O último Balão – Parte 1

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shallow focus photography of books

 

Até aquele dia, Andreas achava que as coisas não poderiam ficar pior. A falta de grana depois que ele havia sido demitido da Rapp Collins numa reestruturação da agência, levou sua vida a um ponto questionável em termos de qualidade.

Sem trampo para redatores em todas as agências que procurou, Andreas acabou encontrando algum trabalho bem longe dali. Suas chances estavam numa nova agência de nome estranho, que se chamava Lemniscata e que estava contratando, mas dessa vez, era no Rio de Janeiro.

Andreas Hamann Fige não pensou duas vezes. Largou toda a vida e amigos em São Paulo para emigrar para o Rio. Chegou a rolar uma cervejada em sua despedida. Dias depois, Andreas Fige chegava ao Rio. Mal chegou, se ajeitou mais ou menos como deu no apartamento emprestado da tia de um amigo que trabalhava com ele na Rapp Collins.

Era um apartamento pequeno que ficava em Niterói. Num bairro longe de tudo, chamado Fonseca, mas que pelo menos era barato o suficiente, e ficava perto da Ponte que ligava a cidade do Rio de Janeiro a Niterói.

Andreas estava com hora marcada. Correu para a Agência que ficava num grande edifício bem na praia de Botafogo. Foi atendido por uma das sócias da agência, uma mulher loura e muito bonita, que poderia estar na capa da Vogue ou qualquer revista de moda do mundo. Ela cumprimentou Andreas Fige e indicou que ele se sentasse numa bela poltrona com design italiano.

O nome dela era Mellissa Wollner e era difícil prestar atenção no que ela dizia. Atrás da Melissa estava uma vista espetacular do Pão de Açúcar, debruçado sobre a Marina da Glória. Era uma visão de tirar o fôlego. Era tudo lindo. Andreas esqueceu-se das pichações ilegíveis e dos prédios escurecidos de Sampa. A Cidade Maravilhosa lhe abria os braços da melhor maneira.

Melissa Wollner contou a ele que o nome Lemniscata significa aquele oito deitado que também é o símbolo da magia e do infinito.

-…É porque antes a agência se chamava Infinitus. Mas sabe como é. Os sócios brigam e…

-Sei como é… – Ele disse, sem tirar os olhos dos lábios perfeitos da loura descendente de alemães.

A felicidade durou pouco. Após examinar o portfolio de Andreas, Melissa lhe deu as más notícias. Na lata e sem rodeios. O perfil dele era ideal para a vaga de redator, mas a vaga havia sido preenchida por um parente de um dos sócios dois dias antes.

E foi assim que o mundo de Andreas Hamann caiu.

Melissa viu no semblante dele o retrato materializado da decepção. Andreas estava certo de que já “estava dentro”. Havia passado por duas etapas de entrevistas pelo telefone.

-Sei que não são boas notícias. – Ela disse, acendendo um cigarro.

Andreas concordou, tentando esboçar um sorriso frouxo. – …Não sei como vou fazer para pagar tudo que investi para mudar pro Rio… Tô fodid*, ops, desculpe.

-Tudo bem. É uma bosta mesmo. A gente estava crente que você ia entrar para nossa equipe, mas não consigo abrir uma vaga só pra você. A Lemniscata tá começando agora. Sabe como é.

-Certo. Tudo bem. Obrigado mesmo assim. – Disse ele, pegando a pasta sobre a mesa de vidro jateado para sair.

-Olha. Espera. Eu tenho um amigo.  O nome dele é Genésio Vargas. Ele está precisando de um assistente de fotografia, cara. Você sabe fotografar?

-Se eu sei? Eu já ganhei até prêmio. Tudo bem que foi prêmio do Sesc de Marília, mas…

-Não deve ser muita grana, mas ele está fazendo um trabalho de fotografia aqui no Rio, com patrocínio do Ministério da Cultura. Ele está com uma vaga de assistente. Não é moleza, já aviso logo. É pra ir em morro, favela, lugar barra pesada. Estive com ele ontem num aniversário e ele me disse se eu podia indicar alguém aqui da agência, mas eu não vou muito com a cara do sujeito lá da arte que saca de fotos. Eu posso te indicar. Aí você vai aguentando nisso até eu conseguir abrir uma vaga de redator e te chamar. Eu acho que em dois meses devemos conseguir viabilizar essa vaga. Os outros sócios estão empenhados numa conta muito grande que não posso contar qual é por questão de confidencialidade, mas é coisa grande. Se fechar, vamos abrir umas quatro vagas de redator de cara. Topa?

-Já topei. Como faço?

