Imagina só: você está sozinho no topo de uma das montanhas mais altas e isoladas do Reino Unido. O vento uiva feito um louco, uma névoa densa e repentina envolve tudo, e de repente… você ouve passos. Passos pesados, três vezes maiores que os seus, ecoando nas pedras atrás de você. Não é um animal, pode ter certeza. A forma que se esboça na bruma é humanoide, mas colossal.
Bem-vindo ao reino de Fear Liath Mòr, o Grande Homem Cinzento de Ben Macdui.
Olha só, pra ser sincero, essa não é só uma lenda de vila qualquer; é um mistério que assombra até alpinistas experientes e cientistas durões há mais de um século. Incrível, né? Prepare-se pra uma escalada pelo desconhecido – e eu vou te contar tudo.
Ben Macdui: O Trono do Gigante
Antes de encararmos a criatura, a gente precisa conhecer seu suposto domínio. Ben Macdui (ou Ben Macdhui, como alguns chamam) não é qualquer montanha. Com seus 1.309 metros, é o segundo pico mais alto da Escócia e de todas as Ilhas Britânicas, perdendo só pro vizinho Ben Nevis. Tá localizada no coração das Cairngorms, uma região de planalto de beleza austera e clima simplesmente implacável – atrai caminhantes e alpinistas em busca de desafio e daquelas vistas panorâmicas de tirar o fôlego. Quem diria que um lugar tão bonito escondesse algo tão arrepiante?

A rota mais popular começa no estacionamento de Coire Cas, perto do centro de esqui de Cairn Gorm, e serpenteia por uns 7 km até o cume amplo e, muitas vezes, enevoado. A vila de Braemar, em Aberdeenshire, com sua população minúscula de pouco mais de 800 almas, serve como porta de entrada tradicional. Mas, olha só, por trás da paisagem deslumbrante e das atividades turísticas, espreita uma sombra que fez até os mais corajosos darem PT na cueca antes da trilha final. Já parou pra pensar no que você faria se ouvisse algo – não humano – lá no alto?
O primeiro encontro: Um cientista em fuga
Toda boa lenda precisa de um protagonista crível, e a história do Homem Cinzento tem um dos melhores. Em 1925, numa reunião do prestigioso Clube de Montanhismo de Cairngorm, o renomado professor John Norman Collie subiu ao palco. Collie não era um contador de histórias qualquer; era um cientista e alpinista de reputação impecável, famoso por expedições ao Himalaia e por contribuições à química. Particularmente, acho que isso é o que torna o caso tão fascinante.

O nome de Collie pode nos ser desconhecido hoje em dia, mas no final do século XIX e início do século XX ele era renomado não apenas como um alpinista altamente experiente, mas também como um químico pioneiro. O cara era simplesmente “o cara”, como dizem: Segundo seus amigos, ele era um especialista em arte chinesa e japonesa, uma autoridade em vinhos finos e charutos, um colecionador de livros raros e um conhecedor de pedras preciosas. Escrevendo no The Alpine Journal, o alpinista Geoffrey Winthrop Young revelou que os aposentos de Collie na Gower Street, em Londres, “estavam abarrotados de tesouros variados, em aparente caos”.

Nascido em 10 de setembro de 1859 em Alderley Edge, Cheshire, John Norman Collie era filho de John Collie, descendente de uma família de Aberdeen, e Selina Mary Winkworth, cuja família materna era originária de Kent. Ainda criança, a família de Collie mudou-se para Glassel, em Deeside, onde ele desfrutava de uma vida ao ar livre, praticando caminhadas nas montanhas e pescando. Frequentou a Charterhouse School e o Clifton College antes de ingressar no University College de Bristol para estudar química.
O professor de Collie no University College, E.A. Letts, levou Collie consigo como assistente quando se mudou para o Queen’s College, em Belfast, para assumir a cátedra de Química. Collie passou então um ano na Universidade de Würzburg, na Alemanha, onde obteve o doutorado em 1884. Uma das realizações mais incomuns de Collie era como soprador de vidro: à primeira vista, uma habilidade que não tem muita relação com a química, mas na Alemanha seus colegas ficavam impressionados com sua capacidade de criar complexos aparelhos de vidro para uso em seus experimentos. Um de seus alunos posteriores observou com interesse que Collie “invariavelmente soprava vidro com o cachimbo aceso na boca”.
Após lecionar ciências por três anos no Cheltenham Ladies’ College, Collie foi convidada pelo renomado químico Sir William Ramsay para trabalhar como sua assistente no University College London. Durante a última década do século XIX, Ramsay conduziu pesquisas inovadoras sobre os gases nobres. Em seu laboratório, argônio, hélio, criptônio, xenônio e néon foram isolados e emitiam uma gama de cores em tubos de descarga de vidro à medida que correntes elétricas passavam por eles. Esses tubos, construídos por Collie, foram os precursores das lâmpadas de néon.
