Meu problema com o queijo

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Eu tenho um notório problema com o queijo. É uma estranha relação de amor e ódio. Alguns queijos eu gosto muito, outros, abomino.

Este é o caso do queijo parmesão ralado de saquinho. Acho que tudo começou num dia quando eu tinha por aí uns 15 anos e estava sozinho em casa. Eu estava com fome, e não queria descer para comer nada na rua. Também não tinha nada em casa para comer. Meus pais estavam viajando e eu acabei procurando alguma coisa que fizesse sentido alimentar.

Essa coisa se resumiu a uma banana preta, que encontrei atrás de um pratinho na geladeira. Era uma banana solitária, murcha. Era deprimente só olhar pra ela. Procurei mais alguma coisa e achei em cima da geladeira, um saquinho com umas torradas que devia estar lá, dada a camada GEOLÓGICA de gordura no saquinho há pelo menos dois anos. De fato, as torradinhas pareciam pedra.

Morda uma pedra pomes e você saberá o que é essa torrada.

A banana preta em cima da torrada ficou legal, mas ainda faltava uma coisa para dar uma “liga”. Essa coisa eu achei numa gaveta. Um saquinho com um resto de queijo ralado. Estava meio verde, mas ora bolas, “o alface também é verde e a gente come”.

Peguei aquilo, joguei em cima das minhas pequenas torradinhas de adamantium com banana preta e joguei no microondas. Larguei lá pra gratinar.

Quando eu tirei do microondas, confesso que a vontade era de vestir um traje pressurizado. Mas eu precisava mostrar a mim mesmo que eu era um homem feito. E homem feito, sabe como é, ele se vira nos trinta.

Fechei os olhos, peguei aquilo e mandei pra dentro.

Pra meu espanto, desceu fácil. A banana liquefeita amaciou a torradinha. No fundo, virou uma gosma que parecia as tripas de um alien. Mas mandei ver. Comi mesmo. Com a mesma expressão do Bear Grills comendo verme.

Eu acho que posso dizer que aquilo se manteve por dois minutos no meu estômago.  O problema todo foi que eu bebi coca-cola para atenuar o gosto e a coca-cola produziu um pequeno arrotinho. O arrotinho, discreto em sua dimensão sonora se provou a pior das pragas do Egito no contexto retrogosto.

Não deu pra segurar. Até tentei, desesperado tampar a boca, mas uma potente cascata de vômito espirrou por entre meus dedos. E quanto mais eu vomitava, mais eu vomitava. Eu achei que nunca ia acabar. Eu vomitando e pensando, “porra, não é possível, eu não comi tanto”!

O fato é que comi um e vomitei dois de cada daquele troço. Daquele dia em diante, passei a ter um problema com o queijo. Se eu sentisse cheiro de queijo gratinando já me batia um negócio, já ficava macambúzio, tudo rodava, eu começava a achar que ia morrer, e aquele cheiro que pra muita gente abre o apetite pra mim era como desfrutar do buquê das partes mais íntimas da virilha de um mendigo.

E isso acontecia até em restaurante.

Foda é que te dá um troço assim, você passa a sentir a porra do cheiro chulezento do queijo em tudo que é lugar. Engraçado que o meu problema era especificamente com o queijo parmesão de saquinho. O ralado na hora é sossegado.

Com o tempo, a coisa foi atenuando até que eu consegui estar numa mesa de restaurante e ver um potinho de queijo ralado sem dar um ataque de ferrôvômorrê.

Então eu tava aqui lembrando disso, porque bem agora eu cheguei na janela e senti esse cheiro. Alguém está gratinando alguma merda de queijo ruim para o reveillon. Me lembrei também que foi prestes a vivenciar um reveillon que passei outro aperto devido ao queijo e meu problema com ele.

Eu estava na casa daquela minha ex-namorada com o qual quase morri no motel e estava calmamente vendo televisão quando minha ex-sogra, chegou por trás de mim e sem perguntar se eu queria, ou se estava afim, enfiou uma coisa na minha boca. Coisa de sogra, sabe como é.

Pra ela aquilo era ótimo.

Imediatamente após ela enfiar aquilo, senti a porra do sabor do queijo. Pensa em alguém enfiando um pacote de merda na sua boca.  Era quase isso. Um treco feito de queijo.

Ela só disse: “Bom né?”

Eu balancei a cabeça, enquanto tentava um malabarismo com a língua. Tentava manter aquela porra contaminada afastada do interior da minha boca. Quem já tentou esconder um cigarro aceso na boca sabe o perrengue que é.

Movi a cabeça enquanto entoei um mantra: Hummmmm! Cara de satisfação, afinal, ninguém é louco de criar atrito com a sogra no último dia do ano.

Por dentro, eu era o caos. Meu cérebro entrou em modo de economia de energia. O sinal de alerta soava… Os operadores corriam de um lado para o outro tentando conter o vazamento radioativo. O comandante do alto do trono mandou puxar o relatório de danos. A estrutura estava comprometida. Havia vazamento no reator. Minha boca de fato estava enchendo de cuspe numa velocidade tão impressionante que parecia um estouro de represa. O que aumentava o gosto.  Eu precisava fazer alguma coisa.

