O Senhor Miyagi e a moça do Telemarketing

Como eu esculpi o busto do Senhor Miyagi

miaguis | Textos | esculturas, miniatura, modelo
Eu tenho um busto do Senhor Miyagi, que era o mestre de Daniel San, que fica aqui na minha mesa de trabalho. Ele fica ali parado, do lado dos meus dois trilobitas, me julgando.
Eu não sei por que exatamente que, dentre os mais de 500 bonecos que eu fiz, escolhi justo este para ficar na minha mesa. Mas o fato é que ele fica ali, talvez como um lembrete sobre disciplina ou qualquer baboseira de coach sobre esforço, determinação, coragem e outras dessas coisas, que pega super bem colocar no linkedin.
Hoje eu estava conversando com a minha mulher sobre como cada escultura tem uma história e que às vezes ela pode ser engraçada ou até mesmo esquisita. Aí a Nivea apontou pra ele e perguntou: “Qual é a história desse?” De cara eu não me lembrava, mas então, na sequência lembrei: O Senhor Miyagi surgiu graças a uma ligação de telemarketing.
Esse Senhor Miyagi é o último de uma série de 10 bustos de resina que modelei, imprimi, fiz molde e pintei e vendi para meus amigos, com essa base de madeira gravada a laser.
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Anos atrás, eu estava recebendo uma ligação de uma empresa querendo me empurrar mais um cartão de crédito. Eles eram chatos, mas eram chatos num nível absurdo mesmo. Foi antes da iniciativa do “não perturbe” e antes dos celulares te avisarem de spam. Então, parecia que eles sabiam de alguma maneira, quando era o momento mais inconveniente do mundo para me perturbar.
Aí teve um dia que eu tinha acabado de entrar no programa de modelagem 3d, criei uma esfera, liguei a simetria e ia começar a modelar quando tocou o telefone. Eu já até imaginava. Era ela. A atendente insistente do cartão de crédito pré-aprovado com 1001 benefícios desinteressantes e primeira anuidade paga.
Tive um insight. Eles iriam me ligar sem parar enquanto eu não encerrasse o protocolo de atendimento completo. Talvez eles tivessem algum script que só iria me remover da fila se a ligação chegasse ao fim. Como eu – deseducadamente – batia o telefone na cara deles, provavelmente o sistema considerava queda na ligação e por isso eles ligavam novamente.
Assim, botei o celular no viva voz e simplesmente dei corda pra ver até onde ia. Começava ali o jogo de paciência mais comprido do Telemarketing brasileiro hahahaha. Ela falando e eu perguntando, pedindo mais informações e fazendo “o interessado”. Enquanto isso, fiquei modelando livremente.
Eu tive pena da dona quando ao final, na hora de fechar eu disse que agradecia a proposta, mas que após ouvir atentamente todos os detalhes minuciosamente tinha decidido que talvez aquele não seria um bom momento para adquirir mais um cartão de crédito daquela bandeira.
Quando eles desligaram, eu olhei o busto que tinha modelado e achei ele parecido com o Senhor Miyagi e ajustei um pouco mais. Mas hoje pensando nisso, eu fico com pena.
Deu pra sentir o odio na voz dela. Eles realmente não ligaram mais. Pelo menos por uns meses, mas dois anos depois, voltaram a ligar e agora mandam até mensagens no meu whatsapp ainda insistindo no tal cartão de crédito.
Talvez seja o caso de modelar outro personagem.
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