O galo

Um homem marcado pela figura macabra de um galo

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Dimas era conhecidíssimo na cidade de Campos, Rio de Janeiro, onde se passou o caso.

Doutor Dimas, a propósito, exigia sempre a deferência do título de doutor.

Advogado, estudante de farmácia, era também exímio tocador de fagote e proprietário da farmácia Santa Terezinha, na esquina da rua 15 de Novembro com Maria Quitéria.

O negócio passava por fase difícil, a farmácia já estava em declínio e sua banca de advogado mal dava pra equilibrar a vida particular e comercial.
As promissórias e duplicatas da farmácia iam vencendo sem que Dimas encontrasse meio de solucionar o problema que tanto o intranquilizava. Chegou a evitar os ensaios da Banda da cidade para não ser cobrado em público de suas responsabilidades pelos credores.
Os amigos lhe tinham em grande consideração, não fosse isso, já teria passado vergonha na Igreja, onde não ousava faltar. Mas àquela altura, era fato que os últimos recursos escasseavam e a amizade enfrentava um esgarçamento, já talvez sem volta.

Dimas passava horas a fio fazendo cálculos e mais cálculos, procurando saída da tão difícil situação.
Dia a dia a preocupação só aumentava. Na noite, já não mais pregava os olhos, sentado à escrivaninha, enfileirando cifra, imaginando operação salvadora que nunca chegava a bom termo, já que sempre falhava por falta do essencial, que era o dinheiro.

Certo dia, desesperado, foi à igreja em busca de oração e confissão.

A igreja  encontrava-se vazia e o padre nem na sacrestia estava. Dimas então, ajoelhou-se perto do altar e pôs-se a rezar sozinho, à espera do padre, quando uma mosca pousou em sua testa, incomodando-o.

Ele espalmou um violentíssimo tapa na testa, mas a mosca, mais esperta, voou de ré, de modo que Dimas estapeou-se diante de Jesus. Mas na sequência, a mosca maldita pousou mais à frente no altar e ali, diante dela, estava a cesta com as ofertas.

Alguém havia esquecido o dinheiro no altar. Ao alcance da mão, veja você.
Dimas olhou em volta e, sozinho com a figura de Jesus, que também estava de olhos fechados na cruz — é bom que se diga — considerou a mosca uma “mensageira do Senhor”.
Ali estava à oferta. Era só pegar. Ele se aproximou sorrateiro e, como uma sombra, pegou todo o dinheiro da cesta e meteu tudo nos bolsos.

Tão logo ele fez isso, ouviu, ao longe, um cantar de galo tão estranho que gelou sua alma.

Lembrou de Pedro quando negou a Cristo.
Fez o sinal da cruz e saiu correndo da igreja.
O dinheiro do furto, deu para comprar um pouco de carne. Mas era pouca. Não tendo coragem de contar à mulher o pecado mortal que havia cometido contra Deus, inventou que achou o dinheiro no chão.

Naquela noite, hora tardia, ele se mostrava deprimido pela difícil situação, e a esposa o aconselhou:

— Dimas, venha dormir. Não adianta te preocupar agora. Já passa de meia-noite, homem! Amanhã, com a cabeça fresca, há de encontrar solução.

De fato, era o melhor a fazer. Por isso, abandonou a escrivaninha e foi ao quarto. Mal apagou a luz e já ia se deitar quando viu nitidamente, na parede, uma curiosa aparição.
Era uma forma de sombra, um pouco distorcida pela luz que penetrava pela janela e atravessava as samambaias.

Mas a imagem, formada ali, era nítida.
Era um galo! Sim, um enorme galo que o olhava fixamente, de forma estranha, quase humana.
Lá fora, bem longe, um galo cantou novamente…

O inesperado da visão fez com que perdesse completamente o sono e, em vez de se deitar, Dimas, agora revestido de medo, quiçá certa euforia, voltou à escrivaninha e recomeçou a fazer cálculo e mais cálculo, escrevendo número e mais número, somando, subtraindo, dividindo, multiplicando, na louca tentativa de achar a solução ideal.