Em 1895, Collie estava visitando Würzburg quando Wilhelm Röntgen descobriu o poder de penetração dos raios X. Röntgen produziu uma “fotografia de sombra” da mão esquerda de sua esposa, mostrando os ossos subjacentes com bastante clareza. Quando Collie retornou a Londres, ele usou a mesma técnica para fotografar diversos objetos, incluindo um peixe e uma cobra. Em fevereiro de 1896, ele obteve uma imagem nítida do polegar de uma mulher com uma agulha cravada. Acredita-se que esta seja obra dele a primeira radiografia tirada para fins cirúrgicos.
Collie foi nomeado Professor de Química Orgânica no University College de Londres, mas um conhecido certa vez comentou que ele era químico apenas nas horas vagas. Sua infância nas Terras Altas da Escócia lhe havia incutido um amor pelas montanhas, e ao final de cada semestre letivo ele retornava para lá com uma pressa que frustrava Ramsay, que preferia continuar trabalhando. (Aliás, os outros assistentes de Ramsay, Morris Travers e Alexander Kellas*, eram igualmente fanáticos por alpinismo e desapareciam com a mesma rapidez em todas as férias.) Uma vez nas montanhas, Collie não se contentou em seguir as rotas estabelecidas. Em março de 1894, com dois companheiros alpinistas, ele fez a primeira ascensão (e a primeira ascensão de inverno) da Tower Ridge em Ben Nevis; essa escalada de 600 metros é considerada alpina em termos de dificuldade, devido à sua extensão e exposição. Na Ilha de Skye, Collie conheceu John Mackenzie, um guia de montanha, e juntos eles escalaram extensivamente nas montanhas Cuillin.
Collie foi o primeiro a descobrir e escalar o Cioch, um bloco de rocha vertiginoso na face de Sron na Ciche. Os nomes de Collie e Mackenzie ainda são lembrados em Sgùrr Thormaid (Pico de Norman) e em Sgùrr Mhic Choinnich (Pico de MacKenzie).
Uma Curiosidade Inesperada
Aqui vai uma curiosidade saborosa: estudos biográficos sugerem que J. N. Collie pode ter sido uma das inspirações pro Sherlock Holmes. Pensa bem: era solteiro, dividia casa com um advogado, tinha uma mente analítica afiada por pesquisas químicas e era um fumante inveterado de cachimbo. Sir Arthur Conan Doyle, criador de Holmes, era seu contemporâneo e também um entusiasta do montanhismo. A conexão é, no mínimo, intrigante – faz sentido, né?
Collie então revelou um evento traumático de 34 anos antes, em 1891.
Ao se aproximar do cume do Ben Macdui, sozinho e envolto em névoa, começou a ouvir um “estalo” ecoando cada um de seus passos. Algo enorme estava com ele lá. E pior: Aquele treco o seguia.
O barulho era tão grande e a sensação de pavor tão avassaladora que o experiente montanhista e cientista… fugiu. Ele correu “cegamente” por quilômetros, cambaleando entre as rochas, até se sentir seguro. Um montanhista – ainda mais um experiente – nunca corre na nelina na montanha porque um passo em falçso pode significar a morte. Mas nosso amigo Collie não quis saber, ficou tão aterrorizado que foi pro tudo ou nada numa corrida desesperada. E jurou nunca mais voltar àquele lugar desprotegido.
Impressionante! O relato, vindo de um homem assim, chocou a comunidade. Como um racionalista inventaria algo do tipo? A semente do mistério tava plantada. E as especulações começaram!
A Lenda Cresce: Soldados, Tiros e Terror Puro
Depois do depoimento de Collie, uma enxurrada de relatos semelhantes veio à tona. Montanhistas descreviam passos arrastados, uma sensação opressiva de being watched (estar sendo observado) e um medo irracional que nascia do nada. Eu mesmo, lendo esses relatos, fico com um frio na espinha. Quando você se deara com o sobrenatural, seus instintos de sobrevivência falam mais forte.
Em 1943, o capitão Alexander Tewnion, outro alpinista experiente, decidiu passar sua licença militar explorando Ben Macdui. Armado com um revólver, ele se viu surpreendido no cume por uma névoa repentina que antecederam aqueles mesmos passos pesados. Quando uma forma enorme e indistinta emergiu da bruma caminhando na direção dele, Tewnion usou a filosofia diplomática do Texas: disparou várias vezes. Mas a criatura não parou. Ela veio pra cima dele!
Foi aí que o nome surgiu: ao fugir, Tewnion descreveu o que viu como um “grande homem cinza”.
Outro relato marcante veio de Peter Densham, em 1945, um homem conhecido pelo seu absoluto pragmatismo.
NO alto da mointana, ele se viu engolfado pela misteriosa névoa também. A seguir, ele que não acreditava, viu seu coração ser pressionado numa angustia que surgiu do nada e ele sentiu uma “pressão no pescoço” que antecedeu um “pavor absoluto”. Isso fez o homem cético fugir antes mesmo de ver qualquer coisa lá.
