O fim

· · 10 min de leitura
school work g10d5257fe 640 | Contos | conto

Ninguém nunca acreditava naquelas profecias babacas que pregavam o fim do mundo.

Tá. OK… Admito, muita gente otária acreditava. Pessoas se reuniam em igrejas, em cavernas, ficavam peladas na floresta, davam as mãos e esperavam pelo momento derradeiro. E era aquela decepção. Sorrisos amarelos, cara de quem comeu e não gostou, tanta gente consternada de estar viva.
Mas naquele dia foi diferente. O anuncio do fim dos tempos não veio de um pastor ou astrólogo, ou guru de celebridades. A notícia veio de um dos mais renomados laboratórios de pesquisa do mundo.

Com unidades espalhadas por todos os países (pelo menos todos os que estão no G8 e mais uns outros 15) aquele laboratório era o celeiro de cérebros incríveis que afluíam pra lá como cupins voam para as lâmpadas no verão.
Eles haviam finalmente construído o maior e mais poderoso computador jamais visto. Durante anos, um time seleto das melhores mentes alimentou aquela maquina com toda sorte imaginável de informações, esperando que um dia ele pudesse correlacionar todas as coisas e apontar uma luz para a escuridão que oculta alguns dos mais intangíveis segredos do universo: De onde viemos e para onde vamos.

Físicos, astrônomos, cientistas renomados e uma legião de gênios da Matemática, da Computação, trabalharam dia e noite naquele projeto que tinha orçamento anual superior ao PIB de pequenos países.
Quando as simulações começaram a chegar, o mundo se estarreceu. A maquina poderosíssima mostrava planetas desconhecidos orbitando os planetas quase desconhecidos, que só uns poucos mais ligados saberiam se tratar de exoplanetas. A maquina desenhou as galaxias, desenhou colisões fenomenais, desenhou o princípio da vida na Terra. A máquina revelou muitos mistérios e também anunciou tragédias, que ajudaram os cientistas e governos a planejar mudanças ambientais. Milhões de pessoas foram salvas de terremotos, tempestades, furacões, nevascas, avalanches, chuvas torrenciais, tsunamis, enchentes.

A cada dia, o grau de sofisticação da maquina aumentava e os cientistas trabalhavam mais e mais em seus modelos e simulações. Lentamente a taxa de erro da maquina tendeu a zero, e suas previsões inicialmente apoiadas por uma série de sensores especiais e uma rede gigantesca de satélites começaram a se tornar tão precisas que gradualmente somente se usava desses artifícios mais “tradicionais” de tempos em tempos, para aferir a acuidade das simulações.
Com o passar dos anos, a maquina ficava mais e mais inteligente, e mostrava coisas maravilhosas. Ela ensinou ao homem como desvendar os mais profundos segredos do dna, ajudou na elaboração de ligas metálicas revolucionárias, criou remédios para muitas doenças.
As pessoas confiavam na maquina cegamente, afinal ela nunca errava. Até uma tarde, faltando poucos dias para o natal, quando grupo de cientistas holandeses e suecos comemoravam com os chilenos a confraternização de final de ano. Naquele dia, quando estavam quase todos bêbados, alguém teve a ideia de perguntar a maquina quando o mundo acabaria.

Não houve consenso entre os cientistas bêbados, o que era natural. Mas com o teor etílico aumentado, os consensos, raros, tornavam-se dramaticamente inexistentes. Não demorou a confraternização descambou num mar de acusações, insultos, blasfêmias e dedos apontados um na cara do outro. Alguns defendiam que isso nunca poderia ser perguntado para a maquina, já que era considerado “antiético”.
Outros diziam que talvez aquela fosse de fato a grande finalidade existencial da máquina. E muitos ali apenas gritavam, ameaçavam e conclamavam os incautos para que fizessem a pergunta derradeira.
Ninguém conseguia chegar a uma decisão sobre o que eles deviam fazer ou não, e todos falavam ao mesmo tempo. Foi quando ouviu-se um estampido ecoar na sala. O estouro foi tão alto que muitos se jogaram no chão assustados. Quando as pessoas se viraram, na porta da sala estava o Dr. Paruket Veda, um indiano PHD e prêmio Nobel de Matemática. Ele parecia transtornado.

Veda segurava um revólver numa mão e um copo de uísque caubói na outra.
Ocorreu um súbito e constrangedor silêncio na sala. Enquanto todos olhavam para ele, que também não dizia nada, Paruket Veda apontou a arma para o meio da multidão. Em segundos, abriu-se uma longa passagem, como um corredor que conduzia diretamente para o terminal principal da maquina.
Todos os cientistas observavam em silêncio o indiano bêbado dar seus passos vacilantes pelo longo corredor até a mesa onde estava o terminal.
Lentamente, o silêncio foi coberto de sussurros e gestos. Dr. Veda parecia em transe. Escrevia equações complexas na tela. A arma ao seu lado, ao alcance da mão. Ninguém ousou dizer nada. Ninguém ousou tentar impedí-lo.
Após dez minutos de intensa digitação, Dr. Veda Paruket havia inserido a grande pergunta no simulador, o supra-sumo produto da inteligência humana, quiçá planetária.
A máquina inciou sua contagem regressiva para dar o resultado: Dez dias.
Ninguém podia acreditar. Todos secretamente esperavam que a maquina acusasse alguma falha, que apontasse alguma incongruência na pergunta, que justificasse de alguma forma a se negar a responder quando tudo acabaria. Mas ela não fez nada daquilo. Ao contrário, deu uma data precisa em que apontaria o dia final.
Horas depois Paruket Veda era capa dos jornais, era destaque na internet, era estampado em camisetas, sua foto era queimada em protestos, saíam livros sobre ele: “O homem que teve a coragem de fazer a grande pergunta”. Paruket Veda era convidado para entrevistas, para falar em universidades. O povo do mundo aguardava, ansiosos pela grande resposta.
A cada dia, os jornais noticiavam com letras garrafais quantos ainda faltavam. Nunca a maquina havia demorado tanto numa simulação. Cientistas diziam na Tv em programas de debates (já que só se falava sobre isso) que a demora indicava que a maquina pela primeira vez estava usando todo o seu infinito potencial. Todos os seus infinitos bancos de dados, sua nababesca capacidade de cálculo…
E então, o dia finalmente chegou. Naquele dia, todas pessoas se juntaram nas praças. A hora da resposta seria finalmente mostrada, transmitida, televisionada, exibida em celulares, relógios, na internet, em tudo quanto era lugar. Aquela foi uma das maiores mobilizações de todo o planeta. Guerras foram interrompidas, aulas canceladas, inimigos estabeleceram trégua, as lojas fecharam as portas. Nunca se viu tamanha mobilização.

