A rotatória da Hungria

A Rotatória Inútil da Hungria: Quando a UE Financiou um Monumento à Burocracia

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Se você voar sobre a região de Zalaegerszeg, no oeste da Hungria, vai se deparar com uma imagem surreal: uma rotatória perfeita, impecável, pavimentada e pintadinha, uma obra-prima da engenharia, plantada no meio de um campo verde, sem estradas conectando de fato a lugar nenhum.

Parece cena de filme de ficção científica ou um erro de GPS. Na verdade, é um clássico exemplo de infraestrutura fantasma.

Bem-vindo à agora famosa rotunda inútil da Hungria.

A promessa perfeita

Tudo começou com um plano ambicioso. Em fevereiro de 2021, o ministro das Relações Exteriores húngaro, Szijjártó Péter, anunciou a construção de um grande centro logístico e terminal de contêineres da empresa Metrans (uma das maiores operadoras logísticas da Europa Central) perto de Zalaegerszeg.

A ideia era excelente: criar um hub que recebesse contentores vindos por via férrea do Mar Adriático e os distribuísse rapidamente para o norte — Eslováquia, República Checa e Polónia — sem precisar passar por Budapeste. Menos congestionamento na capital, mais eficiência logística e desenvolvimento regional. Parecia um projeto vencedor, né? Né?

O município de Zalaegerszeg não perdeu tempo: solicitou fundos não reembolsáveis da União Europeia para construir a via de acesso e a rotunda que daria entrada ao futuro terminal.

A rotatória chegou… Já o terminal…

Em 2023, a rotatória ficou pronta. Custo: cerca de 1,25 milhões de euros vindos diretamente dos contribuintes europeus.

O problema? As obras do terminal de contêineres nunca começaram. Três anos após o anúncio inicial e dois anos após a conclusão da rotatória, o terreno do suposto centro logístico continua vazio. Não há guindastes, não há linhas de ferrovia  sendo instalados, não há movimento. Apenas a rotatória, orgulhosa e solitária, girando em torno do nada.

Vista de cima, ela é quase poética: um círculo perfeito de asfalto que simboliza como grandes promessas governamentais às vezes terminam — fechando em si mesmas sem levar a lugar algum.

O que ela nos diz?

Casos como esse não são exclusividade da Hungria. Países por toda a Europa têm exemplos de estradas que não levam a lugar nenhum, aeroportos sem aviões e portos sem navios. Aqui mesmo no Brasil temos nossas obras parecidas… Mas a rotatória de Zalaegerszeg ganhou fama especial pela sua clareza visual: é difícil esconder uma estrutura redonda no meio de um campo.

Ela levanta questões importantes:

  • Como fundos europeus são fiscalizados quando o projeto principal ao qual se destinam nem sequer sai do papel?
  • Qual o custo real (econômico e político) de promessas de infraestrutura que viram elefantes brancos?
  • E, mais importante: quem presta contas quando o dinheiro é público, mas o resultado é zero?

Enquanto isso, a rotatória continua lá. Talvez um dia o terminal saia do papel. Talvez vire atração turística (“venha tirar foto na rotatória mais inútil da Europa!”). Ou talvez continue sendo o que é hoje: um monumento involuntário à distância que existe entre anúncio, presepada política, verba liberada e obra entregue.

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