A menina do ônibus e o estupro existencial

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Hoje acordei cedo. Precisava ir a Icaraí para uma consulta médica, coisa que detesto peremptoriamente. Em vez de pegar meu carro, optei por ir de ônibus, uma vez que o bairro de Niterói tem mais densidade populacional que o Japão, e segundo dizem (verificado in loco) a prefeitura vem apurando seu rendimento com uma máquina municipal de rebocar carros como nunca se viu.

Precisei andar um pedação debaixo de um sol escaldante para pegar o ônibus. Depois de uma longa espera, ele finalmente apareceu, e como não podia deixar de ser, apareceu lotado. Eu dei bom dia para o motorista e pela expressão que ele fez, como se estivesse arrancando um furúnculo do ânus com um espeto de churrasco, percebi que não deve ser muito comum as pessoas darem bom dia para o motorista do ônibus lotado.

Logo que começou “a viagem” entendi o motivo. Assim que consegui passar na roleta, algo digno de um contorcionista do Cirque de Sileil, me deparei com um mar de gente já fendendo de manhã cedo. A cada ponto, dezenas de novos corpos se juntavam numa sauna que parecia uma sacolejante sucursal do inferno.

Uma senhora idosa ameaçou fazer barraco para uma mocinha que estava na poltrona amarela, que é preferencial para idosos, gestantes e deficientes. A moça fingiu dormir. Normal, manobra manjada praticada diuturnamente em 9 entre 10 ônibus lotados. A viagem prosseguiu, com o ônibus desafiando a lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar do espaço. As pessoas odiando o motorista com todo seu âmago. E enquanto isso eu pensava no meu carrinho paradinho na garagem, grandão, com ar condicionado…

Eis que em meio aos meus pensamentos filosóficos de como sou capaz de me foder para não me foder, noto olhos azuis olhando diretamente para mim. Logo abaixo de onde eu estava, uma moça muito bonita, com um decote sobre o qual eu pretendo não detalhar, estava me olhando. Pensei que talvez estivesse me conhecendo, quem sabe até pensando: “será aquele cara do blog?”

Mas logo, minha percepção extra sensorial edificada na capacidade de ler expressões faciais me deu “a real”.

A real é que ela estava prestes a gritar que eu a estava estuprando. Sim, ali estava aquela linda criatura de singela beleza, parecendo saída dos sonhos mais pecaminosos dos homens-bomba, me olhando com uma cara que deixava claro que ela queria me dar uma porrada. Percebi tudo só de olhar pra ela. Ali estava uma feminista militante, que certamente lê ou escreve manifestos, que frequenta grupos com nomes como “Vadias contra os machos”, que apoia o Pepeka Satânika ou coisas do tipo. Certa vez entrou uma aqui e disse que eu era um estuprador porque eu tinha pênis. A moça, de olhar injetado e cara de mau estava olhando fixo pra mim, na esperança de me pegar roçando meu bingulim véio de guerra no braço dela. Incrível como estava claro, acho que até telepático aquele negócio. Num ônibus onde não há sequer lugar para pensar, a mulher estava visivelmente incomodada com a proximidade de minhas gônadas com seu sacrossanto e imaculado braço.

Por uma fração de segundo temi que ela estivesse avaliando o delicado buquê de minhas partes íntimas ali perto da cara dela. Mas felizmente eu havia tomado banho, já que nunca se sabe quando os médicos vão esmagar seu ovo ou enfiar o dedo no seu cu… (true story)

Esperei que ela dissesse alguma coisa, como “sai seu macho opressor!”, mas ela nada disse, apenas me olhava séria. Estava pronta para o conflito. O coração devia estar batendo forte, a adrenalina a mil como quem sabe convenha a uma fêmea de qualquer espécie que enfrenta um macho (tirando uns peixes e o Louva-Deus). Eu, por minha vez ja havia colocado a mente para gerar uma resposta de bate-pronto que era: “Troca de lugar comigo, que eu não vou reclamar de sua xana me roçando”. Mas ela nada disse. Os olhos azuis, lindamente azuis por trás dos óculos âmbar me confrontando.

Me senti mal de uma mulher pensar que eu posso ser um desses caras de lotação cujo QI não se diferencia de um cachorro no cio, desses taradinhos que agarram na perna da visita dando vexame zoofílico nos piores momentos.

