A vida de um escultor não raro é pontilhada de histórias curiosas, trágicas e pitorescas. Às vezes, tudo isso junto. Esse foi um dos casos mais bizarros – e tristes da minha carreira de modelador. Um dia um cliente meu que já comprava algumas esculturas comigo me procurou com uma ideia mirabolante: Queria a Torre Barad Dûr (a famosa torre do Sauron, do Senhor dos Anéis). Mas ele queria enorme, e queria que ela acendesse aquele olho e que o olho olhasse pras pessoas, e queria – veja bem – ele queria que eu fizesse o olho do Sauron com um HOLOGRAMA.
Expliquei que o problema seria o tal holograma. Modelar a torre ultra detalhada já parecia desafiador o suficiente (era pro aniversário da mulher dele e tínhamos poucos dias) pra me enlouquecer e mais um holograma era quase certeza de que eu iria aposentar por invalidez. Mas ele queria. E eu orcei. Achei uma empresa da Malásia que fazia aqueles hologramas de ventilador, só que não tinha na escala de que precisava, o que me obrigaria a aumentar em umas oito ou nove vezes a escala da miniatura, hahahaha (e o preço). Quando eu falei o preço, ele concordou que “devido ao tempo exíguo era melhor apenas um olho do Sauron que ficasse pegando fogo” (veja bem, PEGANDO FOGO) no alto da miniatura.
Mais uma sugestão que talvez uma escultura que botasse fogo na casa dele, poderia ser pouco seguro e aí concordamos então em um olho do Sauron que brilhasse como se fosse fogo. “Sabor fogo”, sabe como é. Mas ele também queria uma “lava de verdade” no fosso da torre e eu… “Porra, de verdade?” E ele: “Dá seu jeito!”
No fim, consegui convencer meu cliente querido de que a solução melhor do que colocar algo com mais de cinco mil graus numa escultura, seria enfiar leds e fazer um tipo de acabamento em gel sobre eles que parecesse uma lava.
Sacramentamos como seria e meti a cara no 3d. Dado o ok e acertado o orçamento, lá fui eu modelar aquela peça complicada, olhando o filme e pensando como seria legal trabalhar na Weta. Dias depois, modelagem feita, peça cortada em mais de vinte partes, imprimindo uma a uma loucamente em FDM, dia e noite em cima da torre pra dar tempo do aniversário da mulher dele, saiu:
(na foto acima ela ainda não estava acabada.) Infelizmente meu hd apagou as fotos dela completa com o topos das torres de vigia que fiz em impressão de resina. A lava ficou ótima. O olho flicava com um arranjo de 3 leds que parecia mesmo estar pegando fogo. O cara adorou e como a mulher dele era louca por LOTR, ele ia presentear ela com a torre Barad Dûr dentro de um carro zerinho! Passado um tempo, voltei a falar com ele. Ele me contou o destino trágico da minha escultura: Ela jogou da janela.
Sem entrar em detalhes, apenas me disse que eles tiveram uma briga e ela TACOU TODAS AS ESCULTURAS que eu fiz pra ele da janela, num evento épico do condomínio.
E assim, esse foi o fim da Torre Barad Dûr.
O que será que o cara fez pra isso acontecer? Nunca saberei.


Fico impressionado com o nível dos casais.
Pra quê vai casar se for pra ficar brigando porra?
Solidão é péssimo. Mas casamento ruim é pior ainda.
Acho que não tem como generalizar são muitas variáveis, pessoas diferentes, momentos diferentes… O meu por ex. é tranquilaço.
Peça magnífica… Pena que ele pagou o preço por ter casado com uma pessoa com sérios distúrbios.