Agora faltavam poucos segundos para a resposta. A ansiedade quase explodindo o peito de todo mundo…Os números iam diminuindo no enorme painel, imagem que era repetida em telões nas praças, parques, universidades, casas e clubes para multidões e espectadores individuais.
Quando surgiu o resultado, foi uma coisa a princípio desconcertante.

“Daqui a dois anos e 111 dias”.

As pessoas se entreolharam assustadas. Não houve maiores explicações. A maquina apontou a data e ela era horrívelmente próxima. Não demorou começaram a surgir pequenos grupos que duvidaram da maquina. Mas até então, ela nunca havia errado. A maquina sempre acertava. Novamente formou-se a discórdia. As pessoas se dividiram entre as que acreditavam que o mundo iria mesmo acabar dali a dois anos e 111 dias e o outro grupo defendia que a maquina errou. “a pergunta é complexa demais” – Diziam uns. “Somente Deus pode dizer isso” – Argumentavam outros.
Coube ao doutor Paruket Veda verificar. A maquina rodou uma outra simulação. Dez dias depois a cena se repetia, todos esperavam ansiosos para saber o que aconteceria.

“Daqui a dois anos e 101 dias”. Disse a máquina, corretamente repetindo a previsão anterior.

As pessoas se desesperaram. Quando a máquina revalidou seus cálculos iniciais, ocorreu uma coisa que durante décadas os Psicólogos poderiam se debruçar, mas somente se a previsão estivesse errada: A depressão global.
Todo mundo ficou triste. Pouca gente foi trabalhar. A vida tinha perdido a graça. Lentamente, as coisas começaram a ficar cada vez mais graves. Faltou comida. Faltou remédios. Surgiam religiões de todos os tipos e não tardou a grupos religiosos fanáticos declararem guerra uns aos outros. Com a miséria e a morte, doenças se alastravam, varrendo cidades inteiras do mapa.
O planeta Terra entrou num parafuso de fome, doenças e guerras por toda parte. Certos de que o mundo ia acabar, ninguém mais se importava com nada. Os saques começaram. A polícia nada fez, os governos que no início ainda tentavam desesperados estabelecer a ordem, rederam-se ao caos. Cidades queimaram. Os dias se passaram arrastados. Alguns não aguentando esperar, quando o auge da depressão global atingiu o clímax, começaram os suicídios globais. Mórbidas competições online apontavam quais grupos estavam na frente em número de suicídios. Era o flash mob dos novos tempos. As pessoas usavam a internet para combinar grandes e espetaculosos suicídios. E ninguém fez nem menção de tentar impedir.

Então um dia, as Tvs que já haviam saído do ar, subitamente retornaram. Uma notícia milagrosa. Paruket Veda, o gênio indiano, havia descoberto uma falha nos cálculos! Aquilo mudava tudo. O mundo não ia mais acabar.
Houve uma súbita reação mundial que ficaria marcada na história do planeta. Todos agora só queriam saber da vida. O fantasma da depressão global desapareceu, as guerras minguaram. Não havia mais por que lutar. A população, agora reduzida a menos de um sexto do que era antes, se recuperava rapidamente, sem nem lembrar dos que haviam sido tragados pela desgraça, depressão e mortes. O mundo agora tinha lugar de sobra para que os conflitos territoriais se extinguissem. Surgiu um governo global. Todas as pessoas que sobreviveram consideravam-se irmãos. E o mundo cantou. Pessoas se abraçavam nas ruas. O sexo era livre. As pessoas já não encontravam lugar para cobranças, para inveja, para a cobiça. Quando o caos se estabeleceu, os primeiros a se matar foram os grandes acumuladores de capital. O governo mundial criou planos, com a ajuda da máquina de reconstrução do planeta. A máquina orientou o que devia ser feito e todos os recursos disponíveis foram investidos em bem estar.
Nunca aquele pequeno planeta azul havia visto tamanha prosperidade. As pessoas eram felizes, a natureza estava em franca recuperação, ajudada pela biogênese científica. A máquina ofereceu soluções para a mudança da matriz energética do planeta…

Os anos se passaram. Todos foram felizes.

Era madrugada quando o Dr. Veda estava no laboratório. Sozinho. Havia dado folga a sua equipe.
Veda estava sentado, calado, em silêncio. O único som que se ouvia naquela sala era o sibilar do ar condicionado. Paruket Veda olhava fixamente para o monitor da maquina. Os números se desenhavam e sumiam da tela. Era uma contagem regressiva. 7… 6… 5… 4… 3… 2… 1…

…zero.

E no braço da Via Láctea, naquele discreto sistema solar, quase medíocre ante a imensidão do cosmos, um insignificante planeta se desintegrou.

FIM