se sabe de onde, um novo homem. Esse era bem mais velho. Era tão idoso que andava com dificuldade, com uma bengala.
Ele parou diante dos pés da cama hospitalar e olhou ao redor em silêncio.
Os outros homens estavam saindo do recinto. Em pouco tempo só restavam eles dois na plataforma.

— Você deve estar curioso. — Ele disse observando atentamente o desenho do punho de prata na bengala.

— Quem é você? Que lugar é esse? Me tira daqui!  — Ele gemeu entre os dentes.

O homem caminhou lentamente, tão lentamente que parecia que nunca chegaria ao outro lado da cama, e parou diante da esfera.

— É uma coisa maravilhosa… — ele disse, impassível aos apelos de André. E continuou a falar olhando apenas para a esfera — Durante semanas estamos tentando separar você da esfera. Não conseguimos, como você pode ver. Toda vez que afastávamos o objeto a mais de alguns metros, André, você  entrava em convulsão.

— Convulsão?

— Os aparelhos enlouquecem. As luzes oscilam.

Novos passos no tablado metálico se ouviram e um dos homens de colete carregando uma pequena gaiola entrou. Havia um coelhinho imaculadamente branco dentro. O homem parou com o coelho aos pés da cama e abriu a gaiola. O coelhinho saltou nas pernas de André, mas ele mal sentia, por causa do cobertor de chumbo.

— O que fizeram comigo?

— Vários testes… — disse o velho.

— Que isso? Pra que esse coelho aí?

— Você já vai ver.  — Ele disse, virando-se e fazendo um sinal positivo com o polegar para o homem. Depois se afastou da esfera.

O homem agarrou o pobre coelho pelas orelhas e ergueu o animal no ar. O coelho começou a se debater.

— Ei, não! Ei! Ei! — André gritou. Mas foi inútil.

O homem lançou o coelho com força na direção da bola. Quando o animal bateu na esfera, ele estourou tal qual o policial da estrada, numa nuvem de sangue.
O homem puxou um rádio do bolso e disse: “Positivo”.
André estava em estado de choque. Horrorizado, virou-se para o velho, que sorria sob o bigode.

— Todas as coisas orgânicas têm esse destino do Roger Rabbit! O primeiro teste foi com um rato. Colocamos sobre a superfície da esfera usando braços mecânicos. O rato explodiu instantaneamente. Não queimou. Não derreteu. Não sofreu descarga. Explodiu, como você acabou de ver.

— Malucos! Vocês são malucos, cara!

— Acalme-se. É como se cada célula decidisse abandonar simultaneamente qualquer acordo químico que mantinha a matéria organizada. Depois tentamos um cachorro. Mesmo resultado. Objetos comuns, porém, nada sofrem. Metal. Madeira. Plástico. Vidro. A esfera aceita a matéria morta. Mas repudiava a vida… — Ele disse, observando o orbe que nem sequer estava sujo com o sangue do coelho — Ou, talvez, a esfera parasita reconheça algo nela.

— Quem é você? O que vão fazer comigo? Que porra é essa aí?

— Ah sim, perdoe-me pelos maus modos. Sou o doutor Nathan Hale. Pode me chamar de Nathan. É tudo o que você precisa saber sobre mim por enquanto… Mas vamos voltar a falar dessa coisa.  — Ele apontou com a bengala para a esfera.

— Eu quero sair daqui, senhor Nathan.

—Temperatura: impossível de medir. Peso: variável. Radiação: inconsistente. Magnetismo: inexistente. A esfera simplesmente recusa nossa lógica física, rapaz. É como tentar medir um buraco… Negro. — murmurou Hale.

— Ela… É uma arma?

 

Hale permaneceu em silêncio diante da pergunta de André.
Então deu as costas e foi saindo. Uma luz amarela giratória começou a iluminar o ambiente atrás da cama.

André gritou e ouviu o eco do próprio grito no salão de concreto.

— Ela é uma arma, doutor?

— Armas obedecem a alguma intenção humana. — Ele respondeu sem olhar para trás. Andou até sair da plataforma.