Esses testemunhos, muitos vindos de soldados já endurecidos pela guerra, davam um peso sinistro à lenda. Tipo assim, não eram pessoas impressionáveis, eram caras durões.
Quem (ou O Que) é o Fear Liath Mòr?
Após décadas de relatos, um perfil da criatura começou a se formar, consolidado por pesquisadores como o montanhista Affleck Gray em seu livro “The Big Grey Man of Ben Macdui” (1970). Na sua opinião, o Homem Cinzento seria:
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- Colossal: Com altura estimada entre 3 e 6 metros – assustador, né?
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- Humanoide e Alongado: Membros anormalmente compridos, movendo-se de forma vagarosa.
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- Envolto em Névoa: Sempre aparece acompanhado de uma densa bruma cinzenta, que esconde seus detalhes.
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- Causador de Pavor Psíquico: Sua presença induz uma sensação de terror, desespero e paralisia, muitas vezes antes de ser visto.
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- Não Agressivo, mas Ameaçador: Ele parece seguir, observar, mas nunca atacar diretamente. Seu objetivo seria mais de intimidação.
Curiosidades céticas que podem explicar o mistério
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- O Efeito “Brocken Spectre”
Esse fenômeno óptico, comum em montanhas, pode criar a ilusão de um gigante. Quando o sol projeta a sombra de um observador sobre o nevoeiro, ela pode aparecer ampliada e cercada por um halo colorido. Um poeta chamado James Hogg relatou um susto assim nas Cairngorms em 1790, pensando ter visto um demônio, até perceber que a “criatura” imitava seus movimentos. Já aconteceu comigo numa viagem à serra – quase caí pra trás!
- O Efeito “Brocken Spectre”
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- O Som do Medo:
Cientistas propõem que os fortes ventos de Ben Macdui podem gerar infrassons (sons abaixo de 20 Hz, inaudíveis pra gente). Essas frequências podem causar ansiedade, calafrios, tontura e até alucinações visuais, explicando o pavor e as “visões” dos alpinistas. É o mesmo princípio que faz certas frequências de som causarem mal-estar. Faz sentido, né?
- O Som do Medo:
Explicações ou evasivas? O grande debate
Alguns podem teorizar possibilidades que vão de aliens gigantes na montanha a homens das neves como o Yeti ou o Pé Grande, ou ainda, seres de outra dimensão ou simplesmente, um monstro.
Os céticos têm um arsenal de teorias convincentes. Além do Espectro de Brocken e dos infrassons, há a poderosa sugestão psicológica. Quem sobe ao Ben Macdui já conhece a lenda. Num ambiente hostil, de névoas repentinas e ventos uivantes, a mente, sob estresse, pode transformar sombras e ruídos naturais na temida criatura.
Mas os crentes contra-atacam com um argumento sólido: os primeiros e mais vívidos relatos, como os de Collie e Tewnion, vieram de homens racionais, experientes e, inicialmente, céticos. Eles não estavam procurando por monstros; o monstro é que parece tê-los encontrado. Por que Collie, um homem da ciência, arriscaria sua reputação com uma invencionice? Difícil responder…
Pra se aprofundar na geografia e no contexto dessa montanha lendária, você pode dar uma olhada na página da Ben Macdui na Wikipedia.
Um mistério que define a montanha
Seja como for, o Homem Cinzento de Ben Macdui transcende a simples lenda de monstro. Ele se tornou parte do espírito do lugar. Seja um fenômeno natural mal interpretado, uma projeção dos nossos medos mais primitivos ou algo genuinamente inexplicável que habita os lugares altos e isolados do mundo, sua função narrativa é clara.
Ele nos lembra que, mesmo numa era de satélites e explicações científicas pra tudo, ainda há espaço pro mistério. Que a natureza não é só um cenário bonito, mas pode ser uma força ativa, capaz de evocar emoções profundas e irracionais. Talvez o verdadeiro “guardião” do Ben Macdui não seja uma criatura de pelos, mas a própria combinação de solidão, paisagem sublime e clima traiçoeiro, que, juntos, escrevem histórias na mente daqueles que ousam desafiar seu cume. A próxima vez que a névoa descer nas Highlands, você vai ouvir apenas o vento… ou algo mais? Pensa nisso.

Esse fenômeno óptico, comum em montanhas, pode criar a ilusão de um gigante. Quando o sol projeta a sombra de um observador sobre o nevoeiro, ela pode aparecer ampliada e cercada por um halo colorido. Um poeta chamado James Hogg relatou um susto assim nas Cairngorms em 1790, pensando ter visto um demônio, até perceber que a “criatura” imitava seus movimentos. Já aconteceu comigo numa viagem à serra – quase caí pra trás!
Cientistas propõem que os fortes ventos de Ben Macdui podem gerar infrassons (sons abaixo de 20 Hz, inaudíveis pra gente). Essas frequências podem causar ansiedade, calafrios, tontura e até alucinações visuais, explicando o pavor e as “visões” dos alpinistas. É o mesmo princípio que faz certas frequências de som causarem mal-estar. Faz sentido, né?