Cada pessoa que entrava no ônibus e tentava passar na roleta, produzia uma onda que culminava num esforço hercúleo de minha coluna lombar para evitar o campo de força invisível que a moça havia erguido ali. Tudo que eu mais queria era sair de perto dela, mas seria impossível, o ônibus lotado, tão lotado que nem mudar de posição era possível. Pra piorar alguém havia tomado banho de leite de rosas e eu já falei aqui que nada, NADA fode mais minha cabeça que cheiro de leite de rosas de manhã cedo. Enjoei, em dez segundos minha cabeça latejava. Tive medo. E se eu desmaio e caio em cima da feminazi? Será a certeza concreta do estupro. Até que o povo entenda o que aconteceu, já me lincharam.

Mas para meu alívio, estava chegando o meu ponto. Era o lugar onde eu ia descer, largar aquele inferno. Mas então, eis que a moça se levanta, sem tirar os olhos de mim. Ela olhou para as minhas calças, talvez conferindo se era a situação daquele macho estar em ponto de bala para a procriação, o que talvez tenha a deixado um pouco constrangida, porque não consegui conter minha expressão de espanto ao ver a mulher olhando deliberadamente para o fudêncio. Não estou acostumado com essas coisas. Não me dou a essas liberdades com estranhas.  Certamente ela avaliou ali qual seria as chances de eu, aquele homem com cara de tarado a “encoxar”, coisa que não fiz na vida e muito provavelmente morrerei sem saber como faz.

Ela passou por debaixo do meu braço e por um breve segundo rezei para que aquela sovaqueira que impregnava o catacorno não estivesse provindo das minhas axilas peludas de macho opressor.

Para meu azar a feminista silenciosa desceu justo no mesmo ponto que eu. Logo, em meio a multidão que esfregavam suas bundas em meu corpo, notei que ela olhou para trás pelo menos umas dez vezes, para se certificar que claro, o “tarado” estava seguindo ela. Afinal, como todos os homens sabem, menos Copérnico talvez, o mundo gira em torno de mulher de olho azul e com decote.

Finalmente descemos os dois no ponto da praia. Ela foi andando rápido e eu na minha. Não dei importância, mas a cada seis ou sete passos, ela se virava para me olhar. Devia estar avaliando se o macho tarado-opressor e estuprador em potencial estava olhando a bunda dela e de fato eu estava mesmo (desculpa, mô).

Ela foi andando, virou numa rua, e era a porra da rua em que eu precisava virar. Eu tinha que passar na clinica onde fiz minha ultrassonografia das pedras nos rins (prazer, meu nome é chocalho)  para pegar o resultado e levar no outro médico.

Lá fui eu, andando atrás dela. A maluca, coitada, deve ter entrado numa paranoia fodida, porque ela estava quase correndo. E eu na minha, nem mais olhava pra ela, afinal era um belo dia de sol e a praia estava espetacular.

Qual não foi minha surpresa ao perceber que ela estava indo no mesmo prédio comercial que eu?

Quando a mulher me viu entrando no vácuo dela no prédio, ela ficou muito, muito bolada. Dava pra ver que ela estava suando frio. O elevador prestes a subir, entramos eu e ela e tinha uma vovozinha de uns 90 anos ou mais. Ela não parava de me olhar fixo e eu quieto. Nisso a porta abre e a vovó desce.

Agora éramos só eu, o protopseudoestuprador e ela.

Abriu a porta e ela desceu. Eu saí também, afinal, “não vou bater palma pra maluca dançar”. Fomos andando pelo corredor escuro e deserto do prédio, e ela andando apressada. Finalmente ela entrou na clínica. Puta que pariu, a mulher ia na MESMA clínica que eu!

Assim, entrei atrás.

Ela parou no meio da recepção, virou e ficou me olhando com cara de quem ia falar: “Se manca tarado!”  Mas felizmente ela nada falou, apenas se prostrou ali na segurança da presença da atendente e ficou me olhando com a expressão de quem estava prestes a me virar uma porrada de MMA e me finalizar ali mesmo.

Dei bom dia, entreguei meu protocolo, peguei meu exame, assinei o papelzinho, renovei o bom dia e fui embora.