De repente, se apoderou dele uma espécie de sonolência, um torpor inexplicável, que fazia com que os algarismos começassem a dançar no papel.

Talvez fosse o sono. Comer carne demais de noite?
Não se sabe quanto tempo aquilo durou, mas começou a observar que, enquanto alguns números se tornavam imprecisos, como esfumaçados, outros ficavam mais claros e nítidos: Eram dois milhares que sobressaíam, nem pareciam traçados por sua letra.
Assim, de súbito, sem ter feito movimento, viu que um dos milhares estava riscado, restando apenas o outro, que ia se destacando mais e mais a ponto de Dimas a dizer em voz alta:

— 4751! 4751!

Sua própria voz o fez sair da sonolência e, já em seu raciocínio perfeito, associou o número à visão que tivera há pouco, na parede do quarto.

— 4751! Isso é o galo. Será um palpite da providência?

Finalmente, se recolheu ao leito, mas sem tirar da cabeça aquela coincidência.

Acordou molhado de suor, com um medo que lhe apertava o coração. Pensou no roubo na igreja. Era terrível. Como pôde ter feito aquilo? E diante de Jesus ainda por cima?
Jurou a si mesmo que iria reparar seu mal, doando o dobro. Aliás, o triplo do que roubara às obras da igreja tão logo saísse do prejuízo.

No dia seguinte, a imagem do galo e seu número correspondente lhe vinham à cabeça toda hora.

Então, convencido de que estava ali a mão da providência divina, empenhou a propria aliança de ouro, um presente dos seus pais na ocasião do casamento. Pegou todo o dinheiro e mandou jogar mil réis no galo.
Dimas estava decidido. Era sua última chance. Não desse certo, se jogaria na linha do trem à espera da morte, até porque não teria coragem jamais de revelar à mulher que jogara a aliança de casamento no Bicho. E ainda, de quebra, levaria para o túmulo a vergonha de roubar no altar.

Logo à tarde, o moleque de recados veio saltitante com espanto e alegria, trazer a boa nova: Deu galo naquele milhar e agora ele receberia cerca de 20 contos de réis!

Com o dinheiro pagou as promissórias e duplicatas que tanta dor de cabeça lhe traziam, encomendou novo sortimento pra sua desfalcada farmácia e teve, portanto, sua situação particular e comercial sensivelmente melhorada. Mandou vir de São Paulo um fagote novinho em folha, feito na França.

Tão feliz se achou que imaginou compensar o dissabor que sua esposa e suas duas filhinhas também haviam sofrido naquela temporada difícil.

— Minha querida, agora pode descansar um pouco. Que tal passar um mês em Cambuci, na casa de teus pais e levar nossas filhas?
A proposta foi aceita e pra lá foram as três, muito felizes.

Um mês depois, ele recebeu um telegrama informando a hora de chegada de sua querida família, indo aguardar na estação ferroviária de Campos.

Quando o trem entrou na gare, Dimas avistou sua esposa numa janela de vagão, com ar de grande aflição. Nervosa, gritava seu nome:
— Dimas! Dimas! Vem cá!

O advogado se dirigiu à janela, recebendo por ela a filha caçula desfalecida.

— Não sei o que aconteceu. Estava muito bem. Quando o trem entrou na estação sentiu algo e desmaiou.

Aflito, Dimas tomou a menina nos braços e saiu correndo, desvairado, pensando em a levar a algum lugar onde a pudesse socorrer. Mal tinha dado alguns passos, parou com aperto no coração.

Sentiu a filhinha morrer em seus braços!
Ela não respirava.

Não há palavras pra descrever sua dor. Passados os primeiros momentos de desespero, Dimas tomou as providências necessárias, quase automaticamente.

No dia seguinte, na hora do sepultamento, foi pagar à administração do cemitério o túmulo da filha.

Ao receber do funcionário o documento competente foi tomado dum tremor compulsivo e caiu em prantos, arrasado pela fatalidade que via ali.

O número do túmulo era 4751.
E então, Dimas ouviu um macabro galo cantar ao longe.

FIM

*Essa é uma adaptação de uma história de assombração muito antiga.