Um estalo se fez ouvir e André viu quando lentamente aquele enorme sino de aço triplo desceu ao redor da esfera. Houve um barulho surdo quando ele tocou o chão.
André se viu separado da esfera pela primeira vez desde que havia se trancado no banheiro.

Um dos homens, o mesmo que havia trazido o coelho, chegou correndo e colocou os protetores auriculares e uns óculos super escuros em André.

Um alarme tocou. O homem correu tão rápido que aquilo só podia significar uma coisa.
Então, houve um imenso vazio. Momentos que pareciam durar horas em que nada acontecia. André esperava pelo pior.
Em segundos, uma explosão abalou o laboratório subterrâneo. André sentiu como se uma onda de choque atravessasse seu corpo. A cama, mesmo travada, se agitou como num enorme soluço que durou meio segundo.

André levantou a cabeça assustado. Ficou sem saber o que havia ocorrido. Agora não ouvia nem via nada. Mas ainda sentia o peso do cobertor de chumbo pressionando seu peito contra o colchão fino do leito hospitalar. Alguém finalmente tirou os óculos e os abafadores auriculares.

Os homens estavam de volta, correram de um lado para o outro, suas botas estalando na plataforma de aço.

Alarmes começaram a tocar novamente, mas agora eram diferentes.

Na sala de observação, Hale era acompanhado pelas câmeras. A equipe havia detonado cargas explosivas dentro da gaiola de contenção.
Um homem olhava um monitor e deu a leitura: — Parâmetros telemétricos normais. Iniciando aspiração.

A fumaça demorou quase um minuto para baixar.
André ouviu novamente o estalo e notou a enorme corrente se erguendo ao redor do sino. Quando o mecanismo hidráulico ergueu lentamente a estrutura de aço reforçada com concreto. Havia um cheiro estranho no ar…

E a esfera continuava ali. Perfeita.

Nem um arranhão.

André viu um técnico que começou a chorar. Não por medo.
Mas por que alguma parte do cérebro humano enlouquece quando confrontada com algo que não pode ser danificado.

Aquilo parecia uma afronta pessoal à realidade.

Na sala de controle, Nathan jogou sua bengala no chão e deu um soco na mesa.

— Maldição!

— E agora, senhor?  — Um assessor perguntou.

— Ligue para o Tobias. Avise que a explosão não funcionou.

 

Naquela mesma noite, o governo finalmente admitiu publicamente possuir a esfera e manter André sob custódia federal num centro de pesquisas.

As emissoras interromperam a programação. Painéis especiais surgiram imediatamente.

Generais.
Físicos.
Padres.
Psicólogos.
Astrólogos.
Influenciadores digitais. Todos falando ao mesmo tempo.

Num programa de debate particularmente caótico, um pastor declarou que a esfera era “o olho de Satanás”. Um físico respondeu dizendo que aquilo era “estatisticamente improvável”. O pastor perguntou se ele já conhecera Satanás pessoalmente para afirmar aquilo.

A discussão seguiu por quarenta minutos. A audiência, como Jack Harland imaginava que seria, bateu os recordes históricos.

O apresentador Harland encerrara o programa completamente exausto. Mesmo para um jornalista veterano, daqueles que já haviam coberto guerras, terremotos e eleições fraudulentas sem perder o cinismo profissional, aquilo era diferente.

Porque ninguém entendia absolutamente nada.

E quando ninguém entende nada, qualquer idiota pode virar especialista.

Harland apresentava diariamente as notícias dos conflitos com os Arautos. E em seu tempo livre, começou a investigar por conta própria.

As versões oficiais mudavam toda semana. Relatórios desapareciam. Testemunhas sumiam.

Havia militares mentindo.
Políticos mentindo.
Cientistas claramente aterrorizados.

Algo enorme estava acontecendo.

E ele sentia isso. Logo, um conflito mais assustador que malucos queimando carros apareceu.

