Medo no ponto

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Eu estava no ponto de ônibus quando vi os clarões e entre os grilos que já preunciavam a noite, ouvi o ronco distante de uma trovoada.

Soou como um gigante arrotando muito longe. Eu estava sozinho ali, ou pelo menos assim pensei. Veio uma vontade de tentar meu melhor arroto, como um passarinho compelido pelo cantar de outro, mas me contive. Não ficava bem pra um homem da minha idade, meu porte, minha distinta classe social, que, embora decadente num lotação das cinco pras sete, ainda pelo menos tentava se dar ares.

Eu levava comigo um saco plástico com oito mangas espada.
Olhei o relógio novamente para constatar que havia passado meros três minutos desde a última vista de olhos.

– Falta muito?

Olhei curioso para ver quem havia falado comigo e dei com um velho ali perto de mim. Saído de não se sabe onde, pois não o vi chegar. Estava de pé ao meu lado.

– Tá atrasado. Vou pegar o das cinco pras sete e já são sete – respondi, sem muito ânimo.

– Nãã… vai atrasar mais. Sempre atrasam nessa hora porque o Genésio para pra comer uma coxinha lá na Sete de Setembro – O velho respondeu.

Observando, notei que tinha as duas mãos enfiadas nos bolsos, mas seus olhos eram vermelhos, como inflamados, e tinha grossas bolsas sob os olhos, num conjunto pouco apreciável junto com cabelos brancos desgrenhados. O visual que me fez supor estar ali um bebum, um pudim de pinga qualquer.
Apenas assenti com a cabeça como interlocução muda, já que eu não gostava de conversa de porta de bar. Eu já conhecia o tipo, o assunto logo evoluiria para pedir um cigarro, passaria por alguns desgraça familiar, uma tragédia, como a letra de O ébrio, o que inexoravelmente conduziria a um pedido de uma viração qualquer, pra comprar pão, leite ou mesmo saldar uma dívida de morte com um agiota.

Ficamos os dois em silêncio até que ouvi o velho sorrindo. Ele sorria e olhava pra mim de soslaio.

– Quê? – Indaguei de forma incisiva, fazendo com que ele recusasse um passo e meio à esquerda.

– Nada, não é nada não, uai. Achei só graça do agiota. Foi boa mesmo essa. Vou usar.

Ali eu me espantei. Teria pensado alto? Como o bebum poderia saber do meu pensamento? Com certeza, pensei alto sem nem notar e ele riu. Riu de mim, aquele desgracado maltrapilho. Felizmente recuou dois passos, já que certamente devia estar fedendo…

O meu estranho companheiro do ponto de ônibus tirou as mãos dos bolsos e, levantando os braços para o alto, cheirou os sovacos. Depois me lançou novamente seu olhar vermelho e assentiu com a cabeça. Mas nada disse. Nem precisava, pois agora meu coração batia rápido e eu estava certo de não estar na companhia de gente de verdade, porque gente normal, pelo que eu saiba na altura dos meus 60 anos, não lê pensamentos. E os olhos… olhos vermelhos.
Ele sorria, parado e virado pra mim. As últimas luzes do pôr do sol já se iam numas sombras matizadas de roxo-lilás. A luz que vinha era do segundo poste rua abaixo. O poste perto do ponto estava com a lâmpada queimada, e cada minuto que passava, a luz da lâmpada de vapor de sódio jogava um contorno alaranjado macabro no meu companheiro, infundindo seu rosto vincado com sombras assustadoras.

– Eu tô te sacando… – Eu disse, tentando parecer ameaçador.

Mas eu estava com medo, e ele sabia. Tentei ocultar meus sentimentos, mas vi no sorriso silencioso do homem no escuro que ele sabia.
Sua capacidade deflorava impertinentemente todo esforço que eu fazia para ocultar meus sentimentos. Era inútil, e eu praticamente podia senti-lo entrando e remexendo minha cabeça, minha memória, meus medos, como uma faxineira que limpa uma sala.

Olhei o relógio e marcava 7:06. Aí eu entendi. Eu fechei a gestalt ali. 7:06 é na verdade, 6:66 e essa é a marca da besta!

– Você sabe quem eu sou? – ele indagou, com uma outra voz. Agora era uma voz cava, gutural, uma voz que me deu um calafrio.

Senti um zumbido na orelha e da boca do estômago subiu uma gastura. A vontade de sair correndo me dominava, mas eu perderia o ônibus, que se anunciava dobrando a esquina.
Deixei a sacola que eu carregava cair com o susto.
O velho se aproximou e paralisado pelo mais profundo horror, vi sua mão ossuda e pálida brilhando sob a luz do farol do Mercedes Benz.
As unhas compridas e os olhos vermelhos se destacando na escuridão não deixaram dúvidas. Era o diabo.

O ônibus parou na minha frente e a ponta abriu.
Agarrei uma pedra que estava ali ao lado do meu pé e desferi com toda força uma pedrada bem na cara dele. Bem na fuça. Foi assim, do nada, sem pensar. Simplesmente apedrejei Satã, que caiu para trás sem nem gritar. Bateu no chão como um pedaço de coco seco.
Eu saltei pra dentro do lotação vazio aos berros:

– Pisa! PISA Genésio! Vaaai!

O pobre Genésio que toda sexta-feira me buscava no ponto nunca tinha me visto em tamanho desassossego concluiu que era assalto. Acelerou tudo que dava. Senti um alivio brital de estar em segurança.
O ônibus atravessou pela via escura. E antes de dobrar a esquina eu ainda olhei pela janela de trás. O ponto se distanciava, mal iluminado, perto do matagal. Mas lá estava ele, sentado no chão e remexendo o meu saco de mangas.

Então ouvi aquela risada macabra vinda do motorista, que perguntou:

“Você sabe quem eu sou?”

Fim