-Você tem equipamento?

-Pô, não tenho. Estava tudo em Sampa.

-Tá. Calmaí. – Ela disse, pegando o celular.

Depois de discar alguns números, finalmente o tal Genésio atendeu.

Melissa Wollner explicou a situação de Andreas para o tal Genésio, que concordou em receber Andreas para uma conversa. O escritório era na casa do sujeito, lá no alto de Santa Tereza. Melissa anotou o endereço para ele num papelzinho.

-Toma, vai lá. Ele está esperando você agora.

-Agora?

-Já!

-Então é como dizem aqui: “Já é!”

-Boa sorte Andreas! – Disse a loura, sob o grande símbolo dourado do infinito que decorava o alto da porta da Agência.

-Obrigado pela força aí Melissa! – Ele respondeu, se apressando para saltar no elevador. Na rua, pegou um ônibus direto para Santa Tereza.

O ônibus rodou durante um bom tempo o centro do Rio. Andreas ficou impressionado com o tour barato que estava fazendo. Viu os arcos da Lapa, o bondinho, a catedral do Rio… Pegou o bonde perto do prédio do Banco do Brasil. Andreas nunca havia andado num bonde na vida e começou a pensar em como poderia ser divertida a vida no Rio.  Pelo menos até entrarem no bonde dois sujeitos mal encarados que pareciam analisar um a um em busca de vitimas para assalto. Felizmente os marginais pularam do bonde antes de chegar nele.

Quase uma hora depois do início da jornada, ele desembarcava, sob o sol escaldante da hora do almoço. Andou um pouco e se viu diante da porta da casa de Genésio. A fome era torturante, mas ele mal tinha dinheiro para comprar um salgadinho.

A campainha estava quebrada. A parede cheia de pichações lembrava sua “quebrada” em Sampa. A solução foi esmurrar a porta. Minutos depois, surgia um homem careca numa janela bem acima dele.

-Já ouvi, porra! Já vou abrir. “Guenta” aí!  – Disse o careca.

A porta se abriu num supetão.

-Que foi? – Perguntou um careca pálido com olheiras que parecia saído de um filme de terror do século XIX.

-Eu estou procurando o senhor Genésio… É…

-Genésio Vargas. – Respondeu o careca.

-Sim, isso mesmo. Que bom. Então, eu sou o Andreas. A Melissa falou com o senhor e…

-Não me interessa. Sinto muito. Adeus. – Disse o homem, batendo a porta no rosto de Andreas.

Ele ficou ali, esperando. Não era possível.

Que homem maluco?! Como se bate à porta assim na cara de alguém que ele nem conhece?

Andreas pensou em ir embora. Mas algo lhe dizia que deveria insistir.

Voltou a bater na porta. Na terceira batida, a porta se abriu. O careca olhou pra ele com uma expressão vazia.

-Acho que o senhor não entendeu quem eu sou. Não sou vendedor não. Estou aqui pela vaga de assistente. – Andreas disse rápido, tentando ser direto.

O careca tentou novamente bater à porta na cara dele, mas dessa vez, Andreas havia colocado o sapato na reta do caixonete e ela não fechou.

-Por favor, senhor, eu insisto que o senhor me escute! – Disse Andreas segurando a porta.

Para espanto dele, o homem careca largou a porta numa sonora gargalhada.

-Muito bem, muito bem!  – Ele disse, com um largo sorriso. –Você passou. Vem.

Andreas não entendeu. O Careca fez sinal para que o seguisse. A casa era escura. Andreas mal conseguia ver os degraus de madeira escura naquele breu. Subiram para o segundo andar. Ali estava um apartamento muito bem decorado.

-Sente-se à mesa que eu já venho. Você come porco?

-Hã?

-Come ou não come, porra?

-Como sim.

-Ótimo! Disse Genésio. Ele foi até a cozinha. Era uma cozinha americana. Andreas ficou olhando o apartamento, repleto de fotos em todas as paredes. Algumas diminutas, outras gigantescas. Entre as fotos, alguns troféus, prêmios e coisas assim. Não tinha uma só foto mais ou menos. Era só obra de arte. Numa cristaleira no canto da sala, havia pelo menos umas vinte câmeras antigas de todos os tipos.

-Andreas, né? – Perguntou o Careca, estendendo um prato para ele.

Era feijoada.

-Sim senhor. Mas eu nunca conversei de trabalho comendo feijoada.

-Tudo tem uma primeira vez. A Melissa disse que você sabe fotografar, que já ganhou prêmio. Sabe mesmo? No manual? Já usou câmera de filme?

