Sozinho com meu giz pastel
Desenhei seus lábios no papel
Marquei seus olhos cor de céu
Acariciei seu corpo a pincel
E nas voltas que o mundo gira
Pensava que tu eras mentira
Doce mistério de vampira
Delírio carnal que me inspira
Mas vi que tu eras verdade
desenhava com facilidade
toda tua sensualidade
Por medo matei meu amor clandestino
Rasguei o papel genuíno
Ser só era meu destino
Você já parou pra pensar em quantas histórias um simples pedaço de papel pode carregar? Às vezes, a gente rabisca um desenho qualquer, distraído, e sem querer acaba despejando uma parte da nossa alma ali naquela superfície branca. O poema “Soneto da mulher ilustrada” me pegou justamente por isso. Ele não é só sobre desenhar uma mulher; é sobre o processo tortuoso e lindo de dar forma a um desejo, de materializar um fantasma que vive primeiro na cabeça e depois, com medo ou coragem, ganha contorno no mundo.
O giz pastel, o papel, o pincel… são ferramentas humildes, né? Mas nas mãos certas (ou melhor, nas mãos de quem está cheio de sentimentos confusos), elas se transformam em varinhas de condão. O eu lírico do poema começa tentando capturar uma ilusão, uma “doce mistério de vampira”. Saca só que maneiro essa imagem: ele não está desenhando uma pessoa comum, mas um ser mitológico, um delírio. É como se ele tentasse pegar fumaça com as mãos, dando voltas com o mundo que gira, duvidando que aquela criatura pudesse ser real.
Mas aí vem a virada. A percepção de que aquela figura não é mentira, mas “verdade”. E pior (ou melhor): que ela sai com “facilidade” do seu interior para o papel. Essa é a parte que me dá um frio na barriga. Quando a arte flui fácil demais, é porque está vindo de um lugar muito profundo, muito verdadeiro. E às vezes, a gente tem medo dessa verdade que a gente mesmo cria.
O ato criativo e o medo do resultado
E é aí que a coisa fica pesada. O verso final é um soco no estômago: “Por medo matei meu amor clandestino / Rasguei o papel genuíno”. Caramba. O cara criou algo autêntico, “genuíno”, e a reação dele foi destruir. Não por ódio, mas por *medo*. Medo do que aquela criação representava, do amor proibido que ela simbolizava, da força dos próprios sentimentos. É uma cena dramática pra lá de poderosa: o artista contra sua própria obra, contra o espelho que ele mesmo pintou.
Isso me lembra um pouco a história da arte. Quantos artistas não destruíram obras porque acharam que não eram boas o suficiente, ou porque tinham medo da reação do público? O próprio Paul Cézanne, um dos pais da arte moderna, tinha crises de insatisfação e às vezes abandonava telas no mato. A diferença é que, no poema, a destruição não vem da insatisfação técnica, mas do pavor emocional. É um ato de auto-censura brutal.
E aí fechamos com aquele destino solitário: “Ser só era meu destino”. É o preço pago. Ao destruir a criação (e o amor que ela representava), o sujeito se condena à solidão. É um final amargo, que ecoa na gente. Faz a gente pensar nas vezes que a gente mesmo, por insegurança, “rasgou” uma oportunidade genuína, um sentimento real, antes mesmo de deixar ele existir de verdade.
Ilustrar não é só desenhar
O título já entrega: “Soneto da mulher *ilustrada*”. Ilustrada aqui tem um trocadilho maravilhoso. Claro, é a mulher que foi desenhada, ilustrada no papel. Mas também pode ser a mulher *ilustre*, culta, que inspira. A criação ganha uma vida tão própria que ela se torna uma entidade, uma musa que ao mesmo tempo é produto e causa do processo artístico. É uma relação complexa, uma dança entre quem cria e o que é criado.
No fim das contas, o poema fala de um ciclo que muitos criadores conhecem: o ímpeto de dar vida a algo, o êxtase da criação fácil e verdadeira, o medo súbito do poder daquilo que se criou e, por fim, a destruição ou o abandono. É um ciclo doloroso, mas incrivelmente humano. A gente se identifica mesmo sem nunca ter pegado num giz pastel, porque no fundo a gente está sempre desenhando e, quem sabe, às vezes rasgando, as figuras dos nossos próprios afetos.
É isso ai. O papel aguenta a tinta, mas será que a gente aguenta o que o papel revela?

clap clap clap
Tu que escreveu?
Sim.
Tá um pueteiro de primeira! :B
hahahaha valeu.
Uma coisa que dá a maior diferença em um poema é o ritmo: você pensar na seqüência de sílabas fortes e fracas.
Neste aqui o primeiro verso de cada estrofe é sempre sáfico (4a., 8a. e 10a. sílabas fortes), mas os outros são jambos (fraca-FORTE) regulares:
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão — “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria…”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — “Por que não vieram juntos?”
Muito legal. Vou pegar emprestado.