As Balas do Juízo Final

22102011 | Mundo gump | balas, blog, mundo gump

O trânsito da cidade tem dessas coisas, né? Você fica ali, vidrado no sinal vermelho, pensando na conta do mês ou no que vai fazer pro jantar, quando de repente… um vulto. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Um movimento rápido do lado do carro, e meu coração deu aquele pulo clássico, aquele susto pré-assalto que todo mundo que dirige em metrópole conhece bem. Mas antes que eu pudesse reagir, o sujeito já tinha sumido. E aí, olhando pro retrovisor, vejo a surpresa: um saquinho de balas pendurado no espelho, balançando levemente.

Saquinho de balas coloridas pendurado no retrovisor de um carro

Peguei o saquinho. Era um mix daqueles doces coloridos, daqueles que a gente comprava na cantina da escola. Mas o que realmente me pegou foi o bilhete preso com um elástico. Escrito à mão, com letra meio corrida, dizia: “Vendido por Luis Henrique. No dia do Juízo Final, quem tiver uma dessas balas terá prerrogativas e a primeira dama também. Valor: R$ 1,00.”

Agora me diz, sério. Lendo uma mensagem dessas, qual é a chance do tal Luis Henrique, empreendedor de balas inusitadas, um dia fundar a sua própria igreja ou seita? Eu arrisco uns 99,9%. Tem toda a cartilha do profeta moderno ali: a promessa de salvação em troca de um bem mundano (e açucarado), a inclusão de uma figura de autoridade (“a primeira dama”) pra dar um ar oficial, e o preço simbólico que funciona quase como um dízimo. É marketing divino de primeira linha, saca só que maneiro.

Claro que eu comprei. Duas, pra ser mais preciso. Afinal, quem sou eu pra duvidar das prerrogativas no dia do Armagedom? Melhor prevenir do que remediar, e pelo preço de um café, eu e a (futura hipotética) primeira dama garantimos nosso lugar privilegiado no fim dos tempos. Fiquei imaginando a cena: o caos se instala, as trombetas soam, e eu, tranquilo, oferecendo uma bala de morango pra besta do apocalipse. “Calma aí, tenho o ingresso vip aqui, olha o bilhete do Luis Henrique.”

A Estranha e Longa História do Fim do Mundo

Essa história toda me fez pensar em como a humanidade é fascinada — e empreendedora — em relação ao fim de tudo. O Juízo Final, ou o Armagedom, é um conceito que atravessa culturas e religiões há milênios. Na tradição cristã, ele é descrito no Livro do Apocalipse, o último livro da Bíblia, cheio de simbolismos complexos sobre a batalha final entre o bem e o mal. Mas a ideia de um fim catastrófico e renovador não é exclusividade de uma só fé.

Os nórdicos antigos, por exemplo, já previam o Ragnarök, uma série de eventos apocalípticos que incluía uma grande batalha e a morte de vários deuses, seguida por um renascimento do mundo. Já os maias, famosos por seu calendário que alguns interpretaram (erroneamente) como a previsão do fim do mundo para 2012, tinham ciclos de criação e destruição. É como se a gente, coletivamente, precisasse da ideia de um recomeço radical, mesmo que ele passe pelo colapso total.

E o mais curioso é como esse medo — ou essa expectativa — vira oportunidade. Seja através de grandes movimentos religiosos, livros best-sellers ou, no caso mais prosaico do Luis Henrique, de um saquinho de balas no retrovisor. A gente paga por um conforto, por uma garantia contra o desconhecido. É um negócio antigo.

Do Apocalipse ao Açúcar: O Que Fica?

No fim das contas, a experiência com as balas do juízo final foi mais do que uma anedota engraçada. Foi um lembrete bizarro e saboroso de como a gente lida com as grandes questões. A morte, o fim, o desconhecido… são temas pesados, difíceis de encarar de frente. Então a gente humaniza, banaliza, transforma em algo que cabe na palma da mão e pode ser comprado por um real.

Talvez o Luis Henrique tenha achado apenas uma forma criativa de vender seus doces. Ou talvez ele seja, de fato, um visionário que entendeu o espírito do nosso tempo. Num mundo cheio de notícias catastróficas e ansiedades globais, a sua proposta é simples: não importa o que vem por aí, tenha algo doce pra passar o tempo e um bilhete que te garanta uma saída honrosa.

Eu, particularmente, acho genial. É um troço tão nonsense, tão brasileiro na sua gambiarra teológica, que chega a ser poético. Enquanto aguardo o dia do juízo, minhas balas estão aqui na gaveta. Já até pensei em emoldurar o bilhete. Afinal, num mundo cada vez mais complexo, há um certo alívio em depositar suas esperanças de salvação num vendedor anônimo de balas e na sua promessa escrita à mão. É isso ai, valeu.

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1 Comentário

  1. Madaraguidoni

    pelo menos nao era de fuzil ………..ne!!!!!!!!!!

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