-Sim, eu usava câmera de filme enquanto tinha lugar pra revelar… Depois que tudo acabou e…

-Esquece. Foda-se a câmera de filme. Quem gosta de passado é museu, meu filho.  Bom, tudo bem… Vamos recomeçar. E aí? Tá gostoso? Cê tava com fome, né?

-Uma delícia. Desculpa o mau jeito ali na porta, hein?

-Não esquenta. Eu faço isso para testar mesmo. Não posso correr risco de ter um assistente que não seja insistente, que não tenha certeza do que quer. A maioria vai embora depois do teste da porta na cara. Você foi o único que meteu o pé.

-É que estou precisando mesmo, sabe?

-Ok. Você está dentro. Parabéns.

-Mas assim?

-Queria o que? Um beijinho? Tá dentro ué. Vamos trabalhar rapaz. Você começa hoje.

-Mas o senhor não vai ver nem meu portfólio?

-Primeiramente, o senhor é a puta que o pariu. Depois, confio plenamente na Melissa. Se ela te indicou, “você é o cara”. Só pelo teste da porta vi que era mesmo. Agora bebe aí essa caipirinha de caju que veio direto da Paraíba! Essa é da boa! E se não me chamar de você, na próxima te dou porrada!

Andreas concordou com a boca cheia de feijão.

Depois do almoço, os dois trataram do projeto. Era um projeto dos sonhos. Como Melissa Wollner havia dito, a grana era pouca, mas daria para aguentar as pontas até achar uma vaga de redator publicitário.

-Já aviso logo que trabalhar comigo é uma merda. Sou exigente pra caralho. Eu vou vetar a maioria ou quem sabe todas as suas fotos. Por isso quase ninguém quer trabalhar comigo. Eu confesso que sou um pentelho encravado. A menos, é claro que você seja um gênio. Você é?

-Eu sou o que?

-Um gênio. Você é?

-Não sei, acho que não.

-Espero que seja. Mas isso veremos. Bom, sua primeira missão é fazer uma foto do amanhecer. Sabe o que é a Golden Hour Andreas?

-Sei sim. A hora que o sol nasce e que se põe quando a luz fica dourada.

-Isso aí. Você vai lá em Niterói. Sabe onde fica Niterói?

-Sei. Tô morando lá.

-Perfeito. Então você vai subir hoje à noite numa montanha chamada “Costão”, que fica na praia de Itacoatiara. Vai escalar aquela porra. Foda-se como. Dê seu jeito. Você vai chegar lá em cima e vai acampar lá. Eu quero as melhores fotos do nascer do sol que você conseguir fazer. E pelo menos umas vinte do monte mourão e da Pedra do Elefante.

-O senh… Você não vai junto?

-Não. Eu não posso. Sofri um acidente há seis meses. A sua vaga é justamente para ir nos luares que eu não posso ir, ou porque é perigoso pra caralho, tipo favela ou porque eu não conseguiria escalar.

-Mas então, o meu equipamento está lá em…

-Esquece. E tenho tudo aqui. Toma,  pega essa mochila aí. Tem tudo que você vai precisar aí. Vai lá, sobe naquela merda. Faz as fotos e volta aqui para eu ver. Se eu gostar te passo outra missão. Se não gostar você vai voltar lá e começar tudo de novo. Vê se não vai morrer, hein? Sacou tudo?

-Saquei.

-Mete bronca, rapaz! Anota aí pra mim os dados da sua conta para eu depositar sua ajuda de custo.

Horas depois, Andreas estava desembarcando em Niterói com duas mochilas enormes. As coisas não estavam seguindo como o planejado, mas ainda assim, ele não podia dizer que elas não estavam dando certo.

Ele pegou um ônibus para a praia de Itacoatiara, que era o local onde poderia subir para a tal pedra. Precisou perguntar numa padaria. Aproveitou para comprar duas garrafas de água. O homem do balcão apontou a direção com uma caneta. Ele estava muito longe ainda. Andou feito um condenado até chegar na subida. Estava entardecendo rapidamente. Andreas sabia que se demorasse poderia perder a hora dourada do entardecer. Genésio queria fotos do amanhecer, mas ele sabia que aquilo também poderia ser um daqueles “testes”.  Por que desperdiçar uma Golden hour se ele poderia registrar duas?

O local de acesso à montanha ficava escondido numa ruazinha sem sinalização. Ele começou a subir a trilha, conhecida como “trilha do costão”. A subida logo se mostrou um tremendo aperto. As duas mochilas com equipamento fotográfico e colchonete que ele trazia consigo iam aumentando sua carga a cada passo.

CONTINUA AMANHÃ