O segregado do metrô

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a close up of a book with some type of text

Eu estava distraídamente ouvindo meu mp3, atrasado para um compromisso em Copacabana. Na falta de van acabei pegando um busum. Me ferrei. O busum estava lotadaço, a ponte abarrotada de carros. Acidente na perimetral. A hora passando…
Tomei a decisão. Quando o ônibus chegou em Botafogo saltei. Perguntei pro sujeito que encerava um taxi onde era o metrô e pra minha surpresa o metrô era há mais de um quilômetro dali. Sai feito louco andando na direção indicada. O som nos fones tocava um heavy metal alemão que eu achei no emule e nem sei o nome da banda, mas caía bem naquela situação punk.
Cheguei no metrô, paguei meu bilhete e desci as escadas. O metrô sentido zona sul estava quase saindo. Corri feito doido e entrei no vagão.
Fiquei alguns segundos ali esperando a porta fechar. Então senti um empurrão nas costas. Quase voei pra fora do metrô. Do lado de fora olhei achando que era alguma brincadeira “joselita” de um amigo meu qualquer. Não era. Eu tinha entrado no “vagão feminino”.
Antes que eu esboçasse qualquer reação, a porta fechou e vi o metrô saindo, o que me deixou sigularmente puto, já que com o engarrafamento, a falta de van, o acidente na perimetral e a descida no ponto errado, já acumulava o maior atraso. Ser segregado é uma sensação nova na minha lista de sensações embaraçosas urbanas. Como não sou gay, nem preto, nem gordo nem argentino, não sabia direito o que é ser segregado até quele empurrão, delicado como um segurança de baile funk sabe ser.
Olhei em volta, nenhuma placa. Nenhum aviso. Não me falaram nada. Eu não falei nada.
E se eu fosse um turista? Alguém que não é da cidade? O Rio se acha uma cidade de apelo turístico. Ok, ok, a ZONA SUL do Rio se acha. Mas o metrô era Zona Sul. Sem placa, sem avisos. Com direito a safanão.
Outra coisa, Será correto criar um vagão das mulheres? Bom, não dá pra dizer porque nos trens dos subúrbios é uma zona geral. Os caras passam a mão e tentam agarrar as mulheres. Isso é um ato de violência. Deveria ser tratado como tal. Mas o poder público diante de sua incompetência tradicional sanciona lei obrigando ao administrador das linhas ferroviárias definir um vagão para as mulheres. A exemplo citam casos como a China, que faz isso também.
Ok, na China come-se cachorro. Aqui não. O que vale lá tem que valer aqui? Então, que comece pelo que dá melhor resultado, a pena de morte para político.
Violência devia ser tratada como violência. Criar um vagão só de mulher é “maquiar o cocô”, atividade em que o Brasil é dos melhores do mundo. O lado pior disso é que gera uma sensação de impunidade nos “passadores de mão” dos trens. Já que as mulheres foram para um vagão só delas, o que restou (que na verdade é misto) passa a ser considerado o “vagão dos homens” e quando lota o das mulheres, as poucas que se arriscam no vagão dos homens podem estar sinalizando para o inconsciente coletivo a permissão para ser abusada.
O que me intriga também é como que uma lei desse tipo pode funcionar. Afinal, os ônibus são mistos. Não tem ônibus pra mulher. Então ela sai do metrô e pega o ônibus. Como sempre, lotado. No ônibus pode encoxar e no trem não? Que lei pirada.
Os encoxadores do trem se beneficiam do fato de que neles as pessoas vão acondicionadas como frangos, em pé, sem qualidade e nem conforto. O crescimento desordenado da cidade e a falta de planejamento político e estratégico vem gerando um mal-estar na sociedade que só aumenta. Some-se a isso a falta de educação crônica que assola as zonas periféricas das grandes cidades e temos a receita para o caos urbano em que vivemos. O que deveria ser feito é um estudo para evitar o transporte de pessoas dessa maneira. Há pessoas demais, transporte de menos. Por trás do desconforto de viajar em pé está a lucratividade dos acionistas e donos dessas linhas. O certo era ter lugar pra todo mundo ir sentado.