Levantei e educadamente fui até o banheiro. Tranquei a porta. Eu já estava tão desesperado que não conseguia fechar a porra daquela porta de banheiro. Corri na pia.

“Na pia não! ” – Pensei no último segundo. A boca repleta de um caldo nojento de queijo e sei la mais o que que tinha naquele atentado terrorista. Cuspi no vaso.  O bolinho ou seja la que maldição for caiu na água. O som quase me fez vomitar. Me segurei.

Então minha namorada bateu na porta para dizer que não era pra usar o vaso que ele tava entupido.

– Puta que o pariu!  Ali estava o bolinho, prestes a me denunciar. Eu apertei a descarga e ele subiu rodando, vergonhosamente rodando e dando pinta de que não iria descer.

– Caralho, fudeu! – Eu só pensava “caralho fudeu”. O que fazer? O bolinho rodando no vaso… Eu precisava sumir com ele.

Alguém ia entrar ali e ver o bolinho. Minha sogra saberia que eu cometi a maior das maiores desfeitas do universo: cuspir a comida dela.

Meti a mão no papel higiênico e improvisei uma “luva”. Eu solenemente pesquei o bolinho de queijo da privada. Precisava me livrar dele de algum modo. O nojo só aumentavam, porque a sensação era de ser pescador de bosta.

Enrolei aquilo em mais um monte de papel. Pensei em jogar da janela, mas a janela dava para a área. Se eu jogo, tinha risco do Jonsu, o gato dela comer o bolinho com papel e tudo e aí ia ficar pior.

Sem saber pra onde correr, Peguei o bolinho e resolvi lançá-lo discretamente da varanda. Mas assim que saí do banheiro, ouvi o tio dela chegando.

Eu sabia que ele vinha direto apertar a minha mão e eu tava com aquela bosta na mão. Enfiei correndo aquilo no bolso, e não deu outra. Dois segundos depois veio ele com a mão estendida para apertar a minha. A casa estava enchendo de gente, e eu precisava desovar aquela porra. Precisava ser discreto.

Eu disse que ia na varanda ver uma coisa. Eu queria jogar logo aquela porra fora, pois estava já a molhar o meu bolso. E de água da privada.

Cheguei na varanda, encostei a porta de vidro para ocultar meu lançamento. Não havia espaço para erros.

Verifiquei se não havia ninguém me olhando, nenhuma câmera para testemunhar o meu delito. A rua parecia deserta e a hora era propícia. Estava escurecendo rápido. Ninguém ia ver.

Peguei a gosma dentro do bolso, já tava desmanchando.

Preparei o lançamento jogando o braço para trás. Minha meta era jogar no terreno baldio do outro lado da rua, mas assim que preparei para jogar, ouvi um – “Oi Philipe”

Aquilo ferrou meu lançamento. Abortei o movimento e fingi que estava me exercitando na varanda. Era a tia dela.

Perguntou o que eu estava fazendo lá e eu dei uma desculpa. Disse que estava apreciando as samambaias.

“É que eu falo com elas” – Disse ela.

Eu só pensava na massaroca de queijo e água da privada na minha mão. Concordei e tentei cortar o assunto, mas ela começou a me contar o nome de cada uma das plantas. Parecia que o universo queria que aquela porra ficasse morando no meu bolso para sempre.

Mas então, pra minha sorte, alguém chamou ela e eu fiquei sozinho na varanda.  Assim que me vi apenas tendo as samambaias como testemunhas, não me fiz de rogado, tratei de jogar aquela merda em qualquer direção.

Finalmente eu tava livre. O mundo era bem melhor sem uma bolota de coisa de queijo com água da privada e papel higiênico no bolso.

Foi quando eu ouvi um:

-Taca a mãe, filho da puuuuta!

Um cara que vinha passando havia levado o meu porrolho bem no meio das costas.

Ele era grande e forte e estava fazendo menção de descer da bicicleta e subir pra me encher de porrada. Não havia muito o que fazer além de correr. Mas certamente isso levaria o sujeito mal encarado a se encher ainda mais de ódio. Minha saída para acalmar os ânimos foi olhar para o chão e meter o esporro no nada.

-Porra moleque! Quem mandou você jogar coisa nos outros? Vai apanhar! Tá de castigo! Já pra dentro. Uma semana sem videogame!

Eu olhava de rabo de olho pro cara que estava parado me vendo falar com uma criança imaginária. Minha esperança é que ele pensasse que havia alguém atrás da sacada. Deu certo. Ele pareceu ficar mais calmo ao ver que eu estava brigando com o “autor” da traquinagem.

Estendi a mão para o alto e mandei um: -Desculpa aí, moço. Criança é foda.

Ele nem me deu resposta, virou as costas e saiu com sua bicicleta e eu vi claramente a roupa toda cagada.

Só então notei toda a família reunida na sala me olhando com uma cara estranha.

-Eu… Eu tava falando com as plantas.