Na ONU, representantes de diversos países exigiam acesso à esfera. A sessão tornou-se um espetáculo diplomático grotesco. O embaixador russo declarou que os Estados Unidos não podiam monopolizar “um objeto potencialmente não terrestre”.

O representante americano respondeu dizendo que a esfera era questão de segurança nacional. A China pediu cooperação científica internacional.

A França sugeriu destruição imediata. Israel queria acesso aos dados. A Coreia do Norte alegou que a esfera era tecnologia originalmente dela e queria de volta.

Ninguém riu.

Isso foi o mais assustador.

Analistas militares começaram a discutir publicamente possibilidades de uso estratégico da esfera.

“Se compreendermos a física da esfera…”

“Se reproduzirmos o efeito…”

“Se houver aplicações energéticas…”

Como sempre, a humanidade olhou para o impossível e imediatamente perguntou: dá pra transformar isso numa arma?

Enquanto isso, os Arautos cresciam. Não somente porque eram ridicularizados, mas porque ao admitir que não conseguiam desvendar a esfera, a mídia e os governos jogaram as esperanças sobrenaturais no colo dos desesperados. Os numerários só aumentavam.

Toda noite programas humorísticos exibiam imagens de seguidores usando balões pretos presos à cabeça. Comediantes imitavam Silas Crowe.
Crianças fantasiavam-se de Arautos no Halloween.
Lojas online vendiam kits completos de “iniciação”. E cada piada trazia novos seguidores.

Porque o desprezo social produz pertencimento e pertencimento é uma droga mais poderosa que a heroína. Harland e Crowe entendiam isso perfeitamente.

Na fazenda, ele caminhava entre seus discípulos como um papa apocalíptico.

Tocava cabeças.
Abençoava pessoas. Empolados choravam de estar na presença deles.
Distribuía pequenas esferas negras de cerâmica.

— O vazio nos vê — dizia.

Os seguidores repetiam:

— O vazio nos vê.

Alguns começavam a afirmar que ouviam vozes durante o sono.

Outros diziam sonhar com corredores infinitos e oceanos negros.

Uma mulher alegou que a esfera aparecera dentro do espelho do banheiro. Silas declarou aquilo um milagre.

A mulher passou a liderar orações coletivas. A insanidade se organizava com eficiência assustadora.

André estava de volta à sala branca com a esfera do lado. Já não sabia quantos dias haviam passado. As drogas o mantinham sonolento.

Às vezes via médicos. Às vezes soldados.
Às vezes apenas o teto.

Mas a esfera permanecia sempre próxima.

Como um animal dormindo.

Numa madrugada, Nathan entrou sozinho na sala.

Sentou-se diante dele.

Parecia cansado.

Muito cansado.

— Você ouve alguma coisa? — perguntou.

André demorou a responder.

— Às vezes.

— O quê?

— Não sei explicar.

Hale passou a mão no rosto.

— Tente.

André encarou a esfera.

O preto dela parecia mais profundo naquela noite.
Quase líquido.

— É como… como se ela estivesse esperando.

— Esperando o quê?

André fechou os olhos.

Uma imagem atravessou sua mente.

Escuridão.
Gigantesca.
Infinita.

E algo movendo-se dentro dela.

Ele abriu os olhos imediatamente.

Começou a tremer.

— Eu quero ir embora. Me tira daqui!

Nathan Hale permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Então respondeu algo que André jamais esqueceria:

— Acho que ninguém vai embora disso.

Do lado de fora da instalação, no deserto, caminhões militares chegavam sem parar.

Mais soldados.
Mais equipamentos.
Mais concreto.
Mais armas.

Como se o governo estivesse se preparando para sitiar o próprio universo. A junta militar considerou que a esfera era o maior perigo que a humanidade havia enfrentado.

Destruía religião.
Criava novas.
Desorganizava política.
Corrompia ciência.
Transformava homens comuns em profetas e especialistas em crianças assustadas.

A esfera fazia uma pergunta simples ao mundo:

“E se nada do que vocês acreditam for suficiente?”

E o mundo inteiro lentamente começava a perceber que não tinha resposta alguma.

CONTINUA