Meu amigo Otávio está preocupado comigo. Ele e alguns outros. As pessoas acharam estranho que eu tenha sumido, assim, do nada.
De fato, estou há vinte dias mais ou menos sem escrever aqui, e pra quem faz até cinco posts por dia, isso significa posts pra caramba que não nasceram. Mas é claro que eu devo ter um bom motivo, certo?
Ameaças, novas operações secretas aqui na CIA, ou pior, uma depressão?
A verdade é que eu sumi mesmo, e eu arrisco parecer mais maluco do que eu já sou ao dizer que nem eu mesmo sei o motivo.
Eu estava aqui o tempo todo, a um clique de distância de um post, mas não fiz, porque eu não estava a fim. Tavinho se preocupou porque viu que resolvi sair das redes Sociais nesse dia aqui:
E como os posts aqui pararam quase juntos, ele temeu que eu tivesse desistido, “jogado a toalha” de uma vez e “pendurado as chuteiras”.
Eu sumi porque eu sou livre. Não há lei nem dinheiro que me obrigue a escrever com constância. Não há força mágica que me obrigue a ficar na rede social do pilantra do Mark Zuckerberg.
Eu sinto que às vezes, é importante se retirar um pouco para pensar. Eu acho que foi o caso. Tirei uns dias para pensar, e assim, pensei pra caralho hahahaha.
Sigo trabalhando nos meus projetos e degustando o amargo sabor do fracasso antecipado. Estou falando do meu curta, “O sobrevivente”.
Se bem que é capaz de bater uns 45 minutos de tela, eu tô achando que não pode nem ser chamado de curta mais.
Aquela ideia de que finalmente a inteligência artificial generativa estaria madura o suficiente para que eu pudesse tentar fazer um projeto a sério com ela, pode ter sido um arroubo de inocência tardia em um homem de 50 anos. Tá muito difícil, mano.
Mas eu sou uma merda quando encasqueto com uma ideia, e eu resolvi fazer O Sobrevivente, aquela história de 2003* publicada aqui no blog em 2010 como um filme pra valer. Então, contrariando toda a lógica que me obrigaria a tomar vergonha na cara e arrumar trabalho para botar dinheiro na conta e pagar boletos, eu inventei de fazer um filme sozinho, do meu bolso, sem investidores nem apoio de ninguém. É meio que “O campo dos sonhos” isso. Pra que? Não sei. Não consigo evitar, não consigo resistir. Talvez seja esse o meu jeito de não enlouquecer num mundo doente.
O filme é deprimente; não termina feliz. E claro, eu vou ter uma trabalho DO CARALHO de fazer ele pra no final, todo mundo dizer “odiei”. Estou ciente. Motivos não faltarão:
Uns odiarão porque termina mal. Não tem final feliz.
Outros odiarão pela estética, suja, velha e oxidada no espaço. Dirão que copiei Aliens.
Outros odiarão porque fiz com IA (a modinha do neoludismo ta foda. Nos EUA eles estão até ameaçando matar a família de quem usa IA para fazer coisas. Já, já esses otários da modinha do ódio estarão por aqui também) fora a galera do “Não vi e não gostei” que sempre tem. O quê? Brasileiro fazendo filme com nave, robô e os caralho a quatro? Sem favela? Sem polícia? Sem humor patético? Sem ator da Vênus platinada? Sem crítica social militante? Não pode!
Mas talvez, o que vai causar o maior estranhamento é que eu decidi fazer o filme em sérvio.
Em sérvio. E eu nem sei falar sérvio! Talvez eu nem saiba apontar a Sérvia num mapa. (mentira, eu sei, fica do lado da Bósnia)
Por que? Porque sim. Porque eu sou livre. Não abro mão de ser livre. Se eu quiser usar IA, eu vou usar. Se eu quiser fazer o filme em sérvio, eu vou fazer.
Que lei invisível maluca é essa que eu tenho que fazer o meu filme na língua do meu país, ou pior e mais detestável ainda, na língua do Tio Sam?
Eu contei que estava com essa ideia para o Roberto, meu vizinho. Ele me olhou, perplexo: “Em sérvio? Ninguém vai entender nada!” Sentenciou.
Ele está certo. Eu tomo banho todo dia pensando nisso. Eu acordo na madrugada e penso nisso. E é estranho pra cacete, mas essa é uma motivação. E eu me interesso por ficar pensando no motivo real disso me satisfazer e talvez o motivo seja desafiar os limites. Eu já fiz música em chinês, já fiz música em russo, então um filme em sérvio, não parece tão fora do cardápio assim.
A decisão de fazer a história em sérvio tem um sentido na parada: O meu curta está no mesmo universo ficcional de Alien. Porém, diferente da Nostromo, que é uma espaçonave do povo do Tio Sam, a minha é um tipo de cacareco velho neosoviético com muitos problemas e defeitos. O próprio período temporal em que ocorre meu filme é estranho, na medida em que a nave é muito anterior a Nostromo, mas o filme se passa muito, muito depois, quando o ser humano já nem existe mais, num cosmos caminhando para seu próprio final.
A espaçonave, chamada de “escritor da liberdade”, era somente uma nave de sensoriamento espacial em busca de planetas mineráveis/exploráveis. Quem está por trás é um tipo de nova União Soviética retrofuturista, que vicejou no ano de 2250, como um tipo de volta ao sistema geopolítico de superpotências. Isso vai aparecer em pôsteres de propaganda dentro da nave, em roupas nas cores, no estilo meio brutalista da nave… E no robô. Se, de um lado, o robô de Aliens, Ash, visa ser uma réplica humana perfeita. O robô de O Sobrevivente é um robô que não nega sua condição robótica, embora ainda mantenha a estrutura humanoide e, até pateticamente, eu diria, tem peitos e uma cara de mulher plastificada — cuja boca nem sequer se mexe — e está mais para um manequim que anda por aí do que para algum droid carismático como o C3Po.
Aude (o nome desse robô) é assim porque quando foi criado, não havia ainda a tecnologia para fazer um Ash. Então, ela é de uma geração robótica bem anterior, cuja função principal é o reparo externo de danos ao casco.
Essa decisão de design visa deliberadamente desumanizar o robô, já que eu ultima instância, essa é uma história sobre a humanização da inteligência artificial, e talvez por isso, seja uma proposta atual, e ainda por cima, o fato dela ser feita com IA, é um elemento interessante na proposta geral, cujo tema e substrato inerentes à obra, comungam dessa hóstia macabra da tecnologia, que mudou o mundo e nos faz duvidar da realidade a cada dia.
Meu amigo Diogo Monteiro topou ser o ator de O Sobrevivente. A atriz será a querida Mariângela Serra que também canta a música (em sérvio, claro) que eu compus. Aqui está uma das músicas:
Até eu mesmo farei uma pontinha. (eu queria que fosse o Rogério Skylab, mas não consegui falar com ele)
Enfim, é isso. Não sei se vou conseguir sair do outro lado desse projeto, porque ele está muito difícil. Mesmo que dê certo, talvez seja odiado, mas esse é o preço da liberdade. E eu vou pagar.
*é sempre bom deixar BEM CLARO: Escrevi essa porra em dois mil e três. Quando vierem falar que copiei “O devorador de estrelas” porque a tripulação morreu e só sobrou o protagonista – fato que é o CORE dramático do meu curta de 2003 publicado na internet de graça para qualquer um ler – eu vou ficar puto!







